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O Flanêur Rebelde: pequena homenagem aos 200 anos de Charles Baudelaire

Os bulevares parisienses – essa invenção do Barão Haussmann construída para o grande desfile da vida moderna – andavam bastante agitados.

O idealismo da Revolução estava contagiando tanto os operários e as camadas empobrecidas da sociedade quanto alguns setores da burguesia europeia. O que, na França, não era particularmente difícil. Havia uma tradição revolucionária que era voluntariamente transmitida entre as gerações como um particular código para mudar a vida por meio da poesia de rua das insurreições. Além do mais, a Revolução de 1789 ainda mantinha-se acessa em certos espíritos.

Em meio aos tumultos e mobilizações ecoa uma voz metálica, carregada de dias e noites curtidas no bom e velho vin rouge ordinaire: “Fuzilem o General Aupick! Vamos matar o General Aupick!


1867: Morria Charles Baudelaire, precursor da poesia moderna | Diário Causa  Operária
Baudelaire – Livros e Obras | Cultura - Cultura Mix


Esse berro, esse autêntico uivo revelador, veio de alguém que projetava grande parte de seus infortúnios pessoais numa única pessoa. Esse singular grito de incentivo mortífero vinha da garganta do poeta e crítico de arte Charles Baudelaire (1821-1867).

Muito embora àquela altura o mundo ainda não soubesse quem era Baudelaire – o seu grande livro de poesia As Flores do Mal, que lhe custaria um processo e perseguição jurídica e policial, só seria publicado quase uma década depois, em 1857 -, como diria mais tarde o filósofo alemão Walter Benjamin, ali estava uma das figuras luminares e inventoras da poesia moderna, o símbolo do lirismo moderno no, até então, auge do capitalismo.

É também em Baudelaire que Benjamin resgata algumas imagens que lhe serão lapidares de alguns de seus conceitos mais conhecidos e que o ajudarão a entender os efeitos da modernidade e do capitalismo sobre a sociedade, a cultura, o mercado e a criação artística.

A perda da “aura”, por exemplo, associada ao poeta/artista que em meio ao crescimento dos meios de reprodução técnicos vê-se diante da quantidade abissal de reproduções de suas obras e do descontrole dos efeitos do surgimento de tais obras com disponibilidade infinita a um certo público. O desaparecimento da arte enquanto fenômeno único e irrepetível diante da velocidade com que os meios conseguem criar – ou, melhor dizendo, (re)produzir – tantas cópias indistinguíveis da obra original do artista.

Walter Benjamin - Carta Maior
O filósofo alemão Walter Benjamin
Frontispício da primeira edição de “Les Fleurs Du Mal”


O relato da “perda da auréola” de um elevado ser “bebedor de quintessências e comedor de ambrosia”, um ser iluminado outrora próximo de Deus (ou dos deuses) e portador das verdades e mensagens dos céus , na Antiguidade e nos tempos medievos, que, no meio desse caos móvel, onde a morte chega a galope de todos os lados ao mesmo tempo” deixou cair na lama a sua insígnia de bondade e elevação, narra bem essa mudança veloz e contínua que a maquinaria moderna trouxe à vida. E como a sociedade de massas e o aglomerado urbano buscavam se entender e se encontravam em meio à vertigem da contínua mudança da paisagem e dos modos de vida. Quem sabe, com sorte, nos diz Baudelaire, até um “mau poeta a apanhará e a colocará na cabeça descaradamente”, enquanto pode-se passear incógnito entre uma vida de crapulagens e abandonos de todos os tipos.

O poeta perde então sua primazia na vida coletiva na destruição das comunidades agrárias com a migração e a batalha diária pela sobrevivência nos grandes conglomerados urbanos onde abunda tanto a riqueza quanto a miséria absoluta. E “conquista” assim o total anonimato e até – por que não admiti-lo? – certa insignificância. Os destinos do mundo cuja interpretação valia-se da magia e da poesia agora estão nas mãos dos planejadores urbanos e dos cientistas, arquitetos e engenheiros sociais. E também, é claro, dos políticos e dos homens de negócios.

Devido a tais deslocamentos brutais no eixo da vida entra também, tanto na poesia quanto na prosa poética e nos ensaios de Baudelaire, essa figura que ele encarnou tão bem – e que Benjamin certamente se inspira e reivindica na criação de obras suas como as Passagens e Rua de Mão Única: o flanêur e a caminhada em meio a multitude de perspectivas, signos, coisas e vidas enquanto método de pesquisa empírica e vivência filosófica.

O flanêur é uma espécie de peripatético aristotélico, mas com menos “seriedade” e menor rigor lógico asfixiante, mas acima de tudo é um artista-filósofo, vagabundo e turista invisível com todos os sentidos expandidos pelo frenesi e burburinho das ruas e multidões que fundamenta e mobiliza as visões e pensamentos contidos em obras como o ensaio “O Pintor da Vida Moderna” e a fecunda prosa poética de O Spleen de Paris, de alcunha baudelairiana.

Ficheiro:Charles Baudelaire.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre


Não é dado a todo mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem uma fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens”.

O poeta que caminha desauratizado, solitário e embasbacado a degustar a multidão – tal qual “O homem da multidão” de Edgar Allan Poe, um dos poetas e escritores prediletos de Baudelaire e a quem ele traduziu e ajudou a divulgar na França daquele período – é o homem que abandonou as noções de pátria, família, amigos, amores, religião, para abraçar a liberdade sem fronteiras e a lucidez amarga que o mal e certo “satanismo” lhe legou.

Mais na frente ele dirá que é “o poeta [que] goza desse incomparável privilégio de ser ele mesmo e um outro”. Um personagem capaz de insuflar vigor, alma e fantasia em cada situação que o acaso e a necessidade lhe dispõem na aventura da vida cotidiana. Capaz de viver mais de uma vida – até milhares delas – numa mesma existência.

Cinco curiosidades e livros de Aldous Huxley | Estante Virtual Blog
O escritor e ensaísta britânico Aldous Huxley


Mas, lembrando um belíssimo ensaio de Aldous Huxley, engana-se quem acredita que o ateísmo ou o satanismo de Baudelaire seja o puro cultivo e culto ao mal, e muito menos ao mal banalizado de que nos falaria a filósofa Hannah Arendt. Ou ainda o mal que seria a pura ausência ou recusa do divino – ou do Bem – como queria nos ensinar Platão. Ainda que para se recusar algo primeiro teria que se acreditar na existência deste algo – ou esse Alguém – ao qual/a quem se recusa.

É também o Mal-Entendido pelo qual, como nos diz, ” o mundo segue em frente” e no qual, generalizado, “todo mundo se põe de acordo.” E o Mal como uma profissão de oposição e denúncia das imposturas e artimanhas de um mundo de mentiras. Onde reina a hipocrisia institucional os governos, as igrejas e a “boa sociedade” hasteiam a bandeira do Bem como se fosse o retrato de seu modo de existência em que o colonialismo, o Capital, a escravidão e a submissão generalizada sequestra, aniquila e submete bilhões de outras vidas humanas e não-humanas. E o Mal que estes dizem querer combater também eram os males dos vícios que a boemia, expediente bastante baudelairiano, parecia reunir sob sua guarida.

Enquanto o Bem parecia refletir o “Progresso” técnico, científico e “moral” seguindo as idéias do positivismo de Auguste Comte – e de boa parte do ideário civilizatório de então -, Baudelaire vituperava contra tais premissas filosóficas e propunha-se a “entregar-se a Satã“: “O que significa isso? Nada de mais absurdo do que o Progresso, pois o homem, como provam os fatos de todos os dias, continua igual e semelhante ao homem , isto é, continua no estado selvagem! O que são os perigos da floresta e da pradaria perto dos choques e dos conflitos cotidianos da civilização? Quer o homem agarre sua vítima no bulevar, quer trespasse sua presa em florestas ignotas, não é ele o homem de sempre, isto é, o mais perfeito animal de rapina?

Essa adesão ao Mal pode parecer até com certo coquetismo gerado como resposta às paixões sociais e artificialismo imperantes em seu tempo – e uma irônica dispersão no materialismo e sensualismo hedonista que a produção material de bens decorrentes da industrialização e da ciência ajudou a trazer levando abaixo a dominação de viés estritamente religioso na sociedade em pleno século XIX em decorrência das ideias filosóficas do Século das Luzes.


Charles Baudelaire: Pequenos poemas em prosa - Revista Ecos do Saber

Poema em prosa] Em qualquer lugar fora do mundo – Charles Baudelaire |  Revista Macondo ______ www.revistamacondo.com.br
Charles Baudelaire pintado por Gustave Courbet


O que, talvez, não contariam é que tudo isso viria a criar os efervescentes ingredientes da invenção da figura do “poeta maldito”, que Baudelaire encarnou e moldou com suas posturas, suas intervenções por meio de obras e artigos em jornais, seus pensamentos e máximas que se tornaram livros, e que potencializam ainda mais a via aberta alguns séculos antes pelo poeta e ladrão, que fugira algumas vezes de sua própria execução, François Villon (1431-1463). A figura do provocador marginalizado socialmente que se contrapõe à sociedade chocando-a. Outra figura do tipo, e que também precedeu o poeta simbolista/decadentista, embora não fosse poeta, foi o Marquês de Sade. O poeta gênio adolescente – maldito, é claro – Arthur Rimbaud louvava Baudelaire em sua Segunda Carta Dita do Vidente como “um Deus da linguagem”.

Em suas andanças – particularmente, apesar de ter cantado “a paixão pelas viagens”, Charles Baudelaire saiu poucas vezes da França, uma delas indo para Aden, na Arábia, ainda na juventude, e depois, bem mais velho, para Bruxelas forçado a escapar do processo sofrido por suas Flores do Mal e do encurralamento por parte de seus credores e onde, por fim, faleceu devido à uma paralisia causada pela sífilis não tratada – Baudelaire, filho de uma pequena aristocrata que perdeu o marido quando Charles e seu irmão ainda eram crianças e se casou com o General Aupick a quem Baudelaire inflamou seus consortes revolucionários a matar nas barricadas de 1848 – dilapidou sua herança e, embora tentasse manter uma imagem de dândi em sua apresentação impecável, levou uma vida de pobreza. Sem dinheiro – e devendo a Deus e ao Diabo – o poeta correu como pôde de ser detido e colocado atrás das grades por suas dívidas.

Frequentou tanto salões com a aristocracia intelectual parisiense e européia – inclusive foi amigo do compositor alemão Richard Wagner – quanto espeluncas e outros lugares não recomendáveis como o Hotel Pimodan onde junto a outros escritores e intelectuais como Théophile Gautier e Gérard de Nerval faziam parte do “Clube dos Haxixeiros” e participavam de orgias – e jantares com leituras – sob efeitos de tais estupefacientes.

File:Hôtel de Lauzun ou Hôtel de Pimodan - Cour intérieure, côté sud -  Paris 04 - Médiathèque de l'architecture et du patrimoine -  APMH00004678.jpg - Wikimedia Commons
O Hotel Pimodan onde se davam as reuniões e jantares – com direito a orgia de drogas e compartilhamento de experiências alucinógenas – do “Clube dos Haxixeiros” sobre o qual escreveu Theophile Gautier e do qual Charles Baudelaire fizera parte.


Enquanto viveu e pôde pegar a sua pequena fortuna (a tal herança deixada pelo pai), não deixou de alimentar seus pequenos e turbulentos vícios: a jogatina, os salões de arte, indumentárias feitas sob medida, livros bem encadernados, as drogas (particularmente o haxixe, sobre o qual escreveu em seu notável ensaio Os Paraísos Artificiais), as bebedeiras e a prostituição. 

Em particular, nestes amores pagos pelas virtudes do ouro, com uma mulata de nome Jeanne Duval, com quem Baudelaire teve um envolvimento ainda jovem e a cujo relacionamento durou quase toda a sua vida. Mesmo quando não estavam mais juntos Baudelaire fez o que pôde para ajudar a sua antiga amante, já envelhecida e não mais capaz de se prostituir, a ter um modo de vida um pouco menos atribulado.

Por conta disto levou uma vida de autêntico maldito com algum nível de ostracismo que lhe foi imposto. Para muitos ele era apenas mais um devasso que se destruira nos vícios mundanos, na imoralidade e libertinagem dos prostíbulos e má companhias, nas drogas e na doença – a temida sífilis – que o levou à paralisia que o matou em 1867. A despeito de tudo, Baudelaire foi uma mente efervescente e criativa que escreveu, profetizou, leu, traduziu e produziu como poucos e ajudou a definir e inaugurar uma nova fase e cenário para a literatura. Não fossem As Flores do Mal, Os Paraísos Artificiais e O Spleen de Paris a história da poesia moderna poderia ter sido outra. Por isso, para outros tantos, Charles Baudelaire foi um autêntico gênio.

Embora culto, apaixonado pelos livros, pela alta cultura, pelas idéias e sensível às artes, Baudelaire alerta que “quanto mais o homem cultiva as artes, menos ele fica de pau duro“. E advogava em seu Meu Coração Desnudado (um diário íntimo publicado como livro postumamente): “a foda é o lirismo do povo.”

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Não deve ser difícil imaginar esse poeta, bem vestido, de ar meio cínico, meio ébrio e sinistro, de gestos largos e encenados, caminhando com sua bengala entalhada entre a populaça, atravessando as trincheiras ao lado de operários agitados, revoltosos e idealistas. E para ele “toda ideia é, por si mesma, dotada de uma vida imortal.” Baudelaire que vivia entre os lumpenproletários, em meio aos ruídos da Revolução. O grande poeta – e finíssimo crítico de arte – caminha entre o povo, a população, “toma banho de multidão“. E ergue sua voz como uma bandeira incendiada. Que imagem!

O grito de Charles Baudelaire em pleno buvelar revolucionário ainda ecoa nos dias de hoje. É um grito desses capazes de atravessar dois séculos e alguns oceanos e tantas terras ao redor da Europa. Um vagido que aterrissou em terras pindorâmicas. Juro que ainda o escuto aqui, trancafiado em meu apartamento na Mooca em tempos de pandemia, em pleno morticínio global e brasileiro.

No entanto, o tempo e a distância alteraram um pouco esse grito – ou foram nossos ouvidos prejudicados pela barbárie e atrocidades contemporâneas?

E parece que ele, agora e nesse contexto em que já ultrapassamos a imoral marca das 4.000 mortes diárias pelo Coronavírus, nos chega desta maneira – juro que o escuto: “Matem o Capitão reformado!


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