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O (quase) inacessível cinema de Stan Brakhage

A arte é um sentido da magia.

 

O nome Stan Brakhage (Kansas, 1933-2003) não é escutado nos grandes meios de comunicação em que se trata a respeito do mundo dos filmes.

É algo até bem óbvio e esperado, uma vez que tal espaço é comprado, dócil e servil, servindo à reprodução da cultura do cinema comercial e de entretenimento, a cultura de consumo do cinema blockbuster. O “cinema” de narrativas facilmente deglutíveis e de histórias baseadas em gatilhos psicológicos e apelo às emoções que gera lucro certo aos produtores e investidores.

Brakhage, no entanto, ganhou reputação crescente ao longo de sua vida e carreira por conta de seu denso experimentalismo e sua busca por transgressões não-narrativas, experimentos não-lineares e uma linguagem audiovisual completamente desafiadora a todos os padrões.

Seus 321 filmes realizados (!!!) – ou seriam mais? ou menos? – entre 1952 e 2003 dizem muito e dão a dimensão exata de alguém que viveu em prol de continuar se desafiando a criar sem buscar limitação alguma.

O cara trabalhou sem parar, por assim dizer, durante cinco fucking décadas. Sabem o que é isso?

Não seria exagero dizer que foi o maior – ao menos em quantidade de produções – realizador de cinema experimental que já viveu entre nós. (Haveria algum outro tão louco quanto? Comentem, por favor. Queremos conhecê-lo.)

Cineasta experimentador radical, Stan Brakhage mergulhava de cabeça em todos os processos da construção de seus filmes e experimentos audiovisuais

 

Imagine um olho desregulado pelas leis humanas da perspectiva, um olho não prejudicado pela composição lógica, um olho que não responda ao nome de tudo, mas o qual deve conhecer cada objeto encontrado na vida por meio da aventura da percepção. Quantas cores estão ali no gramado para o bebê que engatinha inconsciente do ‘Verde’? Quantos arco-íris pode a luz criar para o olho não-disciplinado?


Stan Brakhage expandiu as fronteiras e horizontes técnicos, temáticos, criou dispositivos cinematográficos e estimulou a experiência com a luz em níveis antes não-pensados pelo cinema enquanto linguagem e arte.

A obra de Stan coloca em suspensão todos os conceitos usuais que estruturam a percepção dos observadores: afinal, o que é um filme? O que é cinema? Do que se trata quando falamos de “filmes” ou de “fazer filme”? Quais são os limites do dispositivo cinematográfico?  O que é necessário para se ter, conceber ver, ou fazer um filme”?

O que é essencialmente cinematográfico?

E, tão importante quanto qualquer outra cima: para onde vão as imagens irrepetíveis e em completa fuga? O cinema não é apenas uma arte dos planos e da tela, da direção e dos objetos compostos pela luz e retratados pela câmera: o cinema – e o filme – também acontece nos olhos e na cabeça de seus espectadores.

Para o espectador, então, a tarefa é ainda mais peculiar: cada espectador possui sua própria experiência estética dos filmes de Brakhage. Não não há filmes iguais para espectadores comuns dos filmes “comuns”, nestes então extrapolasse a experiência da singularidade. Ele teria dito que tentava fazer com que o cinema mostrasse aquilo “que cada um vê quando fecha os olhos“.

No curta metragem de 3 minutos Mothlight (1963), por exemplo, Brakhage utilizou pedaços de caules, folhas, raízes, insetos mortos e os pressionou em um projetor fazendo diversos frames que compõem a imagem-movimento que unifica as sequências de quadros criados pelo diretor-artista.

Parece até algumas vinhetas que a publicidade nos anos 90 absorveu – me fez pensar em vinhetas nonsense que passavam na MTV, por exemplo:

 

Brakhage compondo seu fotograma para um dos seus experimentos audiovisuais

Há um monte de filmes feitos para ninguém.


Muitas das suas obras seguem essa revolução conceitual e técnica operada por ele: são obras que não são definidas por um “roteiro”, por uma “história”, por uma construção narrativa visando personagens que interagem para produzir determinados resultados e catarses emocionais típica do cinema tradicional ou conservador.

Muitos até nem tinham sequer “trilha sonora” e acabavam sendo mais um experiência “visual” do que “audiovisual”. A exemplo do curta Stellar (1993), uma espécie de passeio lisérgico no espaço sideral silencioso. Esse curta foi realizado em parceria com o impressor óptico da Western Cine Sam Bush no qual Stan diz ter composto a “partitura visual” enquanto Bush a executou:

“Metaphors on Vision”

Esse até poderia ter sido uma daquelas projeções que rolavam na época do Swinging London em clubes como o UFO onde tocava – e experimentava – o Pink Floyd na época do Syd Barrett, concordam?

Ele próprio não se chamava de “cineasta” e, devido à sua produção excessiva, estava mais apto a ser um “fazedor de filmes” quase como numa linha de montagem que implica o labor físico, além do labor intelectual e visionário. Anotava o “by Stan Brakhage” em cima da película, quase como um pintor assinava o quadro depois de finalizar a obra.

Com todo o seu ímpeto criativo – e devoção visceral à pesquisa e execução de ideias – Stan foi um adepto do filme feito em mídias físicas, manipuláveis e possíveis de serem editados com as mãos e recursos de intervenção direta em película.

Stan Brakhage, um verdadeiro dilatador e inventor de novas linguagens e idiomas com o audiovisual

 

Os filmes para mim são minha igreja. É lá que sento na sala escura e comungo com outros.


Stan utilizou diversas vezes técnicas de pintura e manipulação direta em cima da película, com tinta e objetos, fazendo marcas de queimadura e outros elementos estéticos que – postos no projetor – criam um interessante resultado de fusão, efusão e imersão de imagens diversas no olho do espectador. 

Sua busca pelo cinema puro o fez desconstruir a imagem da realidade – ou do registro documental ou fictício do real – em busca dos ritmos, luzes, silêncios e formas que refletem e criam o puramente cinematográfico, o que seria o objeto puro e depurado do cinema.

Aqui temos o resultado de experimentos feitos com água e luz. Belíssimo, de impressionar:

 

Como Brakhage possui uma obra muito extensa não há como abordar tudo e nem ser sintético ser cometer injustiças. Podemos apenas chamar a atenção para esse que foi um dos mais importantes – talvez o mais – dos cineastas experimentais.

Dentre os longas podemos citar aqui o Dog Star Man (1961-1967) que consiste, na verdade, em quatro curtas e um prelúdio unificados. Aqui, o homem acompanhado pelo cachorro enfrenta a visão mística e transfiguradora em sua jornada pela natureza. 

A radicalidade e a busca por uma arte genuína – não permeada, mediada, validada ou carregada de expectativas por parte do público ou da crítica – coloca Stan Brakhage na trilha do criador original que avança sem se deixar moldar pelo enfeitiçamento paralisante ou pela camisa-de-força institucional que delimita até onde pode ir o esforço criativo do artista, até onde pode enxergar e operar o visionário. Já vimos muitos grandes, potenciais artistas revolucionários serem destruídos pelo elogio fácil e pela vigilância do seu público.

Fiquem com mais algumas maravilhas criadas por esse artista fora de série. Alguns dele são intencionalmente silenciosos.

Quando perguntado o porquê desta escolha estética Brakhage argumentou que muitas vezes o som age chocando-se contra as imagens e roubam a atenção para a dignidade contemplativa e estética do visual. Que os ouvidos muitas vezes impõem – ou empresta – certa carga de símbolos, significados e interpreta acontecimentos que o visual não carrega em si mesmo.

Já tinham pensado dessa forma? Curioso, hein?
 
A respeito dos temas, Brakhage fala em entrevista que sua obra se preocupa com temas universais como nascimento, sexo, morte e a busca por Deus. Temas que são refletidos, deglutidos e movidos imageticamente para a visão e intelecção de cada espectador.

Stan Brakhage, que queria ser poeta desde que tinha 9 anos de idade, acabou escrevendo com as imagens diretamente. Vejam por si próprios:


The Wonder Ring
(1955):

 

Antecipation Of The Night (1958):

 

The Machine Of Eden (1970)

 

Delicacies Of Molten Horror Synapse (1991):

 

The Dante Quartet (1987):

 

The Persian Series 1-5 (1999):

 

The Way To Shadow Garden (1954):

 

Burial Path (1978):

Cat’s Cradle (1959):


Desistfilm (1954):

 

“…” REEL FIVE (1998):

 

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