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[Tradução] Jim Jarmusch em entrevista para o The Creative Independent

Para celebrar os 68 anos completados do cineasta independente norte-americano Jim Jarmusch, nós da ProvokeATIVA fizemos a tradução de uma de suas entrevistas. Confiram aí abaixo:

 

Você está ocupado fazendo malabarismo com uma variedade de projetos, incluindo trabalhar num novo filme e tocar em uma banda. Você é alguém que prospera estando ocupado?

Jim Jarmusch: Eu não costumava. Estava habituado a apenas fazer uma coisa por vez, mas nos últimos 10 anos eu realmente mudei dramaticamente e agora faço um monte coisas ao mesmo tempo. Não sei, algo mudou em mim. Acho que percebi o quão rápido a vida estava passando. Quando não tenho a pressão de um plano específico, apenas faço um monte de coisas. Considerando que se eu tenho um plano, ás vezes é um pouco assustador assumir outra coisa. Eu também estou chegando naquele horrível período de tempo que envolve que eu consiga o financiamento conjunto para um novo filme. Não é nada agradável. Além disso, eu realmente não gosto de promover filmes depois de prontos. Eu só quero ir e fazer algo novo. Eu tenho necessidade de ter algo a mais criativo para se trabalhar. Eu gosto de trabalhar nas coisas. Eu não gosto de perder tempo.

 

 

O ator Johnny Depp interpreta William Blake (não o poeta, rs) em “Dead Man” (1995). Filme bem-sucedido com a crítica.

 

Você tem uma história de trabalhar com músicos em seus filmes, mas você sempre fez música também? Você tocava música quando você era garoto?

J. J.: Não, eu não tocava. Eu tentei aprender trombone quando era criança, mas eu realmente não fiz música. Nós tínhamos um pequeno piano em nossa casa por um tempo e eu sempre quis tocá-lo, mas eu nunca fiz nenhuma aula. Não foi até o começo dos meus 20 quando eu comecei a fazer música, quando parecia que todo o mundo tava fazendo música também. Costumava haver panfletos no East Village em certo ponto do fim dos anos 70 que dizia, “Todo mundo aqui está em uma banda.” Era meio que verdade. Fiz um monte de música naquele período, e parei por um bom tempo, tipo… 20 anos. Eu realmente não sei porquê. Eu fui consumido por fazer filmes. Talvez 10 ou 12 anos atrás eu percebi que eu realmente precisava ter alguns projetos musicais de novo. Desde então, tenho feito um monte de música. É uma boa mudança de ritmo pra mim. Quando você faz um filme e está gravando e você tem todas essas pessoas maravilhosas com quem você está colaborando, é como se você tivesse tipo em um navio pirata com um monte de pessoas. Quando você está fazendo música é como se estivesse em um pequeno bote a remo com apenas duas outras pessoas. É mais simples.

Por que você acha que fazer cinema venceu no final?

J. J.: Fazer cinema tornou-se uma coisa obsessiva para mim. Eu coloco toda minha energia nisso por duas décadas aqui, mas eu também continuei a escrever e fazer alguma arte e fotografar. Eu continuo a fazer um monte de coisas diferentes. Tendo um monte de projetos musicais e algum tipo de arte e escrever projetos, eu apenas me sinto muito melhor.

Eu amo fazer cinema porque contém todas as outras formas dentro dele. Todas elas, basicamente. Música e fotografia e composição e atuação e escrita e estilo e forma. Se relaciona com quase toda outra forma de expressão humana, mesmo arquitetura em algum grau. Tem todas essas coisas aí, que é parte da razão pela qual eu ultimamente gravitei nessa direção. É importante que cineastas tenham interesses variados. Os cineastas realmente interessantes são um pouco diletantes por necessidade. Eu me considero um diletante, não em uma maneira negativa, mas porque eu tenho interesses em um monte de coisas diferentes e quero tentar fazê-las. Não sou necessariamente um mestre em nada.

Quando as pessoas pensam em você em primeiro lugar como um cineasta, é realmente um desafio também ser visto e levado a sério como músico?

J. J.: Yeah, é duro porque você está lidando com a percepção do público sobre você, o que pode ser muito limitado. A audiência de massa pode ser muito mente fechada. As pessoas ficam surpresas ao descobrirem que, por exemplo, Johnny Depp foi um músico antes e depois ator. Agora quando ele toca música, é como “Oh, é aquele ator tocando música.” Mas, na realidade, é mais como quando ele está atuando, é um músico que está atuando. Eu tento ser muito cuidadoso para não ter a mente fechada e pensar nas pessoas apenas como uma coisa.

Tocar música engaja uma parte diferente do seu cérebro do que trabalhar em um filme ou fazer arte visual?

J. J.: Oh sim. É tão imediato e é realmente sua própria linguagem. Parece uma forma totalmente imediata de comunicar e interagir. Eu não leio música, então eu não estou tocando em um idioma clássico rigoroso quando estou interpretando algo que foi precisamente escrito, mas mesmo naquele caso, a forma que o violinista toca certo trecho de música vai variar dependendo da pessoa. Há algo de si mesmos na suas técnicas ou em suas expressões. Eu costumava ter muito ciúmes dos músicos. Sabe, 20 anos atrás eu estaria trabalhando em um filme por quase dois anos e então estaria saindo com alguém como Tom Waits. Ele senta em um piano e toca alguma coisa bonita e isso simplesmente evapora – estava ali e agora se foi. E era tipo “Uau, isso é incrível“. Acontece logo ali no momento.

Enquanto isso, eu estou laborando em cima desse filme por meses e meses. Quando chega a hora que termina e saio promovendo-o, eu nem mesmo sou a mesma pessoa que eu era quando o comecei. As pessoas perguntam, “O que este filme significa?” nem eu mesmo sei. Eu sequer me lembro. Eu já estou pensando em algo novo. Há algo tão mágico a respeito da música. Penso a respeito de ver plateias inteiras cantando junto uma música mesmo quando está em uma língua que elas não falam ou entendem. Acho isso especialmente engraçado com o hip-hop, ver romenos cantando junto com as faixas de Eric B & Rakim. Eles ao menos sabem o que estão dizendo? Mas, em um jeito eles não precisam, porque estão recebendo o sentimento tão fortemente. Mesmo se eles não sabem o que as letras significam, eles ainda estão entendendo de algum modo. Música pode fazer isso.

“Down By Law” (1986), o quarto longa-metragem de Jim Jarmusch, estrelado por Tom Waits, Roberto Benigni e John Lurie.

Nos anos recentes você tem criado a música para seus próprios filmes. Deve ser muito satisfatório também ser capaz de controlar esse aspecto do seu trabalho.

J. J.: Bem, é meio que acidental. Quando nós estávamos fazendo um filme chamado “The Limits Of Control” [“Os Limites do Controle”], eu estava juntando a partitura com a música existente, e eu não estava conseguindo encontrar nada que funcionasse para aquelas sequências onde um cara corre dentro de museus de arte, olha para um pintura, e sai. Por volta desse tempo eu fiz outra coisa de música. Jack White tinha me pedido para fazer um remix de uma música do White Stripes chamada “Blue Orchid“. E o editor com quem eu estava trabalhando no filme disse, “Por que você mesmo não tenta fazer música para aquelas sequências?” Não tínhamos nada a perder, então fizemos e funcionou bastante bem. É um pouco assustador quando eu conheço tantos músicos incríveis e trabalhei com gente como RZA e Neil Young e Tom Waits. Originalmente eu ficava tipo “Bem, por que eu mesmo pensaria em fazer isso uma vez que conheço todas essas pessoas maravilhosas?” Mas, pela circunstância, foi meio que necessário para aqueles filmes. Agora nós continuamos fazendo-o.

Jarmusch e o cantor canadense Neil Young
Iggy Pop e Jim Jarmusch na época da promoção do documentário “Gimme Danger” sobre The Stooges
Iggy & The Stooges, objetos do documentário “Gimme Danger” (2016)

Sem querer derrubar o mundo do cinema, mas também deve ser legal ter esses projetos criativos que não têm nada a ver com esse mundo.

J. J.: Realmente é. Ficou estranho aquele mundo, principalmente com o financiamento dos filmes. É tão diferente agora do que costumava ser. Eu tive muitas pessoas geniais que me ajudaram a fazer meus filmes, então não estou zombando delas, mas há quase um sentimento de que você deveria ficar de joelhos e agradecer os financiadores por apenas terem deixado você fazer um filme. É como… pera um pouco, estou te trazendo esse roteiro e esses atores, eu realmente tenho que ficar de joelho e agradecer a você por NÃO me pagar por isso? Não é tão mal assim para mim, mas mudou bastante. Tenho alguns amigos que estão finalizando um filme documentário e os financiadores olharam para o orçamento e disseram, “Pera aí, você enquanto diretor espera ser pago também?” Mesmo que fossem parcos $25,000 por quatro anos de trabalho ou algo assim. É tipo… “Uau, cara, sério?” Então sim, é bom dar um tempo de todo esse nonsense.

Dennis Hopper uma vez disse em alguma entrevista, algo como, “Você sabe, fazer um filme é realmente difícil e é tão difícil fazer um péssimo filme quanto é fazer um bom filme. É difícil pra caralho.” É verdade. É difícil fazer um filme. Não é algo fácil. Toma muito de você. Você realmente precisa ser forte. Wernor Herzog está sempre dizendo, “Você precisa ser um atleta para conseguir, fisicamente” e todo esse tipo de coisa. E é verdade. Cada um tem sua própria abordagem, mas fazer cinema realmente requer muita energia, foco, e concentração. Não é uma coisa fácil de fazer, mas é satisfatório para mim, porque tem todas as outras formas de arte misturadas dentro. É uma forma tão alegre para mim. Eu simplesmente amo. Sou um geek de cinema, então venho absorvendo filmes desde que era criança, quase como um maníaco, mas eu também absorvo música e livros e outras coisas como um maníaco. Mas eu apenas amo demais filmes, e no fim é para onde eu sempre retorno.

Músicos, escritores, cineastas: David Lynch e Jim Jarmusch

É claro que existem muitos artistas que fazer apenas uma coisa obstinadamente, mas parece saudável ter vários canais criativos. Alivia um pouco a pressão.

J. J.: Acho que isso é verdadeiro. Sabe, cada um é diferente e cada um tem que encontrar um jeito de trabalhar que lhe sirva, mas parece bom ser capaz de tentar coisas diferentes. Eu não sou um cineasta profissional. Eu digo veementemente que sou um cineasta amador, em parte porque a origem da palavra amador é “o amor à forma” e profissional quer dizer “eu faço isto por dinheiro“. Então eu sou um cineasta amador porque eu amo a forma. Eu não quero usar a palavra “artista” para mim mesmo. No lugar disso, direi apenas que eu sou uma pessoa cujo trabalho realmente é pegar um monte de coisas que me inspiram e então de algum modo criar coisas que irão voltar para mim. Há outras pessoas que parecem ter uma sensação similar. David Lynch, por exemplo. Ele faz música. Ele é pintor. Ele faz um número de coisas. Há bastante cineastas que têm variado formas de expressão. Algumas pessoas requerem vários canais e algumas pessoas apenas precisam de um. Eles são como criadores de criaturas unicelulares – eles têm uma coisa que vão fazer. Eu respeito isso. Eu fui assim durante um bom tempo apenas fazendo cinema, mas eu percebi eventualmente que o meu trabalho real é um pouco mais amplo que isso.

Frame de “Paterson” (2016)

Você mencionou antes que envelhecer te deu um senso crescente de urgência sobre realizar coisas. O que você acha que é isso?

J. J.: Eu realmente sinto isso. Não analisei demais, mas é apenas uma sensação de que, enquanto você envelhece, o tempo realmente começa a ir mais rápido e rápido. Ainda há muitas coisas que eu quero estar apto a fazer. Coisas que eu quero tentar. Tenho dois projetos de livros na minha manga que eu quero trabalhar. Eu realmente não quero azará-los falando demais sobre eles, mas eu tenho dois desses. Tenho escrito poesia desde os anos 70. Realmente não compartilho muito, mas tem coisas que eu talvez considerasse publicar. Não tenho certeza. Faço colagens de papel de jornal e agora tenho uma pasta com quase talvez 300 delas, então quero fazer um livro delas e então mostrar por aí. Mostrei um pouco delas antes, mas quero fazer mais. Então eu tenho esses projetos e também tenho mais projetos musicais nos trabalhos.

Trabalhei arduamente para montar meu pequeno laboratório criativo aqui em Catskills, então agora eu tenho um prédio separado da minha casa que tem um quarto de arte/música e outro que será um tipo de sala de projeção. Eu organizei para fazer minha arte, escrever, ler, ver filmes, e para fazer música, seja sozinho ou com outros. Sou bem do tipo, não pare agora. Agora é o momento para fazer mais música e mais coisas. Sou muito feliz assim. Me sinto bem a respeito. Não espere. Não perca tempo. Faça.

 

Tradução: IkaRo MaxX

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Essa entrevista encontra-se originalmente no site The Creative Independent e pode ser lida na íntegra em inglês aqui. A conversa se deu com T. Cole Rachel e foi postada no dia 10 de julho de 2017.

 

Filmografia do Jim Jarmush:

Permanent Vacation (1980) • Stranger Than Paradise (1984) • Down by Law (1986) • Mystery Train (1989) • Night on Earth (1991) • Dead Man (1995) • Year of the Horse (1997) • Ghost Dog: The Way of the Samurai (1999) • Coffee and Cigarettes (2004) • Broken Flowers (2005) • The Limits of Control (2009) • Only Lovers Left Alive (2013) • Paterson (2016) • Gimme Danger (2016) • SQÜRL“The Dark Rift” (2017)

 

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