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[Tradução] “Deus Morre”: um ensaio de Frances Farmer

Por oito anos fui reclusa em um asilo estadual para loucos. Durante aqueles anos, passei por um terror tão insuportável que me deteriorei em uma criatura selvagem e assustada, com o único objetivo de sobreviver. E eu sobrevivi. Fui estuprada metodicamente, roída por ratos e envenenada por comida contaminada. Eu estava acorrentada em celas acolchoadas, amarrada em camisas de força e meio afogada em banhos de gelo. E eu sobrevivi. O asilo em si era uma armadilha de aço, e eu não fui libertada de suas mandíbulas com vida e vitoriosa. Eu rastejei mutilada, choramingando e terrivelmente sozinha. Mas eu sobrevivi.” (Frances Farmer)

 

Dando continuidade às homenagens às mulheres, trouxemos hoje um ensaio escrito pela atriz norte-americana da era dourada de Hollywood Francis Farmer (Seattle, 19 de setembro de 1913 – Indianápolis, 1 de agosto de 1970) que traduzi anos atrás.

Logo depois contaremos um pouquinho da história de Frances – uma história conturbada, cheia de dores e abusos, conflitos e vontade de independência e autodeterminação, uma história que ilustra bem como uma indústria misógina tem tratado suas estrelas, explorado suas fraquezas e faturado com suas vidas e imagens. Uma história que, infelizmente, acabou mal.




O ensaio foi escrito quando Francis ainda era uma adolescente e foi publicado num jornal local. Provocou polêmica e rebuliço na época. Explicaremos logo depois.

Seu título é “Deus Morre” e sua linha de pensamento foi bastante influenciada pela leitura do filósofo alemão Friedrich Nietzsche

Ei-lo na íntegra aqui:


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Deus Morre


Ninguém nunca chegou a mim e disse, “Você é uma tola. Não existe tal coisa como Deus. Alguém está enrolando você.” Não foi um assassinato. Eu acho que Deus simplesmente morreu de velhice. E quando percebi que ele não era mais, não me choquei. Parecia natural e certo.

Talvez tenha sido porque eu nunca fui devidamente impressionada com religião. Fui à escola dominical e gostei das histórias sobre Cristo e a estrela de Natal. Elas eram lindas. Elas faziam você se sentir feliz e aquecida. Mas não acreditei nelas. O professor da escola dominical falou tanto na maneira que nossa professora da escola primária costumava quando ela nos contou sobre George Washington. Histórias bonitas, agradáveis, mas não verdadeiras.

A religião era muito vaga. Deus era diferente. Ele era algo real, algo que eu podia sentir. Mas havia apenas certos momentos em que eu podia sentir isso. Eu costumava deitar entre lençóis frescos e limpos à noite depois de ter tomado banho, depois de ter lavado meus cabelos e esfregado minhas juntas, unhas e dentes. Então eu poderia ficar deitada quase imóvel no escuro com meu rosto na janela com as árvores lá e falar com Deus. “Estou limpa, agora. Nunca estive tão limpa. Nunca estarei mais limpa.” E de alguma forma, era Deus. Eu não tinha certeza de que fosse… apenas algo fresco e escuro e limpo.

Isso não era religião, no entanto. Havia muita coisa física a respeito disso. Não consegui ter aquele mesmo sentido durante o dia, com minhas mãos na água do prato sujo e o sol duro mostrando a sujidade no telhado. E depois de um tempo, mesmo à noite, o sentimento de Deus não durou. Comecei a me perguntar o que o ministro quis dizer quando disse: “Deus, o pai, vê até o menor pardal cair. Ele cuida de todos os seus filhos.” Isso confundiu tudo para mim. Mas eu tinha certeza de uma coisa. Se Deus fosse pai, com filhos, a limpeza que eu sentia não era Deus. Então, de noite, quando fui para a cama, eu pensaria: “Estou limpa. Estou com sono.” E então fui dormir. Isso não me impediu de curtir menos a limpeza. Só sabia que Deus não estava lá. Ele não era um homem em um trono no céu, então ele era fácil de esquecer.

Às vezes achei que era útil lembrar; especialmente quando perdi coisas que eram importantes. Depois de bater pela casa, em pânico e sem fôlego de tanto procurar, eu poderia parar no meio de um quarto e fechar os olhos. “Por favor, Deus, deixe-me encontrar meu chapéu vermelho com as aparas azuis”. Geralmente funcionava. Deus tornou-se um super-pai que não podia me espancar. Mas se eu queria algo um pouco o suficiente, ele arranjava.

Isso me satisfez até que eu comecei a descobrir que, se Deus amasse todos os seus filhos igualmente, por que ele se preocupou com meu chapéu vermelho e deixou que outras pessoas perdessem seus pais e mães para sempre? Comecei a ver que ele não tinha muito a ver com chapéus, pessoas morrendo ou qualquer coisa. Elas aconteciam se ele quisesse ou não, e ele ficou no céu e fingia não notar. Perguntei-me um pouco por que Deus era um coisa tão inútil. Parecia uma perda de tempo tê-lo. Depois disso ele se tornou cada vez menos, até que ele era… nada.

Eu me senti orgulhosa de pensar que eu mesma achei a verdade, sem a ajuda de ninguém. Fiquei perplexa que outras pessoas também não descobriram. Deus já se foi. Nós éramos mais jovens. Conseguimos ultrapassá-lo. Por que eles não podiam vê-lo? Ainda me deixa perplexa.

 

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Aqueles que gritam desafios incoerentes para inimigos invisíveis talvez sejam muito gentis para atacar e destruir seus inimigos reais e íntimos.

 

Frances Farmer nasceu em Seattle em 1913, estudou artes dramáticas e tornou-se uma estrela de Hollywood na década de 1930.

As pressões e joguinhos da fama trombaram de frente com a sensibilidade, a inteligência e a vontade de Frances de viver a própria vida sem interferências e sem seguir padrões impostos.

Era (mal) vista como comunista na terra do cinema por não ser feliz, agradecida e deslumbrada como outras estrelas. Os combates ao seu espírito desafiador e sua aversão à bajulação esfrangalharam seus nervos, situação que piorou com o álcool.

Após brigas com estúdios, em 1942 foi considerada “mentalmente incompetente” por um tribunal e internada como “louca”. Essa história soa terrivelmente familiar, concordam?

Jornais da época alertando contra o perigo dos “professores radicais” que poderiam ter influenciado jovens em formação como Francis Farmer por seu ensaio “Deus Morre” e uma viagem a Moscou que ela ganhou em um concurso literário


Passou onze anos em hospícios e hospitais psiquiátricos. Sofreu lobotomia e outros maus-tratos físicos – incluindo estupros e violência física – e mentais.

Liberada, passou anos a esmo. Alcoolismo e barbitúricos fizeram parte do quadro. Ela ganhou a vida com pequenos bicos e só no meio dos anos 50 teve uma discretíssima retomada da carreira artística.

Frances morreu de câncer em 1970, a um mês de completar 57 anos. Sua história rendeu o filme ‘Frances’, em 1982. A atriz Jessica Lange foi indicada ao Oscar pelo papel-título.

Kurt Cobain (um dos últimos bons poetas desse gênero que costumava ser tão jovem, subversivo e desafiador: o rock’n’roll) identificando em Frances Farmer o arquétipo trágico do quanto o sistema do estrelato (e suas maquinarias acessórias) podem aniquilar & assujeitar alguém até enquadrá-la em suas premissas e negócios, compôs a quinta-faixa do In Utero, 3º álbum de estúdio, do Nirvana (“Frances Farmer Terá Sua Revanche Sobre Seattle”, em tradução literal) como uma resposta ao tratamento de Hollywood e da imprensa americana à Frances.




À época em que escreveu esse ensaio, em Abril de 1931, Frances era ainda uma estudante de 17 anos no West Seattle High School. Foi quando ela teve, pela primeira vez, a experiência de notoriedade nacional, ao ganhar um concurso literário organizado pelo jornal estudantil The Scholastic com essa redação.


O prêmio fora o pagamento do valor de $100. Tal feito causou um tumulto intenso nas paróquias da cidade.

Grande parte da mídia da época focou, basicamente, no título e não no excelente conteúdo ensaístico. Algumas das manchetes dos jornais de Seattle da época portavam títulos como “Seattle Girl Denies God And Win Prize” (Garota de Seattle nega Deus e ganha prêmio).

Aos poucos essa estória dos jornais começou a ganhar influência nas comunidades vizinhas e logo havia se tornado um problema midiático nacional.


 

Frances chegou a receber mais de 100 cartas expressando choque, receio e indignação. Algumas igrejas de Seattle chegaram até a organizar suas congregações para invadir as escolas públicas afim de discutir “os perigos do ateísmo” com os estudantes.

Se os jovens desta cidade estão indo para o inferno”, disse um ministro batista para a sua congregação, “certamente é Frances Farmer quem os está levando lá.” Vemos aqui que o tom de voz da época não mudou em nada.

Quatro anos depois Farmer voltou a se tornar notícia das manchetes quando, já uma estudante de dramaturgia na Universidade de Washington (por imposição de um sonho frustrado sua mãe – pois Francis queria, e fez, jornalismo), ganhou uma viagem para a Rússia depois de vender várias inscrições para um jornal de esquerda.

E aceitou o prêmio, a despeito da contrariedade de sua mãe, Lilian V. Farmer de personalidade dominadora, que disse que sua filha tinha sido corrompida por professores radicais. Rebelde e inconformista, viajou a Moscou em busca de conhecer o teatro russo.


 

Ela viajou de ônibus de Seattle para Nova Iorque em 1935 e, de lá, pegou o navio a vapor em direção à Moscou.

Em Maio, no seu regresso, embolsou a grana do retorno para casa e alugou um quarto lá mesmo em Nova Iorque. Dentro de algumas semanas conheceu um agente, fez um screen test e assinou contrato com a Paramount.

Seu teste consistiu em usar um belo vestido, ficar sentada e seduzir a câmera. Com sua beleza clássica e poder atrativo conseguiu um contrato de 7 anos no qual os pontos principais eram: ser obediente, aprender os roteiros e comparecer às festas dos diretores prometedor ficar em sigilo sobre as coisas que aconteciam ali.

Alguns anos depois, no pico de sua carreira, Farmer disse que a reação ao seu ensaio de colegial tinha sido o ponto de virada de sua vida.

Foi muito triste”, ela disse, “porque pela primeira vez eu descobri o quão estúpidas as pessoas podem ser. Isso meio que me fez me sentir solitária no mundo. Quanto mais as pessoas me apontavam com desprezo, mais teimosa eu me tornava e quando eles começaram a me chamar ‘A Garota Má de West Seattle High School’ eu tentei viver de acordo com isso”.




Para permanecer uma “estrela” na indústria, no entanto, Francis foi submetida a muitas restrições contratuais bem como foi incentivada a uma dieta  – e consequente dependência – de anfetaminas para manter a silhueta magra exigida pelo padrão estético de beleza. Viu-se enredada a ceder a muitos dos caminhos e jogos do marketing das celebridades – como um casamento arranjado com outro autor apenas pelo “status” e notícia que isso daria – para permanecer “relevante” dentro dessa cultura e continuar sendo escalada para trabalhos.

Francis rebelou-se logo não se identificando com o estigma imposto sobre as mulheres na indústria e na imprensa. Seu comportamento errático, irascivo e não “agradecido” refletiam-se nas bebedeiras, “vexames públicos” e multas por excesso de velocidade e direção perigosa. Francis queria fugir, inclusive de si mesma. A mídia, encenando e criando um espetáculo em cima das misérias e sofrimentos de Frances, montou um tribunal no qual julgaram sem piedade a atriz.

Desprezava o mundo artificial das celebridades, o “glamour” e as falsidades do seu meio, os papéis ingênuos dados a ela e o machismo da estrutura de Hollywood, os roteiros, as falas que tinha que decorar para “ganhar a vida”.

Seu aptidão mais natural era a escrita de cunho questionador e social – ela via no jornalismo uma trincheira na qual gostaria de engajar sua cultura e inteligência, mas sua mãe a obrigou a seguir uma carreira que ela própria tinha sonhado e não conseguiu realizar.





Sua carreira começou a se destruir depois de tantos conflitos com diretores, escritores e estúdios, desrespeitando prazos e se recusando constantemente a gravar determinadas cenas. Chegou a dar um soco no estômago de um diretor na época.

Foto feita durante uma das prisões por dirigir embriagada sofrida por Frances. A mídia montou um espetáculo de escrutínio para humilhar a atriz que havia sido viciada pela própria Indústria que a destruiu. No tribunal, em crise de abstinência, Frances chegou a jogar objetos no juiz. Logo depois foi jogada numa instituição psiquiátrica onde foi sistematicamente abusada sob a tutela de sua própria mãe


Com isso a polícia, os donos de seus contratos e a mãe consideraram-na “louca” e a internaram em hospitais psiquiátricos sob tratamentos de eletrochoque e outros procedimentos cruéis visando a cura da “rebeldia” de Francis Farmer. A mãe a decretou com “incapacidade mental” e que ela deveria ser “controlada” e sua personalidade “corrigida” por procedimentos psiquiátricos.

Durante seu tratamento Francis sofreu abusos físicos e psicológicos como estupros e induções de coma e perda de sua consciência. Além, claro, de controversos tratamento farmacológicos. Após tudo isso, os abusos, a violação e os traumas, Francis jamais voltou a ser a mesma.

Isso foi na década de 40. Francis voltou a ativa nos anos 50 em algumas aparições escassas em programas de entrevista, fazendo algumas peças de teatro mais modestas e aparições em séries de TV com personagens menores – e sua presença ainda causava alvoroço. Porém, as suas atitudes, a sua ambição e energia estavam obliteradas.

Ao longo dos três casamentos não teve filhos e sua vida declinou com o alcoolismo de que sofria de dependência. Faleceu em 1 de agosto de 1970 em decorrência de um câncer no esôfago. 

 

Filmografia

  • 1936 – Too Many Parents
  • 1936 – Border Flight
  • 1936 – Rhythm of the Range
  • 1936 – Come and Get It
  • 1937 – Exclusive
  • 1937 – The Toast of New York
  • 1937 – Ebb Tide
  • 1938 – Ride a Crooked Mile
  • 1940 – South of Pago-Pago
  • 1940 – Flowing Gold
  • 1941 – World Première
  • 1941 – Badlands of Dakota
  • 1941 – Among the Living
  • 1942 – Son of Fury
  • 1958 –  The Party Crashers



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