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Bolsonaro e o totalitarismo à “1984” de George Orwell

 

Que o governo brasileiro tenha transformado o nosso cotidiano em distopia completa não é novidade.

No entanto, o plágio às técnicas e visões captadas do clássico romance distópico “1984” escrito pelo jornalista e ativista político indiano Eric Arthur Blair assinado sob seu nome de pena mais conhecido – George Orwell – parece não ter fim.

A obra, escrita em 1948, deslindou um sistema de vigilância e controle operado por um partido estruturado e hierarquizado por um líder e um pensamento único. É daqui que surge a expressão Big Brother e o panóptico modernizado – com sistema de câmeras, sensores e telas – que o historiador e filósofo Michel Foucault teria tido um orgasmo analisando.

Agindo como o tal “Ministério da Verdade” no romance, o Ministro da Saúde e o presidente andam mentindo deslavadamente para toda a população brasileira. Bolsonaro tem utilizado sistematicamente do caos desinformativo, da mentira e da confusão deliberada como método de governo. É a guerra pelo controle autoritário da narrativa.

No prefácio da peça-livro BozzonarUbu – Sátira Distópica Hiper-realista em 5 Atos e Meio (2020) de Hellgina NoArt escrevi um ensaio de 14 páginas no qual faço um retrato do bolsonarismo como um projeto fascista com métodos de asfixia, controle e perseguição capilarizada em toda a sociedade. E como a guerra cultural pela narrativa, operada politicamente pelo bolsonarismo a partir do resgate e da reivindicação da justificativa do regime brutal que foi o período da ditadura no Brasil (1964-1985) desde a Comissão da Verdade (2011-2012), tem levado ao desmonte e sequestro das instituições democráticas.

O Presidente e seus grupo de abutres, desde os primórdios de sua (indi)gestão, tem utilizado do velho truque da confusão com ações e decisões que provocam furor e controvérsia na opinião pública e que, diante das pressões sofridas, acabam por voltar atrás. Todavia, eles acabam encontrando um jeito de impor aquilo que originariamente desejavam.

Dentre os truques de controle de percepção da realidade e de narrativa também se encontram o descrédito com os meios de comunicação oficiais, o questionamento da Ciência diante de inexplicáveis “teorias” de WhatsApp, a assunção hipócrita da religião como estatuto político e a mentira contínua. Intrometem “Deus” no meio de assuntos profanos como uma desculpa para não serem questionados pelos fiéis, pelo público, pela piedosa população brasileira.

Na educação tal controle e lavagem cerebral ideológica estava estruturada num programa chamado “Escola Sem Partido” que incentivava, antes de tudo, a espionagem por parte dos alunos a professores tidos como “comunistas” e do campo ideológico da “esquerda”. Isso também é algo totalmente “1984”.

O contínuo desmonte da educação pública – cotejamento de verba para pesquisa e incentivo científico, inclusive – de um lado e o crescimento de escolas militares e religiosas de outro também fazem parte desse projeto de ditadura do pensamento único. Além do apedrejamento de um do maior patrono da Educação brasileira – reconhecido mundialmente, inclusive -, o pedagogo Paulo Freire.

A “novidade” agora é que – além de continuar espalhando fake news e continuar sendo, por isso, censurado nas redes sociais como o Twitter – Bolsonaro apagou as fotos em que aparecia como “garoto propaganda” da Cloroquina como remédio para os efeitos da Covid-19 e medicação para “tratamento precoce”.

Estão dizendo que o “presidente” Jair Bolsonaro não quer que divulguem essas fotos dele indicando a Cloroquina. Não espalhem essas imagens, por favor!

Tal como no romance de Orwell, em 1984 – e que aconteceu na história da União Soviética durante o período de terror de Stálin – todos aqueles ou tudo aquilo que contradizia a narrativa unidimensional do poder – que incorporava certas alterações bombardeando a percepção dos erros cometidos anteriormente – era sumariamente amputado e apagado da memória coletiva. 

A manipulação dos fatos se daria pelo apagamento histórico das provas de que as antigas decisões, os antigos parceiros incriminados, os antigos conchavos, eram deletados das contas que acompanham em tempo real o poder, e com isso ele se “depurava” do contato com elementos contagiosos ou com algo comprometedor.

A correção da possível atenção que críticos, jornalistas ou outros poderiam fazer como censura ao governo seria dada pela manipulação conceitual de termos: o Ministro, em conferência, confunde jornalista ao fazer passar que ela escutou errado ele falar sobre atendimento precoce e não sobre tratamento precoce. Uma sutileza que mascara sua má intenção e sua índole mentirosa perversa.

Nas suas falas em entrevistas e lives junto ao General-Ministro da Saúde Eduardo Pazuello é possível ver o desconcerto do militar ao ter que assumir as falas mentirosas do seu chefe, aquele que lhe fora inferior dentro da esfera militar.

Agora o governo quer fazer de conta que nunca recomendou a Cloroquina e a Hidroxicloroquina como tratamento precoce para quem apresentasse sintomas do Covid-19. Claro, quem é que engoliria isso, depois do tanto de imagens e vídeos produzidos, inclusive com o próprio Presidente falando abertamente – durante o período em que esteve acometido da doença – que estava se “tratando” com a Cloroquina.

Jair Bolsonaro promove aglomerações em plena pandemia enquanto ergue caixa de Hidroxicloroquina como se levantasse uma hóstia sagrada ou um troféu.

No site do próprio Ministério havia um aplicativo no qual se poderia fazer uma avaliação em tempo real para encaminhamento de procedimentos de tratamento precoce. E dentro dele estava a recomendação da Cloroquina e Hidroxicloroquina. Porém, como isso contradizia a nova narrativa eleita por Bolsonaro e pelo Ministério – a de que “nunca recomendaram a Cloroquina” ou qualquer medicamente sem eficácia científica comprovada – o tal aplicativo foi retirado do ar!

O próprio midiático – e dizem, candidato a presidente em 2022 – Luciano Huck repete sistematicamente o método do apagamento de fotos “comprometedoras” de seu perfil. Se alguém é cancelado, Huck se apressa em apagar foto como se quisesse dizer ao seu público “não conheço e nunca foi meu amigo, nem meu aliado!”.

Típica manobra do totalitarismo denunciado por Orwell, concordam?

Também é típico de um governo autoritário como o de Bolsonaro o altíssimo gasto em propaganda e em remédios ineficazes no lugar do investimento concreto em uma saída dada pela pesquisa científica.

Como todos já sabem Pazuello pode até ser um “craque” em logística, mas em termos de lidar com uma instituição gigante e determinante como um Ministério da Saúde, sua gestão é fraca, incompetente e cheia de lacunas e fraudes. Absolutamente sem nenhum preparo. Aliás, foi justamente essa a expertise – e a capacidade de não questionar o chefe se aliando à Ciência, que era o que qualquer ministro decente e responsável faria, mas que lhe custaria a cabeça – que lhe garantiu o interesse de Bolsonaro em convidá-lo ao cargo.

A trapalhada metódica de Bolsonaro e sua guerra imaginária ao “Comunismo” globalizado levaram o país ao mais completo isolamento no mundo. Seus discursos – bem como o discurso de seus ministros e chanceler – temperados de paranoia e conspiração provocam a ridicularização global e a construção de um muro que transforma a população brasileira em uma epidemia que deve ser evitada a todo custo.

Por conta disso, vemos as dificuldades de negociação dos insumos – já pagos, aliás – para a fabricação da vacina para o Covid-19 com a China e a Índia, irem para o bueiro, afogarem sem mesmo verem a ponta da praia. E essa indefinição e descuido programático tem elevados custos humanitários e sanitários: o vírus não “suspende” seus efeitos, ele não tira férias enquanto o Brasil se “decide” e acerta.

As pessoas continuam morrendo, Manaus ainda continua um caos e o problema do oxigênio e dos hospitais sem estrutura para assistir e tratar os casos graves já chega no interior do Pará.

O projeto do bolsonarismo anda de mãos dadas com a morte coletiva.

 

Bolsonaristas em Curitiba fazem protesto reproduzindo falas genocidas do “Presidente”

No entanto, a vacina já existe e já chegou ao Brasil – parte pela acertada insistência do Instituto Butantã e de outro político ao qual não irei me referir aqui para não lhe dar “palco político”: uma vez que ele já está acumulando capital político para uma possível disputa com Bolsonaro em 2022. Essas inimizade espetacular entre os setores da Direita camufla um buraco não assumido: o projeto dos dois é o mesmo, só os métodos variam.

Bolsonaro e seus asseclas tentam, de todas as formas – cabíveis ou não – apagarem os limites da democracia para fazer vazar o totalitarismo que os excitam no exercício do poder. São homens que, no pleno exercício do poder, se sentem com vigor, se sentem no direito ao exercício aberto da violência. O preço é alto demais para que permitamos que isso continue assim.

Autêntico necrófilos que gozam com o cadáver de sua população, a pulsão de morte bate continência para o vírus que marcha montado a cavalo ou anda de jet-ski enquanto sua população agoniza nos novos “leitos de asfixia”, o update bolsonarista das câmaras de gás.   

 

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Um grande beijo, bon voyage e até o próximo post!