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[Tradução] A cada um o seu Debord – artigo do Le Monde

Guy Debord (Paris, França – 1931-1994) foi um dos mais radicais e libertários autores marxistas e anticineastas da história contemporânea. Pensador revolucionário convulso, “doutor em nada”, notório bêbado e conspirador astuto, Debord – junto ao movimento que ajudou a fundar, a Internacional Situacionista – foi um dos principais inspiradores da ala mais radical da esquerda de Maio de 68. Anteriormente já tinha travado contato com as vanguardas estéticas por meio do movimento dos letristas do qual fizera parte junto a Isidore Isou (calma! Também falaremos deles nesse Blog).

Notabilizou-se, sobretudo, com a sua obra magna A Sociedade do Espetáculo (1967) que saiu em filme, realizado a partir do desvios de obras pré-existentes pelo próprio Debord, em 1973.

Ainda falaremos muito neste blog sobre esse autor, cineasta e crítico feroz da sociedade moderna, das formas espetaculares do capitalismo e da vida tornada mercadoria.

Por ora, trago-vos a tradução que fiz de um artigo de 2013 do Le Monde sobre os espólios das obras – os arquivos – de Debord e que publiquei em antigo perfil meu em 11 de março de 2019. Abre aí sua breja, sua cachaça, seu vinho (ou o que você quiser) e segue o post!

Boa leitura!

 

O bom de copo Guy Debord bebe com o situacionista italiano Gianfranco Sanguinetti.
Os membros fundadores da Internacional Situacionista em Cosio d’Aroscia (uma vila italiana) em 28 de julho de 1957 depois de sua primeira assembléia internacional… em um bar! Participaram membros da Internacional Letrista, do Movimento Internacional por uma Bauhaus Imaginista e da Sociedade Psicogeográfica de Londres.
Uma típica noitada com os situacionistas

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Dezenove anos após sua morte, a Biblioteca Nacional Francesa apresenta os arquivos inéditos de um homem que não queria herdeiros.

por Raphaëlle Rérole — 21 de Março de 2013

 
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Guy Debord em 1959

Seria preciso certa malícia para conceber a manifestação parisiense que vai se abrir na Biblioteca Nacional da França (BNF). Ou, ao menos, o gosto do desafio: dar a ver, em um templo do Estado, os arquivos de um intelectual ainda crítico de todas as instituições e da sociedade em geral. Tentar cartografar um pensamento polimorfo, profundamente refratário, misantropo, sarcástico e sistematicamente endereçado contra as tentativas de recuperação.

A partir de 27 de março, os visitantes poderão então deambular na exposição “Guy Debord, uma arte da guerra”. Centenas de fichas de leituras, cartas, fotos, revistas, correspondências são agenciadas como um vasto jogo de pistas em torno das estratégias postas em vista por Debord em sua luta contra a alienação contemporânea. Tudo retirado dos fundos comprados pela BNF, à viúva de Guy Debord, pela soma astronômica de 2,7 milhões de euros.

Cada um poderá sem dúvida achar lá o “seu” Debord, pois esta é uma das particularidades deste pensador fora das normas: seus temas e sua sensibilidade irradiaram em direções muito diferentes, ele mesmo estando deslocado ao longo de sua existência de um campo a outro do pensamento. O que é mais, Debord deslizou da revolução a uma forma de pessimismo social, até reação, entre o começo e o fim de sua vida. Tanto que hoje, os herdeiros desse homem que não os queria são numerosos, e seus perfis dessemelhantes.

Autores e poetas que fizeram a cabeça da juventude contestatória radical em Maio de 68, Guy Debord com seu “La Société du Spetacle” e Raoul Vaneigem com o “Traité sur le Savoir-Vivre pour les jeunes générations” ambos lançados em 1967, suas obras  derrubaram os muros das universidades, dos partidos, das escolas e das fábricas trazendo a urgência de uma transformação radical da sociedade.

ARTIFÍCIO

Perto de vinte anos após sua morte, em 30 de novembro de 1994 (na idade de 62 anos), o que resta do pensamento de Guy Debord e da Internacional Situacionista, o movimento do qual ele foi o principal fundador? Além de um título de livro, A Sociedade do Espetáculo (Contraponto, 2003), agitado aqui e ali como um artifício por pessoas que nem sempre o leram, de que maneira as idéias de Debord e dos situacionistas impregnaram a sociedade?

A resposta a essa questão é forçadamente aproximativa, tanto a paisagem é vasta e suas linhas borradas. Da filosofia à publicidade, passando pela arquitetura, o urbanismo, a arte, a sociologia, a literatura, os “situs” são propagados em direções inesperadas. É que Debord teve o gênio de ver de forma ampla e olhar longe, precedendo sempre a época em alguns passos. Numerosas teses suas foram confirmadas. Como se a História desse razão a esse grande leitor de Marx que vomitava a sociedade do espetáculo — dito de outro modo, as relações sociais mediatizadas pela imagem e de onde toda autenticidade desaparecia. Debord combina dois grandes tipos de reflexões: um sobre o peso das “infra-estruturas”, desde que ele oferece uma reformulação da teoria marxista na era das mídias. A outra sobre a alienação e as formas possíveis de resistência do sujeito. “Ele representou bastante para os pensadores críticos da sociedade”, afirma Bruno Racine, presidente da BNF, que lutou para reunir, junto a patronos, a quantia necessária para a aquisição desses arquivos.

VISÃO RADICAL DO MUNDO

Curiosamente, essa visão radical do mundo está infiltrada com uma notável flexibilidade nas diferentes gerações que se sucederam desde meio-século. “Cada época teve sua maneira de ler Debord,” observa Jean-Louis Violeau, sociólogo, professor na École d’architecture de Paris-Malaquais e bom conhecedor da obra do pensador. “Nos anos 70, com uma perspectiva revolucionária; nos anos 80, ele tornou-se o breviário dos trabalhadores da comunicação; o decênio seguinte, ele era aquele que não tinha se deixado ter pelos mentirosos dos diferentes totalitarismos; agora, ele inspira pessoas do Occupy Wall Street e os Anônimos por sua denúncia da sociedade mercantil.” Entre aqueles que são inspirados por seus escritos, encontra-se Julien Coupat, um dos autores do manifesto A Insurreição que Virá (La Fabrique, 2007), posto em exame no incidente dito “de Tarnac” (sabotagem de uma catenária de uma linha de Trem de Grande Velocidade), em 2008.

Estamos na mesma estrada que nossos inimigos, mais frequentemente, os precedendo”, tinha escrito Debord, nos inícios da Internacional Situacionista, nos fins dos anos 1950. Ironia da sorte, esse pensamento foi reciclado por aqueles que ele denunciava nas mídias, na comunicação, na publicidade. Oliviero Toscani, o famoso fotógrafo italiano que concebeu os cartazes de Benetton nos anos 80, não hesitou em fazer referência a Debord. E os métodos da “nova administração” são fortemente inspiradas em idéias ligadas ao desenvolvimento da criatividade, do projeto individual e de “todos artistas”.

A sociedade mercantil recicla tudo”, sublinha o romancista Morgan Sportès, que conheceu o escritor e que o cita em seu romance Tout, tout de suite (Fayard, 2011). “Não havia razão para ela não reciclar Debord!

“FILOSOFIA DO DESACEGAMENTO”

Uma das particularidades dos situacionistas foi afirmar uma subjetividade radical. Nenhuma escola, nenhuma pretensão à cientificidade para esse “pensamento rude”, segundo a expressão de Emmanuel Guy, jovem comissário associado à exposição da BNF. Como resultado, a transmissão acadêmica do pensamento de Debord é difícil. “A Sociedade do Espetáculo é difícil de proferir em um espaço universitário, por conta de seu caráter explosivo”, explica Francis Marmande, escritor e professor de literatura em Paris-VII. Mais em qualquer caso do que as idéias de Foucault, Bordieu ou Baudrillard, outros críticos da sociedade contemporânea.

Em filosofia, Debord não faz mais verdadeiramente receita, mesmo se alguém como o italiano Giorgio Agambem continue se referindo a ele. ‘Os conceitos de situação e de espetáculo tem sido repensados sob a luz das filosofias analíticas e pragmática’, considera o escritor Christophe Hanna. ‘De fato, Debord funcionou, sobretudo, como um vigia. Ele criou uma filosofia do “desacegamento”’.

 

SE LIVRAR DA CAMISA DE FORÇA

Ele é sobretudo aquele que aprende a ver, a se desembaraçar dos anteolhos, a se liberar das camisas-de-força. É verdadeiro para Gérard Berréby, fundador das edições Allia, que relançou os documentos situacionistas nos anos 80, quando quase nada estava disponível: “Esse pensamento me ajudou a me estruturar”, afirma esse homem que tinha 17 anos em 1968. “Sua posteridade não se mede em número de teses, mas na maneira na qual ela se torna um fermento para a ação.

Em um outro registro, Frédéric Olivennes, diretor de comunicação e da imagem e marketing da France Télévisions, nascido em 67, conta que a leitura de Debord lhe fez compreender que ele era “uma criança da sociedade do espetáculo”. E como não se deixar “enganar” pelas armadilhas deste sistema. A escritora e crítica Cécile Guilbert, nascida em 1963, publicou um belo ensaio intitulado Pour Guy Debord (Gallimard, 1996), no qual destaca a vitalidade do discurso de Debord, notável estilista. Uma força e uma potência de subversão aos quais um escritor como Philippe Sollers, a que frequentemente escreve sobre Debord, notadamente no Le Monde, é a ele também muito sensível. Enfim, entre os mais jovens, os membros da revista transdisciplinar Gruppen reivindicam essa “herança intelectual indispensável para compreender a época”, segundo as palavras de Pierre-Ulysse Barranque, um de seus responsáveis, com a idade de 29 anos.

 

Os congressos “internacionais” da Internacional Situacionista muitas vezes não passavam de uma reunião – sim, internacional, com artistas de diversas nacionalidades – ao redor de uma mesa de bar num bistrô, num café ou num hotel decadente.
No canto inferior esquerdo a escritora Michèlle Bernstein (esposa de Debord), o pintor Asger Jorn, um “brother” (haha) e Guy Debord. Sabiam viver.

PARA A ULTRAPASSAGEM DA ARTE

Mas é no domínio artístico que o pensamento de Debord exerce uma maior influência. Pois a Internacional Situacionista se queria antes de tudo, um pouco como os surrealistas em seu tempo, uma vanguarda revolucionária devotada ao ultrapassamento da arte. Debord é notadamente o autor de vários filmes, como o In girum imus nocte et consumimur igni (1978). Hoje, um cineasta como Olivier Assayas se apaixona pela obra de Debord, a qual reeditou sua parte cinematográfica em DVD. Não se encontra nada do cinema de Debord naquele de Assayas, nada de visível em todo caso, mas a influência é reivindicada: “É uma reflexão pessoal que alimenta minha prática de escritura, minha observação da sociedade, minha prática do cinema”, indica o cineasta.

Tanto no cinema quanto nos seus textos, Debord utilizou largamente do desvio: reciclar frases ou imagens de outras obras, não sob forma de citação ou homenagem, mas com o fim de produzir um objeto novo. Essa prática insolente, que procedia rejeitando a propriedade intelectual, fez numerosos seguidores na arte. Poderia-se multiplicar os exemplos. Em 1981, a americana Sherrie Levine fez escândalo: ela re-fotografou imagens célebres de Walker Evans, o inventor, nos anos 1930 e 1940, no “estilo documentário” em fotografia. 1993, o artista escocês Douglas Gordon assinou a instalação 24 Hours Psycho (psicose de 24 horas), no qual retoma Psicose, o filme de Hitchcock, mas o desacelerando de tal forma que ele dura vinte e quatro horas. Enfim, no mesmo ano, Michel Hazanavicius, futuro realizador do OSS 117 e The Artist, lançava Le Grande Détournement, inteiramente composto de cenas emprestadas do cinema americano, sortidas de novos diálogos.

“Realização da Poesia” – Painel realizado por Debord a partir de variações da 11ª Tese Sobre Feuerbach do filósofo e economista alemão Karl Marx. Enquanto continuadores dialéticos dos movimentos de vanguarda do século XX como o dadaísmo e o surrealismo, os situacionistas visavam, em seu programa político e estético, suprimir as separações das esferas da cultura, da arte e da vida para realizá-las na síntese da revolução da vida cotidiana. Realizar a poesia na vida vivendo artisticamente ao invés de produzir objetos mercantis.
Mapa Psicogeográfico de Paris, um dos estudos afetivos de deriva feitos por Guy Debord e outros situacionistas

“DERIVA” URBANA

O desvio é também presente na obra gráfica e na cartografia cara aos situacionistas. Grande agrimensor de cidades, Guy Debord vituperava contra a cidade fragmentada, mercantilizada. Sua concepção de “deriva” urbana e seus itinerários não-padronizados interessam a artistas plásticos como Anna Guilló, mestre de conferência em Paris-I e animadora da revista de arte e estética Tête à tête, de inspiração debordiana. Segundo a jovem, os situacionistas tem herdeiros imprevistos na street art, como Space Invader, por exemplo. Os artistas de rua não forçosamente leram os textos de Debord, mas suas maneiras de elaborar itinerários gráficos sobre os muros das cidade remete duplamente a Debord: é uma forma de “deriva” urbana, uma maneira de balizar o território deixando traços e também fazendo descer a arte às ruas, como preconizam os situacionistas.

Mais amplamente, sublinha Anna Guillo, uma grande parte de arte contemporânea está impregnada da estética da “situação”: os artistas, diz ela, criam ambientes como uma forma de arte. As obras se tornam mais e mais frequentemente dispositivos, difundidos pela internet ou por performances, que objetos no sentido clássico do termo”.

UMA POSTERIDADE DIFUSA

E então? Pode-se dizer, seguramente, que o pensamento de Guy Debord terminou em fracasso, desde que a revolução não adveio. A destruição da sociedade do espetáculo, que ele chamava com saudações em seu livro, não teve lugar. Mas esse pensamento também conheceu uma posteridade difusa: ela se infiltrou na vida dos indivíduos, na sua maneira de olhar o mundo, na sua sensibilidade mesmo. Guy Debord se tornou um clássico: seus textos são publicados, seus filmes são vistos, e seus arquivos logo serão expostos.

Os mais críticos de seus admiradores não deixam de observar que Debord havia preparado essa quase-”panteonização”: ele havia duplicado suas cartas e enviado, ainda em vida, uma parte de seus documentos pessoais ao Instituto Internacional de História Social de Amsterdã, que conservava os arquivos de movimentos revolucionários. Não impede: mesmo clássico, seu pensamento não perdeu suas virtudes corrosivas. Uma barra de dinamite, em suma, que continua a fazer medo, de seduzir e fascinar bem depois que seu autor deixou de a brandir.

Publicado no Le Monde

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