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Pierre-Joseph Proudhon: os 221 anos do primeiro autodeclarado anarquista da história

 

Aquele que botar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirado. Eu o declaro meu inimigo.

 

Em uma obra chamada “Qu’est-ce que la propriété? ou Recherche sur le principe du droit et du gouvernement” (“O que é a propriedade? ou Pesquisa sobre o Princípio do Direito e do Governo”, publicada em 1840) o tipógrafo autodidata em latim Pierre-Joseph Proudhon (Besançon, 15 de janeiro de 1809 – Paris, 19 de janeiro de 1865) foi o primeiro a assumir uma posição política que ainda não tinha sido plenamente esboçada até então.

Segue a passagem intitulada “Diálogo com um Filisteu”, presente em tal obra:

 

“Como, de que forma você responde tal pergunta? Você é um republicano?”
“Um republicano! Sim; mas essa palavra não é nada específica. Res publica; isto é, a coisa pública. Agora, quem quer que seja interessado em assuntos públicos – não importando sob qual forma de governo – pode chamar a si próprio de republicano. Até mesmo reis são republicanos.”
“Bom! Você é um democrata?”
“Não.”
“O que? “Você gostaria de viver numa monarquia?”
“Não.”
” Um constitucionalista?”
“Deus me livre.”
“Então você é um aristocrata?”
“Não mesmo!”
“Você quer uma forma mista de governo?”
“Ainda menos.”
“Então o que você é?”
Eu sou um anarquista.
“Ah! Estou te entendendo; você diz satiricamente. Isto é um ataque ao governo.”
“De forma alguma. Eu apenas lhe apresentei minha mais séria e bem ponderada declaração de fé. Ainda assim sou um firme amigo da ordem, sou (no sentido forte do termo) um anarquista. Entenda-me.”

 

 

 

Não que o termo tivesse sido “inventado” por ele.

Anteriormente o termo era usado, mas sempre em tom pejorativo e incrustado de um sentido de irresponsabilidade e monstruosidades não-conceitualizáveis. Era algo bastante aproximado do sentido de “idiota” na pólis grega: alguém inapto a lidar com a questão pública, a vida política da cidade, e por isso que vivia metido numa alienação capitaneada pela vida privada. Ou alguém que confundiria e fundiria as duas esferas atropelando assim as virtudes civis. O tirano, por exemplo, é um idiota. O negacionista também.

Não precisamos dizer aqui que o termo “idiota” tem sido um dos mais atualizados e empregados com recorrência. E que os idiotas – no sentido grego, mas modernizado – em sua maioria têm ocupado as mais altas esferas do poder público, inclusive a Presidência da Repúlica.

Claro, uma coisa não é igual à outra e Pierre-Joseph Proudhon foi um dos primeiros a colocar os pontos nos ‘i’s e jogar luz sobre a questão. Reivindicou para si o título de anarquista ao mesmo tempo em que abriu caminhos na geografia dos espectros políticos.

Assim sendo, Proudhon é, com muita justiça, considerado o primeiro grande ideólogo do anarquismo do Século XXI. E com isso inspirou outros revolucionários anarquistas a buscaram suas próprias formas de organização e luta nos Estados Unidos e em diversos países na Europa.

Foi a partir de seu trabalho na tipografia que Proudhon travou contato com figuras importantes que em sua época representavam as mais diversas facções políticas. Dentre eles chegou a entravar conversações políticas e filosóficas com Charles Fourier, autor de teorias sobre os falanstérios libertários que iria influenciar bastante a visão de Proudhon.

 

As reações a “O que é a propriedade?” foram tensas, pesadas. Isso porque Proudhon responde sem papas na língua: “A propriedade é um roubo!”

O livro acabou chamando a atenção das autoridades francesas para o nome de Proudhon, que já começava a se engajar na política em diálogo e articulação com os movimentos dos trabalhadores na França. Afinal, quem que gostaria de ver uma das principais – ou a principal – bases da civilização capitalista burguesa, a propriedade privada, ser tão firme e afrontosamente questionada e subvertida como numa obra assim?

Uma insolência dessas a uma instituição “inquestionável” não poderia sair barata: Proudhon foi perseguido e chegou a ser preso posteriormente algumas vezes. Tudo o que fizesse dali em diante seria suspeito aos olhos das autoridades francesas.

Proudhon questiona, nessa e em outras obras posteriores, a concepção de propriedade privada que se estende não apenas sobre a terra, mas também sobre o trabalho produtivo dos indivíduos e grupos sociais nas relações econômicas e como jurídica e politicamente essa propriedade é protegidas de modo a expropriar os indivíduos.

Em contraposição, propunha uma concepção de propriedade coletiva a partir do uso comum feito e estruturado por associações – ou cooperativas – de trabalhadores, que teriam o direito de dividir o fruto do trabalho e decidir a respeito da comercialização e troca dos excedentes.

Assim também diferenciava o grau da propriedade entre as que seriam legítimas pelo seu uso social produtivo e aquele outro que seria impróprio por ser terra improdutivas e que alimentavam a questão da especulação e outros usos que gerariam um capital privado, não social.

 

 

Alguns dos interessados na obra – do lado dos intelectuais do movimento proletário – foram o revolucionário e filho de aristocrata russo Mikhail Bakunin, até então interessado na filosofia de Hegel e nas doutrinas comunistas de Saint-Simon e Charles Fourier, e o jornalista alemão exilado em Paris, Karl Marx, futuro pai do chamado “socialismo científico” que desenvolveu junto ao economista alemão e filho de industriário, Friedrich Engels.

Em 1844, em Paris, os três se encontraram, conversaram, se admiraram e conspiraram juntos. O filme “O Jovem Karl Marx” (2017)  do cineasta haitiano Raoul Peck retrata alguns desses momentos dos três revolucionários. Podemos ter alguma idéia do quão interessante foi esse período da história.

No entanto, em 1846 Proudhon publica seu Système des contradictions économiques, ou philosophie de la misère (Sistema das contradições econômicas, ou filosofia da miséria) em que critica ferozmente a disposição autoritária de alguns setores comunistas presentes no movimento dos trabalhadores. Karl Marx leu, vestiu a carapuça, e retrucou a crítica com uma obra chamada Filosofia da Miséria. Os homens, que antes se encontravam e se correspondiam com admiração haviam, rompido laços. Proudhon, ingênuo ou não, acreditava em saídas pacíficas.

Não à toa, além de revolucionários anarquistas como o próprio Mikhail Bakunin e o anarco-sindicalista italiano Errico Malatesta, Proudhon está entre as grandes influências de pacifistas como o ativista indiano Mahatma Gandhi e o político norte-americano Martin Luther King.

 

 

Em sua vida pública e política Proudhon teve grandes amigos e foi bastante admirado. Gustave Courbet (lembram dele? já o citamos antes por aqui) pintou seu retrato mais conhecido. O poeta e crítico de arte Charles Baudelaire o chamava de “O Homem Terror”. 

Celebrar a data de nascimento desse homem que enfrentou o seu tempo e nos deu obras polêmicas, inspirou tantas pessoas e movimentos ao longo da história e do globo terrestre (desculpem, mas a terra não é plana, folks!), é um incentivo a mais para enfrentar nossos próprios demônios contemporâneos e derrubarmos os “mitos” que hoje imperam.

Afinal, como já dissera o primeiro anarquista autodeclarado da História, Pierre-Joseph Proudhon: “Os grandes só nos parecem grandes porque estamos de joelhos. Levantemo-nos.

Lutemos!

 

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Abraço apertado e bon voyage, até o próximo post.