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Impeachment: por que ainda não saiu?

A moderna história das nações tem furos muito graves. Em casos como o do Brasil, por exemplo, não foram suficientes 521 anos para se fundar uma nação no sentido mais alto e respeitável da palavra (se é que existe algo do tipo, né – acho esse conceito uma “patifaria”). Aliás, foram exatamente 521 dedicados à pilhagem, estupros, premiação e enriquecimento de carniceiros – com respiros muito, muito, muito ínfimos.

Sob a égide da terra arrasada e o domínio da cruz, este imenso pedaço de continente flutua num mar de atrocidades.

Com a modernidade, no entanto, multiplicaram-se os agentes políticos envolvidos na disputa pela história. As forças do passado não podiam lidar com a perda de seus territórios (materiais e simbólicos) e arregimentaram violentas reações para se manter no controle da realidade: o duro período do Regime Militar, que durou 21 anos e regressa desde 2018, é um fantasma que não foi devidamente exorcizado do corpo-nação.

Vivemos oficialmente uma distopia. Uma distopia que mistura farsa, meme e pesadelo. Na coordenação dessa retomada do espírito de porco das fardas está um oficial de baixa patente – um verdadeiro nanico – com complexo de superioridade e que precisa medir sua “virilidade” contra os avanços do conhecimento científico e os marcos do bom senso.

De todos os governantes autoritários provavelmente Bolsonaro é a pior encarnação do Ubu de Alfred Jarry, uma versão dublada num filme de Sessão da Tarde: até a sua virilidade é forjada, performática – mesmo suas “flexões” são mentirosas. A sua estética é a mais abjeta, brega e retrógrada possível. Seus discursos perfilam a incapacidade e impotência para o bom português e a obscura inclinação para a pornocracia e a necropolítica temperadas pelo delírio aberto das fake news, quando não da pura mentira mesmo.

O parasita-presidencial zomba abertamente do Brasil e do mundo. Em sua paranoica cabeça – apesar de ser o chefe-supremo da nação – não possui “poder nenhum”, pois as outras instituições “o impedem de governar”.

Não tem andado nada fácil respirar no Brasil.

Além das matas atlânticas, do Pantanal e da Amazônia terem queimado e diminuído de tamanho para que a monocultura e a agronegócio explorem a terra está faltando oxigênio nos hospitais do maior estado do país. Não é mera ironia que o tão chamado “pulmão do mundo” – embora saibamos bem que essa não seja a verdade, enfim – esteja sofrendo com a asfixia.

Não é fácil contabilizar objetivamente todos os crimes e merdas que Jair Bolsonaro tem perpetrado desde o começo de seu governo. Algumas coisas talvez até as pessoas tenham esquecido. Dizem que o brasileiro tem “memória curta”. Será?

Tentemos lembrar de alguns desses episódios aqui:

Depois do tweet presidencial perguntando “O que é Golden Shower?”, internautas se divertiram respondendo ao Presidente.

Isso sem contar os contínuos e progressivos boicotes do próprio governo em relação as saídas da ciência para a vacinação e contenção da pandemia. Crimes esses que não são mais do campo da responsabilidade, mas crimes de Direitos Humanos mesmo. Isso que Bolsonaro chamava de “esterco da vagabundagem”.

Manaus e a invenção dos “leitos de asfixia” (as câmeras de gás da pandemia bolsonarista) parece apenas mais um detalhe trágico e perigoso – embora a parcela do poder local, municipal e estadual, também devam ser contabilizadas e responsabilizadas. Um pouco antes o Amapá passou por um apagão que durou semanas inteiras.

Até o momento em que escrevo já se contabilizam nada mais, nada menos, que 61 pedidos de Impeachment sobre os quais está sentada a inútil bunda do Presidente da Câmera dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

E por que esse urgente Impeachment não sai? Seria pelo mero desgaste dessa crucial ferramenta do povo contra a impostura e incompetência dos governantes? Como veremos, o buraco é mais embaixo…

Embora quiséssemos que fosse verdade, foi comprovado que esse tweet atribuído ao Presidente é falso: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/10/11/verificamos-bolsonaro-povo-soberano/

A reação de Bolsonaro aos pedidos de Impeachment acumulados no Congresso foi, ao invés de rever e corrigir suas posturas, buscar apoios em sua antiga casa. Afinal, Bolsonaro basicamente “morou” naquele lugar – como irrelevante deputado, político bravateiro e sanguessuga profissional – durante quase três décadas. Ele pode não ser capacitado cognitivamente para muitas coisas e conhecimentos complexos, mas para traficar influência e comprar apoios…

Assim, no caso de haver votação, com a articulação feita por ele, ele conseguiria parte majoritária e se esquivaria de ser catapultado de sua posição.

Como a base orgânica da extrema-direita por lá não é grande (alguns congressistas do PSL, do REPU, do PSC, do PATRI e do PRTB) ele precisava de um setor que estivesse à venda na negociata de cargos, posições, verbas e emendas parlamentares – “a velha política” que Bolsonaro sempre criticou pra sua audiência, mas que sempre encarnou e performou na prática: enfim, a hipocrisia… Bolsonaro, claro, teve que se “vender” ao famoso Centrão, o balcão de negociatas da fisiologia política.

Seja quem for que esteja no Poder, o Centrão é um conglomerado que vende o seu apoio em trocas políticas, de influências, que se revertem em favores políticos como nomeações e cargos e muita grana – e com seu apoio os governantes conseguem menos atritos em sua “governabilidade”, menos impedimentos para operar o poder. O único interesse do Centrão sempre foi o de se manter em posições de poder e privilégio – principalmente por meio de cargos nas instituições públicas – para poder continuar enriquecendo os seus adeptos, independentemente dos ventos da maré política.

Como bom hipócrita que é, Bolsonaro se vendeu como “a nova política” – muito embora estivesse no Congresso bicando das sobras dos grandes acordos capitaneados pelos setores do Centrão há quase três décadas – fazendo críticas ao Centrão. Embora mais radical e abertamente fascínora, Bolsonaro nunca foi em essência diferente dos deputados corruptos e oportunistas deste setor.

No entanto, para agilizar institucionalmente esse Impeachment esse setor precisa ser tirado de sua “zona de conforto”. E não é meramente “batendo panela” que essa pressão e aquecimento político irão mobilizá-lo.

Com a nova crise do oxigênio nos hospitais em Manaus, durante a pandemia, os protestos conhecidos como “panelaços” voltaram a ocorrer por todo o país

Há também os problemas concernentes a uma “Direita Liberal” que se opõe a Bolsonaro. Os fascistas que se querem “limpinhos” e se aglutinam em torno de João Dória, Luciano Huck, Sérgio Moro, Amoedo… um setor que está buscando se fortalecer para 2022. Serão os próximos alcoviteiros da nação.

Atualmente é este o setor mais amplo e difuso que detém controle sobre a política brasileira – inclusive as presidências da Câmera e do Senado e a maioria dentro do judiciário, bem como grande controle dos maiores veículos de comunicação do país. Em sua maioria se afirmam liberais na economia e conservadores nos costumes. É de dar um nó na cabeça… e nas tripas.

Não por acaso foi o setor que mobilizou e operou politicamente o golpe de 2016 contra Dilma – mesmo sem crime de responsabilidade comprovado! – e que colocou Michel Temer com sua agenda retardatária e possibilitou a criação do “mito” Bolsonaro. Bolsonaro, como disse bem a historiadora Lília Shwarcz no Roda Viva, não é o aprofundamento do golpe, mas ele é o próprio golpe.

Maia e o setor da “direita liberal” está paralisando e segurando as rédeas do catastrofismo para que Bolsonaro continue “sangrando” e se desgaste politicamente. De modo que possam assumir a dianteira nas próximas eleições. E é essa maldita politicagem que tem tornado nossos dias ainda mais difíceis e impossíveis de digerir.

A mobilização popular, que poderia ser capitaneada pela esquerda, poderia ajudar a população a entravar no combate político do dia-a-dia (dentro e fora das instituições) a disputa pela morte das agendas neoliberais necropolíticas. A compreensão histórica das esquerdas é a compreensão de que o capitalismo é uma hydra morta amputando suas próprias cabeças: não há mais recursos, a própria natureza está em rebelião contra a subjugação da maquinaria especulativa.

Apoiar essa manifestação popular seria, então, uma forma de suicídio político. No entanto, não haverá nenhuma saída para a nosso impasse genocida e cruel senão pela ampla mobilização que fará tremer as classes políticas. Num período de recrudescimento da pandemia, entretanto, isso parece ainda uma incerteza…

Há também a incerteza sobre o depois. Será que não seria possível a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão com base na campanha feita pelo disparo de Fake News e dinheiro não declarado? E com a cassação, como seria no caso do Presidente da Câmara, no caso, o Deputado Rodrigo Maia, se tornasse presidente? E no caso de não for ele quem assumisse o cargo, quem iria?

Enquanto isso a única certeza que temos é que a politicagem mata a política oficial e sacrifica toda a população. Em nome dos velhos interesses e da organização do saque das hienas vidas são jogadas fora como dispensáveis. Vidas das mesmas pessoas que “confirmaram” no botãozinho verde a permissão para que os urubus as devorassem.

Enquanto isso as pessoas estão morrendo asfixiadas em Manaus e em todo o país, 60 bebês prematuros estão sendo transportados dos hospitais de Manaus para os de outras capitais onde possam ser atendidos e colocados em incubadoras com oxigênio. Nenhum daqueles setores evangélicos que acusaram a menina de 10 anos de “assassinar” o filho de um estupro sistemático deu qualquer sinal de revolta.

Enquanto isso os moradores de rua, os pobres, as pessoas da periferia, os negros, as pessoas trans, as mulheres, os indígenas e quilombolas continuam sendo perseguidos, assassinados e deslegitimados em todas as esferas sociais, econômicas, sanitárias e políticas…

Partidos de esquerda (PT, PCO, PCdoB) fazem protesto em frente ao Congresso Nacional pedindo impeachement do prsidente Jair Bolsonaro. Sérgio Lima/Poder360 21.05.2020

Bolsonaro está agindo com o país como o policial que asfixiou George Floyd naquele vídeo horroroso que rodou a rede e provocou as manifestações do Black Lives Matter nos Estados Unidos. Ou como os seguranças do Carrefour que espancaram e assassinaram Beto Freitas aqui mesmo. Aliás, esse é um dos genocídios que jamais tiveram fim por aqui. Ele nunca tirou sua farda de milico – apenas colocou, de forma mal enjambrada como algo que é obrigado a aderir a um “corpo estranho”, a faixa presidencial por cima.

Nesse momento, devemos nos lembrar daquele maravilhoso haitiano que, diante do “mito”, disse que o governo tinha acabado, que Bolsonaro não era mais o presidente.

Sua bota de milico, lustrada por seus seguidores e baba-ovos, está em nosso pescoço que está suspenso no meio-fio exposto às intempéries, à brutalidade e à pandemia. Ou Bolsonaro sufoca o Brasil ou o Brasil sufoca Bolsonaro. Ou guilhotinamos Bolsonaro ou ele vai nos guilhotinar: qual vai ser?

Será que iremos assistir passivamente esse verme – que alguns boçais chamam de “mito” – destruir o nosso presente e o nosso futuro?

Está mais do que na hora da ação, companheiros.

 

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Esse conteúdo foi livremente inspirado pela postagem feita no perfil @thiagovilabrasil – agradecemos ao conteúdo e ao esclarecimento trazido. Aliás, vejam a thread que ele fez a respeito de “Por que não avança o Impeachment de Bolsonaro“. Recomendamos fortemente.

 

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Abraço apertado e bon voyage, até o próximo post.