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[Tradução] Entrevista com o diretor Andrei Tarkovsky – parte 3

Como prometemos a vocês aqui vai a parte 3 de nosso post comemorativo ao aniversário do cineasta e poeta audiovisual Andrei Tarkovsky. Quem ainda não viu a parte 1 e parte 2 só clicar.

Novamente, as ideias em destaque não são demarcadas no original, mas acentos totalmente nossos em certas “idéias-força” que nos chamaram a atenção.

Cada uma de suas linhas nos traz valiosas lições sobre o cinema e seu modo de fazer com toques de genialidade, generosidade e espirituosa humanidade. Não conseguiria expressar o prazer que tive traduzindo-as.

Como essa entrevista é ainda mais longa, optamos por dividi-la em mais duas partes (Ufa!). Mas, juro que vale demais ler tudo. Uma grandiosa aula de cinema em forma de conversa.

Aqui vai a segunda – e última – parte da segunda entrevista. Desejo a todos uma boa leitura!


*


Andrei Tarkovski declara guerra à mediocridade | by Leandro Costa | Persona


Lipkov:
Aquele som trovejante no final com planos de ícones: é de um avião a jato? Essa também é uma forma de tornar a história mais moderna?

Tarkovski:
Não, você está errado. É apenas um trovão, um trovão normal. Você pode até ter sentido isso, mas não tentamos isso. Em geral não suporto nenhuma interpretação, nenhum “dedo escondido no bolso“; essa é a pior coisa possível. Isso não é arte. Eu rejeito isso de cara, eu juro! Mas se parece semelhante, o que você pode fazer? Realmente é parecido. Mas não há “dedo” aqui. A esse respeito, limpamos o roteiro com toda a diligência possível e, se encontramos algo que pudesse ser interpretado como uma pista para algumas situações contemporâneas, nós o eliminamos impiedosamente. A única coisa importante para nós era expressar a nossa ideia, a nossa visão da nação, da época, das pessoas, da arte. Não queríamos nenhum desvio da historiografia. Mesmo sem isso, os limites eram suficientemente amplos para expressar tudo o que precisávamos.

Lipkov:
Você está planejando continuar seu trabalho no reino do filme histórico?

Tarkovski:
No momento, eu não tenho esse desejo. Agora não, mas depois de alguns filmes, gostaria de filmar A Vida do Prelado Avvakum. Ele é uma figura colossal. Fascinante. Além disso, você não precisa escrever nenhum roteiro. Basta pegar A Vida e fazer o filme de acordo com ela. Ele é um personagem notável, profundamente russo, o caráter de um homem indestrutível. Uma história onde o homem triunfa. Uma tragédia igual em força a Ésquilo. A morte do protagonista engendra em nós o sentimento, entendemos o quão grande foi esta figura, quão grandiosa pode ser a força do espírito humano. Isso me concerne. Eu gostaria de fazer isso.

Albert Galera on Twitter: "Daniel Bergman, Andrei Tarkovsky and Sven  Nykvist on the set of The Sacrifice (1986). #Offret… "


Lipkov:
Quais são os dois filmes que você gostaria de fazer primeiro?

Tarkovski:
Um plano estou mantendo em segredo, mas o outro é Solaris baseado na obra de Stanislaw Lem.

Lipkov:
Um filme de ficção científica; é também um tipo de filme histórico, só que orientado em direção ao futuro, não ao passado.

Tarkovski:
Sim, e sabemos tão pouco sobre o futuro quanto sobre o passado.

Lipkov:
Mas tentamos adivinhar com antecedência.

Tarkovski:
Da mesma forma que quando tentamos reconstruir em filmes históricos a forma como as coisas eram, e temos tão poucas chances de sucesso quanto de prever o futuro. Mas isso não é importante, isso é de importância secundária, o principal são as ideias que expressamos. Se um homem do século XV observasse Rublev, provavelmente ficaria terrivelmente confuso e não reconheceria nada. Não poderia ser de outra forma. Afinal estamos falando de arte. Isso é o que o distingue da ciência.

Lipkov:
E se as pessoas assistirem a Rublev no ano 2200. Como o espectador vai abordar o filme então?

Tarkovski:
Bem. Em 1966, tentamos fazer um filme o mais próximo possível da história, o mais preciso possível em termos de figurinos e outros acessórios de época, com a única exceção do diálogo. Que ano você disse? 2200? Espero que pessoas inteligentes e educadas vivam então, eles irão entender que se trata de uma obra de arte e não farão o tipo de exigências a que estamos submetidas hoje.

andrei rublev tarkovsky - Google Search | Andrei rublev, Arthouse cinema,  Film stills

Andrei Rublev (restored) | Detroit Institute of Arts Museum

Lipkov:
Os filmes históricos muitas vezes se baseiam em alguma fonte literária. Nesse caso, o diretor enfrenta a tarefa de dupla interpretação: da obra literária e do acontecimento histórico.

Tarkovski:
Acho que nossa tarefa de fazer nosso filme sobre Rublev foi simplificada justamente pela falta de informações firmes sobre nosso protagonista. Seu personagem, sua personalidade são tão misteriosos, obscuros e codificados, que fomos capazes de construir nossa história livremente, imaginar a biografia de Rublev sem medo de complicar nossas relações com historiadores e historiadores da arte. Eles não podem nos provar suas objeções à nossa representação de Andrei. E, em contraste, se os fatos de sua vida fossem conhecidos em detalhes, ninguém nos perdoaria a violação da verdade histórica.

Lipkov:
Em que medida, na sua opinião, o artista tem o direito de inventar?

Tarkovski:
O artista tem direito a qualquer ficção; é por isso que ele é um artista. Ele não representa erroneamente sua descrição como a verdade da vida. Ele luta apenas pela verdade das conclusões que apresenta. E o fato de a arte ser baseada na ficção é comprovado por toda a sua história, desde suas próprias fontes…

Lipkov:
É fácil inventar coisas em relação à época de Rublev. Mas e os eventos, por exemplo, da Segunda Guerra Mundial?

Tarkovski:
Ainda é o mesmo. Talvez o artista ainda tenha um pouco mais fácil aqui. Para inventar as coisas, você precisa saber o que está rejeitando. Você absolutamente deve saber disso. Você não pode dizer: “Bem, eu vou fazer um filme sobre o Prelado Avvakum, embora não saiba nada sobre ele ou sua época”. Nada vai sair disso. Quanto mais sabemos, mais as oportunidades são nossas. Mas o artista tem o direito de rejeitar algo e mudar alguma coisa. Ele tem o direito de sua própria interpretação dos eventos em nome da tarefa a que se propôs.

Memórias: Pier Paolo Pasolini | Esquerda
O diretor, poeta e pensador italiano Pier Paolo Pasolini


Lipkov:

O que você acha do Evangelho de [Pier Paolo] Pasolini segundo Mateus? É também uma espécie de filme histórico.

Tarkovski:
Claro. Eu gosto do filme. Gosto justamente porque seu diretor não sucumbiu à tentação de interpretar a Bíblia. A Bíblia foi interpretada por dois mil anos e ninguém pôde chegar a um acordo unânime. Pasolini, portanto, não se propôs a essa tarefa, apenas deixou a coisa na forma em que nasceu. Muitos acham que a imagem de um Cristo cruel e militante foi inventada pelo autor do filme. Não é verdade! Leia os Evangelhos e verá que este era um homem cruel, rabugento e irreconciliável. Além disso, com que gênio foi escrito! Por um lado, ele é Deus e a Igreja confia nele há dois mil anos, mas ele sucumbe à dúvida no jardim de Getsêmani. O que poderia ser mais simples do que pedir ajuda a seu pai e evitar morrer na cruz, mas ele não faz isso. Ele está todo de trás para frente…

Lipkov:
Será possível filmar Hamlet da mesma forma, evitando a tentação de interpretar a fonte?

Tarkovski:
Este é um assunto mais sério. Há muito tempo sonhava em fazer uma produção de Hamlet e espero apresentá-la um dia no teatro e talvez no cinema. O fato é que Hamlet não precisa de interpretação. É necessário, eu acho, simplesmente ler o que Shakespeare disse. E na medida em que ele falou de problemas absolutamente eternos que são sempre de importância principal, Hamlet pode ser encenado de acordo com o projeto de Shakespeare, em qualquer época. Esses milagres às vezes ocorrem com obras. O artista, às vezes, alcança uma visão tão profunda dos eventos, personagens e conflitos humanos, que mesmo séculos depois o que ele escreveu tem um significado enorme. Só que ninguém sabe como ler Hamlet corretamente.

Lipkov:
E quanto ao de [Grigory] Kozintsev?

Tarkovski:
Eu não gosto.

Lipvok:
[Laurence] Olivier?

Tarkovski:
De novo, não. Ambos tentam modernizar Hamlet de alguma forma.

Lipvok:
Peter Brook? Quero dizer a encenação teatral.

Tarkovski:
Não, eu também não gosto dele.

Lipvok:
Você quer dizer que nunca houve um Hamlet que…

HAMLET (1948) – Cinemarden
O Hamlet de Laurence Olivier, de 1948


Tarkovski:
Sim, na minha opinião, nunca houve o Hamlet que Shakespeare escreveu. Talvez tenha havido na era elisabetana, quando ele participou pessoalmente do Teatro Globe. Talvez… Hamlet não deva ser interpretado não deve ser esticado sobre alguns problemas contemporâneos, como uma camisa que rasga nas costuras e, mesmo que não rasgue, fica pendurada como se estivesse em um cabide, absolutamente sem forma. Existem ideias suficientes lá que permanecem imortais até hoje. Só é preciso aprender a lê-las… Tudo isso é realmente complicado quando você lida com figuras tão canônicas… Veja, existem dois tipos de adaptação de tela. A primeira é quando você usa obras clássicas, que estão saturadas de significado para milhões de anos à frente, para sempre, por anos, de modo que é necessário apenas comunicá-las. Pelos meios existentes. Cinema existe, então você pode fazer isso por meio do cinema também. E se ninguém conseguiu filmar Shakespeare como ele escreveu, ainda é necessário fazê-lo.

Mas então há peças que apenas dão ao diretor ou roteirista um impulso, material que eles podem usar para falar com sua própria voz e expressar suas próprias ideias. Aliás, o próprio Shakespeare, por exemplo, escreveu sobre Júlio César algo diferente do que corresponde à história, às obras de Plutarco e Suetônio. Ele escreveu como quis. Ele disse tudo o que pensou sobre este assunto. E esse caminho não é tão ruim, aliás. Se um livro é apenas um material para ajudá-lo a expressar suas ideias, então você não pode evitar o uso de questões contemporâneas, caso contrário, você não é um artista, caso contrário, seu filme será ciência popular, historiografia, sem mérito artístico. E se você está adaptando uma obra imortal, você precisa de uma abordagem completamente diferente.

Lipvok:
Eles dizem que grandes obras como Hamlet precisam de uma nova leitura para cada geração.

Tarkovski:
Com respeito a Hamlet, isso não é correto.

Lipvok:
Mas, a história mostra que é assim que tem sido.

Tarkovski:
Sim, assim tem sido, infelizmente. Mas Shakespeare escreveu uma obra significativamente mais profunda do que as performances que vimos, que conhecemos. Por quantos anos, por quantas décadas Hamlet foi retratado como um jovem lânguido com cabelos longos e uma túnica preta com mangas bufantes, em uma camisola com uma corrente dourada! Mas é sabido com certeza que Shakespeare imaginou um homem de trinta anos completamente diferente sofrendo de falta de ar. E pensar que aquela era estava mais próxima de Shakespeare do que a nossa. Mas eles desempenharam o papel como quiseram. Foi uma moda. Assim que Hamlet se torna um príncipe tão lânguido, tudo se perde. O Hamlet de Shakespeare está morto … Eu faria isso de forma completamente diferente, e o cenário seria diferente. Mas isso não é importante. É minha decisão como diretor como filmar. Mas os personagens e a ideia da peça devem ser preservados por todos os meios, porque são absolutamente imortais. A ideia de Hamlet é o conflito de um homem do futuro com o presente. Ele superou sua era intelectualmente, mas foi obrigado a viver entre seus contemporâneos físicos.

Ele reflete continuamente. Por quê? Qual é o problema? Qual é o problema principal?

O principal problema é sua incapacidade de agir. Talvez ele não tenha certeza de tudo ou se pense que é fraco? Nada do tipo. Hamlet entende perfeitamente que o conflito é insolúvel. É por isso que ele diz: “Ser ou não ser?” O conflito é insolúvel, quer ele interfira nele ou não. Hamlet vê com antecedência a inutilidade do conflito. Ele está fadado. E assim que ele começa a agir, ele perece por si mesmo também. Imagine por que meios ele tem que lutar neste mundo! Que “ratoeira” deve ser! Que duelo! Em outras palavras, ele adota a posição de seu inimigo. Ele deve lutar com suas armas da mesma maneira que eles fazem. E o resultado é a morte inevitável. Porque é impossível mudar nada. Hamlet ultrapassou seu próprio tempo por muitos anos. Ele entende o mundo em que vive e que somente os tempos futuros, aos quais ele pertence espiritualmente, será capaz de mudar alguma coisa.

Lipvok:
Como pode o homem agir de acordo com o tempo? Ou ele está indefeso?

Tarkovski:
Não, ele é obrigado a agir. Hamlet decide corretamente. Ele deve agir mesmo sabendo que vai perecer. Ele morrerá como Giordano Bruno, como muitos revolucionários e defensores de ideias. Afinal Hamlet luta por uma ideia. Ele não pode se tornar um cidadão vulgar e aceitar tudo o que o cerca, embora saiba que está condenado. Daí a grandeza de seu espírito e seu gênio. Hamlet hesita porque não pode triunfar. Como ele deve estar? O que ele pode fazer? Ele não pode fazer nada. Esse sempre será o caminho. Mas ele ainda deve dizer sua palavra … E o resultado é uma pilha de cadáveres. E quatro capitães o carregam. Este é o significado de Hamlet, não “ser ou não ser“, “viver ou morrer“. Absurdo! Não tem nada a ver com vida ou morte. Tem a ver com a vida do espírito humano, sobre a capacidade ou incapacidade de se aclimatar, sobre a responsabilidade de um grande homem e intelecto perante a sociedade.

O homem ainda deve agir! Hamlet age embora saiba que é incapaz de destruir este mundo, este castelo. Na melhor das hipóteses, ele próprio se tornará seu rei. Isso poderia ser feito desta forma! E então a peça seria compreensível para todas as eras.


Stalker, a obra-prima de Andrei Tarkovski, disponível no YouTube em versão  restaurada | Revista Bula

O progresso existe. Mas existe um homem que superou o progresso. Ele veio de longe, estudou muito e não participou de todos os conflitos destrutivos. Ele é um membro da intelligentsia, da mais alta classe. Apenas os russos podem entender o que isso significa. Você sabe o que é dito sobre a intelligentsia na famosa Enciclopéia Britânica? Existem duas seções: a intelligentsia e a intelligentsia russa. E já nos esquecemos disso.

Lipvok:
Como você entende isso?

Tarkovski:
A intelligentsia russa sempre foi extremamente ativa e independente.  Nunca esteve a serviço dos príncipes deste mundo, defendeu a verdade, procurou, avançou. “Intelligentsia” é uma palavra russa. Os membros da intelligentsia sofreram privações em nome de suas idéias, sofreram repressão e foram considerados idealistas. Lembre-se dos social-democratas: Belinsky, Dobroliubov, Pisarev, todos eles defenderam uma ideia e foram rejeitados. Mas não importa o quão hostil a realidade fosse para eles, eles acreditavam na verdade e lutaram por ela. E o que é a intelligentsia no Ocidente? Uma pessoa privada, desinteressada do contato com as massas.

Lipvok:
Em outras palavras, ser membro da intelligentsia é uma profissão…

Tarkovski:
Sim, é uma vocação social. Afinal, Lênin também era da intelligentsia.


* A entrevista original em inglês está publicada aqui.



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