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As máscaras já caíram!

Já há três dias que tento escrever um pequeno artigo sobre a sátira cinematográfica O Grande Ditador de Charlie Chaplin e algo me detém.

Hoje consigo formular com clareza o que seria essa interrupção cognitiva que embaralha todos os afetos que venho sentindo quando me relaciono com a realidade atual. É muito mais simples do que poderia parecer: o governo Bolsonaro. E mais: a mais recente tentativa de um Autogolpe – ou será que já estamos vivendo sob a égide dele? Se engana quem ache que estamos falando de um golpe “espalhafatoso” com tanques na rua – com a pandemia então! -, mas de algo mais “sutil”, mais brando… e nem por isso menos mortífero.

No vergonhoso dia de “””””””comemoração da revolução democrática de 64“””””” (que na verdade foi o Golpe Civil-Militar, um dos episódios mais horrendos e traumáticos da História recente do Brasil, que durou 21 anos), um dia antes do Dia da Mentira, a máscara (além daquela que ele se recusa a usar contra a propagação da pandemia) do “Presidente” – e delinquente golpista – Jair Bolsonaro volta a cair.

Afinal, de que me serviria escrever sobre o personagem caricatural Adenoid Hynkel quando temos em nosso próprio país – e sentado no trono do poder central executivo – uma paródia de Adolf Hitler ainda mais tosca, piorada e paranóica chamada Jair Messias Bolsonaro? Aquele que realmente se crê um mártir e “messias” de um bando de lunáticos que louvam a violência, a conspiração e a mentira.

Crítica | O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) - Plano Crítico
Charlie Chaplin no papel do ditador megalomaníaco Adenoid Hynkel em “O Grande Ditador” (1940)

AGU recorre contra ordem judicial que obriga Bolsonaro a usar máscara |  Poder360

De O Grande Ditador passemos pois ao “pequeno”, ao minúsculo, aquele mesmo que eu examinei previamente no prefácio intitulado “O Ditador Está Nu” presente na obra BozzonarUbu – Sátira Distópica Hiper-realista em 5 Atos e Meio, de Hellgina NoArt, no qual fiz um exame a respeito do bolsonarismo enquanto versão tropical do novo vírus do fascismo. Que Hellgina me perdoe, mas a realidade tem se mostrado ainda mais rebaixadora e distópica que a sua obra. Situação essa em que até a pior das distopias parece miojo com ovo diante dos atropelos e da violência ilimitada – que se atualiza automaticamente – do real histórico.

Os últimos escabrosos acontecimentos do Brasil não são apenas de revirar o estômago, mas revoltam qualquer criatura com o menor senso do que se possa chamar de “humano”.

Em primeiro lugar porque o governo Bolsonaro – e sua artilharia ideológica – tem feito de tudo para abolir a humanidade e a racionalidade das pessoas que jura que “governa”. Essa extração milimétrica de qualquer valor e sentimento humanitário se expressa numa aguerrida batalha política e cultural pelo predomínio da economia e da religião de fé lucrativa acima de qualquer condição mínima de saúde, bem-estar e acolhimento humanitário. Além, é claro, do controle hermenêutico e narrativo da visão geral da vida, do mundo e da sociedade.

 

Bolsonaro oferece aos militares saída do labirinto em que entraram -  30/03/2021 - Poder - Folha
Bolsonaro na despedida do comando do General Eduardo Villas Bôas

Precisamos falar francamente sobre os bolsonaristas – Justificando

A profissão de fé neoliberal com o acento posto na falsa meritocracia e nos esforços do indivíduo pela “recompensa” de sua autoimolação – cada vez com menos direitos trabalhistas e segurança do trabalho e da saúde, uma vez que sucateiam e atacam sistematicamente os serviços públicos – ao Grande e Poderoso Deus-Mercado continua a ser calibrada por Bolsonaro e por seu Ministro da Economia, o pervertido privatista Chicagogo-Boy, Paulo Guedes.

Além disso há também os constantes ataques que Bolsonaro – e de sua ala inspirada pelas idéias de um astrólogo surtado e frustrado chamado Olavo de Carvalho – constantemente disparam contra os intelectuais, as universidades e a desconfiança das visões e pesquisas científicas, principalmente no que dizem respeito à pandemia do Coronavírus. Cada vez mais revelando o oco asfixiante que existe dentro das caixas cranianas dos representantes deste governo e de seus seguidores raivosos e enfurecidos que agridem e esmurram médicos, pronto-socorristas e pessoas comuns quando são admoestados por não estarem usando máscara!

Não, o governo não quer que você pense por si mesmo – ou que faça o menor uso do esclarecimento advindo da faculdade da razão para sair da menoridade, como diria o filósofo alemão Immanuel Kant. Muito pelo contrário: ele quer que você continue menorizado, alienado e crente na versão fantasiosa que eles apresentam na sua máquina de propaganda e em suas correntes de WhatsApp. Um país paralelo e fantasioso onde a maior pandemia da história nunca matou ninguém porque sempre foi uma “gripezinha” criada pela China para exportar para o mundo o seu modelo de dominação global.   

Em passeata pró-Bolsonaro, PM paulista escolhe seu lado - Ponte Jornalismo
Em passeata na Avenida Paulista bolsonaristas agressivos discutem com opositores (Reprodução achada no Google)
Nova Câmara
O Zero Três – Eduardo Bolsonaro – em passeata pró-Bolsonaro: aprendendo o peculato e as corrupções com o pai desde pequenininho


Enquanto o país se afoga em cadáveres insepultos que não param de sair das casas e hospitais – já ultrapassando a marca holocáustica das 310.000 pessoas mortas na pandemia, a maior crise sanitária já sofrida na história do país – Bolsonaro continua a negar e a atrasar como pode a negociação dos insumos e dificultar a compra e distribuição das vacinas. E quando o faz sempre o faz em número insuficiente.

Vai faltar pra gente aí. Não vai ter pra todo mundo” e “o caos tá vindo aí”, já viraram chavões para a sua total e leviana falta de senso de programação, logística e para lavar as mãos diante de suas responsabilidades. Não é de se admirar de alguém que na época de sua campanha já dizia que “(sua) especialidade é matar“. Brutalmente coerente.

Assim sendo, ele jamais poderia ser o “herói” do povo – a não ser que se tome por “herói” aquele que massacra toda uma população e sabemos que dentro de uma cultura bélica esses “heróis” são cultuados e reconhecidos, verdadeiros assassinos e chacinadores pagos com seus nomes na folha e premiados pelo Estado.

Para qualquer um com o mínimo senso de cultura humanista e filosófica isso não dista muito do vilão e do bandido frio, do psicopata clássico. E Bolsonaro, além de ter como “herói” e mentor um dos mais cruéis torturadores no período mais sangrento do regime da ditadura civil-militar e uma das criaturas mais abomináveis nascidas neste país, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, (a quem o seu vice-Presidente Hamilton Mourão chama de “pessoa agradável”), também tem em seu círculo mais próximo de amizade vários policiais e militares corruptos e milicianos a quem ele e seus filhos vivem homenageando com medalhas de honra.

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O “terror da Dilma Rousseff” – foi assim que o então Deputador Jair Bolsonaro se referiu ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos piores torturadores e mais execráveis seres da história do Brasil, mentor e herói de Jair Bolsonaro, durante seu voto do Impeachment de Dilma Rousseff em 2016, mais uma urdidura do golpe

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Nesse ínterim os prefeitos e governadores de todo o país tentam controlar a situação como podem para salvar seus cidadãos ainda saudáveis do contágio viral por medidas de distanciamento social e diminuição da circulação nas cidades por meio de lockdowns totais ou parciais (uma vez que as vacinas vem chegando em compras fracionadas) ainda se veem numa situação delicada na relação com a União.

Abertamente contra os lockdowns devido ao impacto econômico – e ao mesmo tempo diminuindo o valor, dificultando e protelando o pagamento do Auxílio Emergencial – enquanto a queda do número de empregos e a inflação dos preços dos víveres torna a sobrevivência basicamente impossível, o Governo Federal está numa queda de braços contra os Estados politizando ainda mais a pandemia, os lockdowns e as vacinas.

O ex-Ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva demitido do cargo por Jair Bolsonaro após a recusa de alinhar as forças armadas à politização de viés golpista de Bolsonaro e ter se recusado a apertar a mão do Presidente num evento dando o cotovelo em seu lugar


Esse foi, inclusive, um dos motivos que levou Bolsonaro a demitir do cargo de Ministro da Defesa o General Fernando Azevedo e Silva que já mostrava incômodo com a tentativa de aparelhamento e sequestro político das forças armadas articulada por Jair Bolsonaro para levantá-las em motim contra os Governadores e contra o Supremo Tribunal de Justiça por ter permitido que estes adotassem o lockdown como medida de urgência contingencial. Bolsonaro estava falando sobre decretar Estado de Sítio para centralizar em suas mãos todas as decisões importantes sobre a pandemia segundo suas diretrizes altamente idiossincráticas (ou seja, sem qualquer fundamento na própria realidade). Ele também queria porque queria que o Ministro lhe desse a cabeça do comandante do Exército – e seu desafeto – Edson Leal Pujol, por não ter se alinhado nem declarado quando foi intimado pelo Presidente a respeito da decisão do STF de reintegrar os direitos políticos do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. O que também não aconteceu.

Isso mesmo que você leu: o Presidente da República queria se utilizar do poder de intimidação das forças armadas para impor-se politicamente contra os governadores do país inteiro e desalinhar totalmente a estrutura dos três poderes preservada pelo pacto constitucional. “Meu exercito“, era assim que Bolsonaro se refere às forças armadas, como se fosse uma milícia que tivesse em seu bolso e só servisse para seus fins pessoais. Mais uma patente exibição de seu autoritarismo.

Consta também que Azevedo e Silva tenha se recusado a apertar a mão de Bolsonaro num evento público, oferecendo-lhe o cotovelo como sinal do novo protocolo de segurança da pandemia: Bolsonaro se sentiu ofendido.


Bolsonaro volta a defender o coronel Carlos Brilhante Ustra - Notícias - R7  Eleições 2018
 
Diante desse quadro os três comandantes à frente das forças do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, respectivamente, o já citado Edson Leal Pujol, Ilques Barbosa e Antônio Carlos Bermudez apresentaram uma carta de demissão conjunta não se mostrando dispostos a cair na arapuca de uma “aventura golpista” exigida pelo Presidente da República.

Com as vagas em aberto – e uma crise e desgaste como havia muito tempo, desde 1977, entre os militares e o governo a ser gerida – ainda existe a chance de Bolsonaro “conseguir o que quer” se colocar alguém que tenha penetração e influência e assim consiga fraturar a instituição militar para o cumprimento das aspirações totalitárias e milicianas do “Chefe da Nação”.

Bolsonaro encerra grupos responsáveis por | Direitos Humanos


As altas hierarquias das Forças Armadas – com muita gente da reserva -, no entanto, tem se mostrado avessas a essa tentativa anticonstitucional e mantém-se dentro do viés legalista. (Ao menos em aparência de tese, o antropólogo e pesquisador Piero Leirner pode nos ajudar a pensar outra coisa: Bolsonaro é sim um projeto das altas hierarquias das forças armadas.) Não podemos perder de vista que Bolsonaro ganhou a sua simpatia no combate à Comissão Nacional da Verdade que vinha expondo todos os crimes, torturas e podres que o Regime Militar perpetrou e que envergonha muitos destes. Bolsonaro chegou a chamar a Comissão de “Comissão da Mentira” e de “Calúnia”. Os generais gostaram e aplaudiram aquele que antes nem sequer queriam ver dentro de sua instituição – pois ele fora expulso da Academia das Agulhas Negras, onde se formou,  e reformado em seguida – devido ao comprometimento das estruturas internas, ao comportamento insubmisso e ao perigo de politização que Bolsonaro, até então, representava.

Com um Ministério da Saúde aliado à bravata ideológica e ao negacionismo científico, os prefeitos e governadores se viram na urgência de fazer conjuntamente um apelo internacional, uma vez que os repasses da União não chegam ou chegam depois de negociações e bravatas espúrias.


Soldado da PM é 'neutralizado' com dez tiros após 'surtar' e disparar fuzil  no Farol da Barra, em Salvador - Jornal O Globo

Sessão na CCJ vira palco de ataques a Bia Kicis por tuíte sobre PM morto |  Poder360
A deputada bolsonarista Bia Kicis jogou lenha na fogueira para atiçar milícias ao redor do país contra as medidas preventivas dos lockdowns dos governadores


Com a situação deste confronto certo fato recém-ocorrido põe mais fogo na cena política em meio à pandemia. Em Salvador um policial da PM aparentemente surtado – e com o rosto pintado de verde e amarelo – começa a disparar pra cima perto do Farol da Barra.

Após denúncia de locais viaturas do Bope chegam para fazer a contenção e depois de uma operação tensa de seis horas nas quais o policial dispara sua metralhadora contra os colegas ele é alvejado e neutralizado, morrendo em seguida na ambulância de atendimento.

A deputada da base bolsonarista Bia Kicis (PSL-RJ) utilizou-se do acontecimento e ajudou a difundir uma fake news com a narrativa que favorecia o PM surtado como um “herói” ou mártir insurgente contra a política arbitrária do lockdown do governador baiano e utilizou sua plataforma e influência política para incitar os policiais a um motim contra o governador, de modo a tentar fazer com que esse motim se torne modelo e chegue a ser imitado em outros estados e as polícias ajam politicamente em favor da ideologia negacionista de Bolsonaro.

Outro golpista que repetiu esse gesto para incentivar o enfrentamento dos governadores por milícias foi o asqueroso Deputado Roberto Jefferson a respeito da cidade de Juiz de Fora, o qual foi respondido em “vídeo de repúdio” por agentes da Guarda Civil Municipal.

A máscara mais do que caiu para esses também, embora nós já o soubéssemos.

 

TRIBUNA DA INTERNET | Dança das cadeiras: Bolsonaro faz seis trocas no  governo, confirma demissões e leva nome do Centrão para o Planalto


Como a 'dança das cadeiras' nos ministérios do governo Bolsonaro afeta a  economia do Brasil?


Enquanto isso acontece temos uma incomum troca de seis ministros – sim, logo seis! Seis! Seis! the number of the beast! -, entre renúncias e demissões, do governo que acaba de empossar o quarto ministro da Saúde em um ano de pandemia, o médico Marcelo Queiroga. E ao que tudo indica, mais mudanças virão aí. O que pretende com tudo isso, Jair Bolsonaro?

O terceiro ministro, o General do Exército Eduardo Pazuello, seguidor da “ciência da Cloroquina” de Bolsonaro e não da ciência dos pesquisadores científicos responsáveis das universidades e centros de pesquisa médico-biológicas, sai do banco do ministério diretamente para o banco dos réus pelo genocídio que ajudou a perpetrar contra o povo brasileiro com o caso dos balões de oxigênio em Manaus e dos medicamentos com validade vencida. Mais um que vai para a lata de lixo da história junto com gente da laia do mini-Goebbels Roberto Alvim, a “namoradinha fascistinha do Brasil” Regina Duarte e o ex-chanceler Ernesto Araújo (calma, ainda falaremos dele!) olavistas e bolsonaristas fanáticos que fizeram o país inteiro passar vergonha e se tornar pária internacional.

Uma “reforma surpresa” de seus ministérios – antes mesmo do dia de hoje, a “comemoração” do Golpe de 64 – num momento de crise política, econômica, sanitária, militar… e humanitária!

Com isso o governo dá acenos especiais para o Centrão político, de modo a fazer com que, pelo menos temporariamente, o líder do Congresso Arthur Lira, tal qual o seu antecessor Rodrigo Maia, segure momentaneamente os pedidos de Impeachment que não param de chegar!

 

(este é o fim da primeira parte deste artigo que dividimos à priori em dois – quiçá em mais partes, a depender do que ainda pode acontecer neste país – devido ao tamanho, a imprevisibilidade de certos acontecimentos e suas consequências e a importância não-leviana do tema. )


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