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O olhar do artista Man Ray

Criar é divino, reproduzir é humano.”

 

Será que o jovem pintor norte-americano Man Ray desconfiava do que aconteceria com sua carreira quando estava em Nova Iorque em 1915 e travou contato com os artistas franceses Marcel Duchamp e Francis Picabia?

Man Ray (1890-1976), pseudônimo de Emmanuel Rudnitsky, nasceu na Filadélfia, nos Estados Unidos, no dia 27 de agosto de 1890. Ainda jovem mudou-se para o Brooklyn, em Nova Iorque. Em 1909 iniciou seus estudos na The Social Center Academy of Art. Adota o pseudônimo de Man Ray. Em 1912, iniciou sua carreira artística e logo se tornou amigo dos artistas da vanguarda da pintura e da fotografia em Nova Iorque.

Foi, no entanto, em 1915, ao conhecer os artistas supracitados que Man Ray engajou-se na aventura niilista e destrutiva de Dada e fez parte do núcleo inaugural desse movimento nos Estados Unidos.

Gosto de contradições. Nunca alcançamos a infinita variedade e contradições que existem na natureza. Amanhã vou me contradizer. Esta é a única maneira que tenho de afirmar minha liberdade, a liberdade real que não se encontra como membro da sociedade.

Man Ray, “Autorretrato” – seria uma espécie de proto-selfie? 


Irritados com a barulheira da guerra, o recrutamento ostensivo de jovens para as fileiras da morte e com o tédio de uma vida em marcha para o fim do mundo, os Dadaístas moviam seus esforços estéticos para o choque e o escândalo da sociedade da época.

O objetivo maior era tirar o público da complacência e da sua passividade diante dos acontecimentos obscuros do século. E dizer que sim, que a culpa de tudo aquilo também era deles.

A obra-de-arte surgida desse período reinventa tanto o conteúdo quanto a forma por meio de procedimentos de destruição, desconstrução e esvaziamento dos signos sacramentados pela arte clássica e pelos valores estéticos que serviam para adoçar a vida falseada das camadas sociais mais altas. Bem como desconjuntar coisas como título e conteúdo manifesto, de modo a provocar o observador e o crítico.

Não que com isso as outras classes “entendiam”, mas provavelmente teriam reações mais próximas ao riso do que o escândalo e ojeriza provocadas nas elites mais conservadoras.


Acredito na relação entre a fotografia e a música; essa é a minha inspiração.

A tela “Orquestra Sinfônica” (1916) é um dos exemplos da safra criativa de Man Ray no seu período junto a Dada
The Rope Dancer Acompanies Hessel With Her Shadows (1916)

 

Os truques de hoje são as verdades de amanhã.

 

Em 1921, após o divórcio com sua mulher, a poeta belga Adon Lacroix, Man Ray muda-se para Paris onde junto com Duchamp se integra ao Movimento Dadaísta francês.

Lá realiza seu primeiro “Ready-made” (criação conceitual de Duchamp no qual peças ordinárias reconfiguradas resultam num novo objeto estético).

Depois de diversos experimentos, fazendo uso de tinta spray na pintura, Man Ray dedica horas pesquisando métodos em busca de aperfeiçoamento da fotografia. A fotografia – uma arte que ainda não era vista como tal na época – o fascina e ele desenvolve técnicas com ela, principalmente por meio da manipulação dos negativos e a exposição momentânea à luz na câmera escura.


O criador precisa de apenas um entusiasta que o justifique.

Man Ray, “Anatomy” (1929)

“Woman With Long Hair” (1929)

 

Não há progresso na Arte, assim como não progresso em fazer amor. Há somente maneiras diferentes de fazê-lo.

 

Em 1924 com o surgimento do Surrealismo em Paris junto a Breton e cia., Man Ray recebe e abraça o movimento. Nesse mesmo ano, fotografa o “Le Violon d’Ingres”. Hoje, já é um clássico da iconografia manrayneana.

A partir do interesse dos surrealistas pelo cinema Man Ray também dirigiu e produziu filmes surrealistas, como o curta “L’Étoile de Mer” (1928) que também conta com a presença do poeta Robert Desnos.


A Natureza não cria trabalhos de arte. Somos nós, e a faculdade de interpretação peculiar à mente humana, que vemos arte.

 


Antes de levar a fotografia para outros patamares, Ray tornou-se um reconhecido retratista, capturando imagens não só de pintores da época, entre eles Picasso e Salvador Dali, mas também de poetas, como Paul Éluard (1895-1952).

Ray tornou-se um fotógrafo badalado e faturou muito com isso. Geralmente ele ia ao ateliê dos artistas, fotografava suas obras, proseava e tomava cafés.

Logo depois já estava colaborando junto a Breton em sua revista surrealista.

Em suas imagens o fotógrafo-pintor Man Ray recorria a técnicas do século XIX – de certa forma, já obsoletas naquele período – para conseguir os efeitos responsáveis por deixar suas imagens singulares.  


Eu preferiria fotografar uma ideia ao invés de um objeto, um sonho ao invés de uma ideia.
 

Uma das mais citadas e reconhecidas de Man Ray, “Violon d’Ingres” (1924)
“Les Doigts d’Amour de Main Ray” (sic) – a brincadeira aqui consiste no trocadilho do pseudônimo do artista com a palavra “mão” (main) em francês
“Glass Tears” (1932)

Todos os críticos deveriam ser assassinados.


Durante muitos anos vivendo no bairro de Montparnasse, em Paris, Man Ray revolucionou a fotografia, em particular fazendo uma série de nus de Meret Oppenheim, uma artista surrealista que se permitiu ser fotografada por Man Ray.

Em 1932, criou a foto “Lágrima” um close de um rosto virado para cima com gotas de vidro para imitar lágrimas. 

Quando adveio a Segunda Guerra Mundial, Man Ray voltou ao seu país natal. Por lá voltou ao bussiness da fotografia, mais voltado para a moda e também fotografou estrelas do cinema como Ava Gardner, Catherine Deneuve, Marilyn Monroe e outras.  

Pinto o que não pode ser fotografado, algo surgido da imaginação, ou um sonho, ou um impulso do subconsciente. Fotografo as coisas que não quero pintar, coisas que já existem.


Veja mais algumas das obras deste importante artista:

 

“Dali atomicus” (1948), uma das imagens mais conhecidas e icônicas do pintor catalão Salvador Dali feita por Man Ray – interessantíssima fusão de fotografia, artes plásticas e performance

André Breton por Man Ray
Man Ray, “Le Travesti Barbette”

 

O filme não reconhece nem o tempo, nem o espaço, apenas os limites da imaginação do homem.


Em 2019, a cidade de São Paulo teve o prazer de sediar a exposição “Man Ray em Paris” no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da capital paulista. Uma exposição gratuita aberta a visitação geral.

Eu mesmo tive o prazer de ir duas vezes à exposição. Numa delas – a primeira – levei minha filha. Tivemos insights poderosos por lá. E ver tão de perto a obra de um artista deste porte é absolutamente inspirador.


Eu tenho sido acusado de ser um piadista. Mas, a arte mais bem-sucedida para mim envolver humor.


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