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Artistas e Pandemia: uma reflexão sobre os tempos

No Brasil a chegada neocolonizadora da pandemia completa sua revolução solar. Nem tivemos tempo direito de curtir a ressaca do carnaval quando a pandemia aportou em nosso país. Nunca imaginei que poderíamos nos tornar vítimas de uma “pandemia pisciana”.
 
Antes fosse uma pandemia de poesia e sonho, de uma espécie de rebelião que nos fizesse mais esperançosos de um presente digno e de um futuro construído com bases mais sólidas e certeiras.
 
Mas, não.
 
O que acontece é que estamos atordoados pelas mortes e acossados pelo medo. Não é só a questão da mídia: é claro que ela deve, na medida do possível, transmitir as informações mais exatas e corretas sobre os acontecimentos. A subnotificação ou o ocultamento de qualquer dado de interesse público, seja ele qual for, manifesta forma de censura que deve ser combatida se ainda quisermos viver em uma democracia.
 
Com isso tudo diversos setores foram prejudicados com seus espaços fechados e sua forma de viver – e sobreviver, pagar os boletos, respirar, etc – impossibilitada. Particularmente, e este é o cerne deste pequeno artigo, os artistas e o setor cultural. A precarização do setor tornou-se ainda mais palpável.


O filósofo e teórico da comunicação Marshall McLuhan, criador do conceito de “Aldeia Global” – “O meio é a messagem
 
O grande estudioso e teórico da comunicação Marshall McLuhan via no poeta uma espécie de xamã da tribo, como uma antena entre o mundo dos espíritos e dos vivos que traz a cura e a tradução da experiência dos mistérios. Um radar espiritual da espécie ou um farol para a construção dos valores do futuro.
 
Por mais que vivamos numa era tecnocrática que já se esboça em uma Quarta Revolução Industrial – com revoluções na informação, EAD, hibridismo cultural, homeoffices e etc – tais mistérios da vida e da inspiração criadora humana nunca foram (totalmente) esclarecidos. Nem mesmo com quase 4 milênios de saberes filosóficos desde os antigos gregos (e mesmo de antes, na África, o verdadeiro berço da filosofia e do conhecimento) até nós.
 
Nesse momento de pandemia em que as pessoas tiveram que se isolar e fazer distanciamento social e lockdowns foram decretados (embora no Brasil, na prática, isso não tenha acontecido como se devia), os artistas foram alvos fáceis da corrosão e degradação cultural e econômica. Sem mencionar a depressão emocional e o autoquestionamento existencial.
 
Prioritariamente enquanto agentes simbólicos da presença e do contato emocional mais profundo os músicos, performers, atores de teatro e dançarinos viram-se desmobilizados e com suas funções postas em dúvida e suspensão devido a impossibilidade concreta da ocupação e vivência dos espaços de Cultura. Isso porque a aglomeração para o efeito catártico coletivo era o pressuposto e base de sustentação da expressão artística. As cadeiras vazias do teatro parecem até descansar, mas provavelmente  estão sonhando, quem poderá dizer?
 
Ofícios em que a arte não se produz diretamente diante da presença pública – como a escrita, a pintura de uma tela ou o ato de esculpir, exceto em contexto performático como action painting, happenings e coisas assim – não tiveram impacto direto em sua produção, mas quando se fala de escoamento do produto da arte temos sim um grande problema.




Com a cadeia de produção que envolve diversos profissionais paralisada, o setor sofre e segue com a incerteza de quando – e como – será sua retomada em um futuro próximo ou distante e até alguns estudos já mostraram a queda de quase 50% a 90% das ocupações no setor. Isso sem contar o setor informal da cultura: ambulantes, músicos de rua, improvisadores, trupes nômades de teatro e circo.
 
Afinal, sem a possibilidade do público as estréias, as vernissages, os lançamentos de livros, filmes, festivais e debates públicos tiveram que migrar do espaço concreto e físico para o espaço hermético da tela e do algoritmo, numa distribuição simbólica que fecha os canais para muitos e abre para poucos. Sim, ainda não vivemos numa “democracia digital” e as redomas e bolhas continuam a criar espaços rugosos e dobras nas superfícies virtuais.
 
O mais esquisito disso tudo é como se colocaram e “afinaram” o crescimento exponencial do contágio do vírus, o alargamento do discurso tecnocrata da produção econômica, o fechamento dos espaços de Cultura e a dificuldade para os incentivos à classe. Mas, no que diz respeito ao alcance e influência do “Presidente” – seguidor de um guru conspirador e paranóico, o astrólogo Olavo de Carvalho – não seria de se estranhar: afinal, Bolsonaro sempre detestou a cultura, a arte e a intelectualidade e nunca escondeu isso. Além de empreender uma verdadeira guerra cultural amparada por revisionismos arbitrários utilizando-se da máquina do Estado.
 
O discurso preconceituoso de que viver de arte e cultura é “vagabundagem” se sente bem nesse ambiente de mal-estar em que as pessoas estão presas numa angústia de produção de sentido para a vida baseada na manutenção de certos números e estatísticas mágicas. E se veem obrigadas a voltar ao cabresto de serviços mal remunerados ou à autoexploração dos aplicativos sem qualquer segurança trabalhista.




A angústia e as incertezas aderiram de uma forma tão encrostadas na vida cotidiana das pessoas que elas se encontram perdidas e sem esperanças. O espiritual de cada um se encontra abalado: para quem perdeu sua função social, para quem perdeu um familiar para o Covid-19, para quem teve o lar destruído, para quem foi parar na rua e está desamparado, para quem perdeu sua fonte de renda e sua dignidade socioeconômica, para quem dependia da circulação contínua para sobreviver, para quem sente na pele os efeitos da necropolítica e da desvalorização da cultura operadas pela ideologia do novo governo, etc.
 
Quando o dinheiro circula mais pessoas têm acesso aos efeitos da mobilização econômica e os benefícios aparecem. Mais pessoas poderão incluir agentes antes marginalizados numa cadeia produtiva. O artista que trabalha passando o chapéu ou vendendo seu cd ou seu livro no corpo-a-corpo com o cliente consegue angariar apoio concreto para pagar o seu teto, se alimentar, manter-se vivo e seguro para espalhar sua mensagem e exemplo de persistência. 
 
Mas, em se tratando de Brasil – que se encontra numa espécie de distopia cafona e ridícula presa numa toada de ignorância e violência cultuadas por setores que territorializam e vigiam pesadamente os seus privilégios – a arte e os artistas vivem um dos piores momentos de suas existências.
 
Afogados e tendo que “se virar” na nova promessa utópica tecnológica a se tornar autoexplorados para caber nas limitações técnicas e algoritmicas dos processos neodigitais e neovirtuais, o campo da arte tem se tornado um pega pra capar e tem promovido um nível asfixiante de ansiedade que mal deixa você dormir com medo de não conseguir reunir os recursos suficientes para ter o mínimo de conforto num momento tão difícil e turbulento. Muito apesar, sim, de algumas experiências híbridas terem se mostrado promissoras e rentáveis, é claro que a conta no geral não fecha – e quem tem mais bala sempre sai na frente.



E mesmo quando se trata de possibilidades de financiamentos mais sistemáticos como editais e auxílios de emergência os procedimentos burocráticos muitas vezes cria ainda mais espinhos no caminho da autossuficiência. As coisas parecem – digo apenas “parecem” –  feitas milimetricamente armadas para assustar alguns e deixar o caminho livre para outros.
 
Isso quando simplesmente os novos cães de guarda do poder não diminuem ou desviam os recursos dirigidos para salvar esse setor em crise.
 
Antes da pandemia ao menos podia-se arriscar em várias frentes – se não no campo direto do trabalho cultural ainda haviam espaços para cavar uma graninha de emergência, nas ruas ainda se podia abordar um estranho para tomar um café, um chop e se falar de poesia sem precisar estar distanciado ou tão cheio de medo e reservas. Havia leveza e as pessoas estavam abertas a rir, a conhecer, a se interessar e até a se apaixonar… hoje, com o vírus e as variantes, nos vemos obrigados refrear todos os nossos impulsos egoístas e somos cada um de nós responsável não só por nossa saúde e cuidado, mas também pela saúde e cuidado coletivos.
 
Com todas as incertezas relacionadas ao futuro a situação do presente torna-se ainda mais enigmática.

Sala de cinema fechada em Porto Alegre/RS devido à pandemia – com o aumento nos serviços de streaming durante esse período então as incertezas ficam maiores para o setor
 
E a arte, antes palpável, também encontra-se cada vez mais distanciada e enquadrada nas telas das telas num regime cada vez mais digitalizado, encarceradas em lives ou o que o valha, no qual o artista se vê num espaço em que para (sobre)viver precisa da validação de uma rede social cujo formato e dinâmica escatamoteiam ou presenteiam com uma medição duvidosa e a possibilidade de bondade da doação de estranhos (ou das mesmas pessoas de sempre como geralmente ocorre com os artistas “minúsculos” – um termo muito relativo e muitas vezes usado pejorativamente, pois sempre hão gigantes de quem ninguém nunca ouviu falar  –  e sem nenhuma projeção midiática).
 
É deveras difícil. Para os escritores e editores independentes então é quase como rolar uma infinita pedra de Sísifo. A opção – quase que exclusiva e “totalitária” – é conseguir agitar uma página ou um perfil em rede social até que os leitores/consumidores se sintam confiantes o suficiente para não acharem estar caindo em mais um conto da carochinha e comprarem seus trabalhos.
 
Antes eu poderia passar o dia na rua com um megafone agitando bares e ruas, deixando pérolas poéticas e filosóficas para inspirar desconhecidos com alguma chance de juntar uns trocados. A alegria era palpável no ar, muitas vezes – e as hostilidades também eram visíveis. Havia, no entanto, o acaso e a possibilidade de surpresa.
 
Hoje, a limitação e confinamento das telas e a constante batalha por “audiência”,  “seguidores”, “engajamento”, “conversões” e outros chavões do capitalismo eletrônico tem reduzido o artista a um escravo do rendimento digital em que a inspiração, quase que sempre e completamente, está em último plano. Um mundo feito de contínua vigilância se os posts estão circulando, atingindo o público, se obtém reações – e de quais tipos -, se gera algum tipo de conversa ou interesse. Um completo ímã para a ansiedade contemporânea.
 
Num mundo em que ser visto e ser ouvido se torna mais importante do que promover novos e comuns acordos revolucionários vamos nos cavando um fosso neurótico e solipsista, um abismo perigoso para a alma. É quando você vê o abismo e ele te olha de volta, como diria Nietzsche.
 
É preciso buscar novos caminhos para a vida da arte ou sucumbiremos à pandemia do desespero e da ausência de acolhimento aos esforços criativos.

O poeta francês Arthur Rimbaud

Como poderemos criar um novo sistema em que todos possam ganhar ao invés de continuarmos estimulando premiações e privilégios para uns enquanto outros continuam invisíveis e afundam? 
 
Lembrem-se que o poeta é uma antena da espécie – assim também falou Henry Miller sobre o poeta-vidente Arthur Rimbaud. O desespero do poeta que amarga o deserto também precipita o cataclismo das sociedades e das urgências falsas. O poeta está atento aos sinais do tempo, ele sente em seu corpo o perigo e tenta enunciá-lo como pode – o problema é quando o falatório é tão imenso que sua voz fica totalmente afogada em meio ao ruído e a esquizofonia dos conflitos generalizados.
 
É preciso reaprender a sonhar e caminhar de olhos abertos e estender as mãos para os que sentem a guerra perdida. O artista não precisa se ver fechado num antagonismo entre sua intenção criadora e a (in)disponibilidade do mundo. Ele não tem que se sentir fora, alienado ou apartado do mundo – é preciso convidar as pessoas para habitar e transformar o mundo da arte no mundo da própria vida. 
 
Precisamos elaborar novas estratégias para que a criação contínua se torne relevante e nos descondicione dos automatismos de uma vida de renúncias feitas em prol dos dentes frios da maquinaria. Esse mundo tão celebrado pelos tecnocratas que apertam os parafusos para o progresso que continua a devorar o mundo, o meio ambiente, as culturas e vidas humanas.
 
Haverá ainda almas dispostas a mudar este mundo ou tudo o que importa é estar [email protected] no post do novo apocalipse? Que tal usar um belo filtro para o espetáculo da destruição? 
 
Ainda poderemos contar uns com os outros ou estamos fadados a nos estranhar em lados opostos de uma trincheira que nós mesmos não criamos e à qual fomos submetidos?
 
É preciso não permitir que essa pandemia cresça e se torne um adolescente rebelado. É preciso conter os danos e proteger os feridos, curar os doentes e abraçar aqueles que perderam alguém.

O poeta e filósofo alemão Friedrich Hölderlin em representação pictórica de 1792 (não encontrei o nome do autor) – influenciou gente como os filósofos Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e o poeta Rainer Maria Rilke
Muitas vezes é por meio da arte que poderemos entender, estender e profetizar a virada do jogo. E podemos encorajar a superação das dificuldades inerentes ao viver.
 
Isso se não virarmos todos apenas avatares num jogo de legitimação – em uma loucura muitas vezes narcisista – que promove e põe em evidência uns poucos e joga nos limbos da rede tanta gente incrível e maravilhosa capaz de nos fazer chegar a tantos lugares e tempos novos. 

Afinal, como bem nos lembra o poeta alemão que enlouqueceu, Hölderlin, “onde cresce o perigo surge também a salvação”

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