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[Entrevista] O poder das canções de Bob Dylan

Rebelde cultuado, vencedor do Prêmio Nobel de literatura, trovador solitário, poeta, profeta, impostor, mentiroso, vagabundo, fazendeiro, cristão reformado, “voz de uma geração“.

Afinal, qual desses é Bob Dylan? Todos e, ao mesmo tempo, nenhum deles.

Dylan sempre gostou do jogo de máscaras – dizia que mudava de “identidade” a cada seis meses. Não era apenas uma metamorfose ambulante. Era tanto um criador quanto um narrador de histórias de mão cheia.

Avesso a etiquetas, Dylan renovou-se constantemente a si e ao seu trabalho. Quando conseguiu penetração na consciência pública como “representante” da música folk de protesto, Dylan decidiu “acabar com sua carreira” e apareceu com uma banda de rock. O público detestou, chamou-o de traidor, vaiou profusamente.  Dylan, indiferente e fiel aos ventos da própria liberdade seguiu em frente. Sempre avançando em territórios novos, desconstruindo rótulos.

Enquanto ainda se preparava para se tornar o músico e compositor grandioso e inspirado que viria a ser, Robert Zimmerman (que se tornou Bob Dylan) antes tinha assumido alguns outros heterônimos – chegando inclusive a assumir a identidade de Bobby Vee., músico para o qual trabalhou como pianista.

Algumas outras “máscaras” usadas por Dylan: Blind Boy Grunt: para a revista de música folk Broadside Magazine, uma revista e gravadora de música folk. Bob Landy: para gravar como tocador de piano no álbum de antologia de 1964, The Blues Project, lançado pela Elektra Records. Sob o pseudônimo de Tedham Porterhouse, Dylan contribuiu com a harmônica para o álbum de 1964 de Ramblin’ Jack Elliott, Jack Elliot.

Reza a lenda que escreveu uma de suas canções mais reconhecidas – Like a Rolling Stone – em um surto criativo de cinco minutos diante da máquina de escrever.

O poeta e músico Bob Dylan gostava de referir a alguns “heróis” que o marcaram.

 

Documentário de Martin Scorsese sobre Bob Dylan estreia na Netflix e nos  cinemas – Comunidade Cultura e Arte
Bob Dylan e o poeta da Geração Beat Allen Ginsberg leem poemas no túmulo de Jack Kerouac

Bob Dylan on Allen Ginsberg (Songwriting) - The Allen Ginsberg Project



Dentre eles estava o escritor norte-americano, considerado o “Pai da Geração Beat” e autor do best-seller (e um dos livros mais roubados do mundo, segundo dizem) On The Road, Jack Kerouac. “Ler On the Road mudou minha vida”, dissera um Dylan que teria fugido de casa após ler o romance. Também em seu pedestal poético encontram-se nomes como Walt Whitman – o grande professor da América -, Dylan Thomas (de onde Robert Allyn Zimmerman pescou sua alcunha artística), Allen Ginsberg (outro beat com o qual Dylan manteve uma relação de amizade e admiração) e o misterioso poeta-adolescente, o rebelde maldito francês, Arthur Rimbaud. Este último já vimos antes por aqui em nosso blog.

Na parte da música, apesar de ter crescido ouvindo o rock and roll tocado por Little Richards e Buddy Holly, Bob foi fisgado mesmo pela tradição da canção folk e encantou-se com as belas canções ácidas contra as injustiças sociais, desigualdade econômicas e temas de protesto que ganharam corpo e projeção na voz de Woody Guthrie.

Bob Dylan chegou a visitar Guthrie em seus últimos anos de vida quando o mesmo estava gravemente doente, com um estado avançado do mal de Huntigton no hospital psiquiátrico de Greystone Park. Bob prometeu se tornar o maior discípulo daquele a quem chamou “a verdadeira voz do espírito norte-americano” cujas canções estavam cheias de tanta humanidade.


This Machine Kills Fascists" - US History Scene

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“Esta máquina mata fascistas” – o compositor Woody Guthrie foi um dos mestres de Bob Dylan


Dylan chega aos 80 anos como uma das maiores forças poéticas do século XX. É absolutamente incrível o poder ainda atual de suas canções.

O que dizer, por exemplo, da letra de Masters of War?

Vocês apertam os gatilhos
Para os outros atirarem
Então vocês se sentam e assistem
Quando a contagem de mortos aumenta

Vocês se escondem em suas mansões
Enquanto o sangue de jovens
Jorra de seus corpos
E é enterrado na lama


Muito embora o tema da canção de 1963 seja a ganância indiscreta destes senhores, empresários e políticos, da corrida armamentista em um período em que a Guerra Fria alimentava a insegurança mundial e os conflitos no Vietnã escalavam, não tem como não traduzir esse sentimento e essa metáfora para os tempos atuais. Bem como o uso dos jovens como bucha de canhão para guerras lucrativas que tiram vidas e deixam esses senhores mais ricos sem sequer sujarem as mãos.


Um dos mais influentes artistas da história, Bob Dylan é premiado com o  Nobel de Literatura - CTB

 

Pelo menos aqui no Brasil, em que temos um idiota no poder que, em plena escalada de mortes na pior crise sanitária enfrentada não apenas no país, só fala em “meter bala” nos inimigos, armar a população e enche a boca para falar de Jesus Cristo e cristianismo.

Isso sem falar em outras grandiosas canções como Blowin In The Wind, Mr. Tambourine Man (que o escritor Bráulio Tavares vive contando uma historieta sobre um encontro de Dylan com Jackson do Pandeiro que, mesmo sendo incorreta e mentirosa, é uma delícia imaginar a respeito), Hurricane, A Hard Rain A-Gonna Fall, Don’t Think Twice, It´s Allright, Only a Pawn In Their Game, Ballad of a Thin Man, Times They Are A-Changin’ e tantas outras!


 

Dylan aparentemente envelheceu bem. Logo ele que, ainda jovem, tinha dito que precisou de muitos anos para se tornar “jovem”. Conseguiu o feito de, ainda em vida, ter ganho os prêmios mais importantes tais como o Nobel, o Globo de Ouro, o Pullitzer, o Grammy e o Oscar.

Lúcido, penetrante e provocador, nosso poeta laureado – que sempre incorporou em seu trabalho as vozes dos vencidos, esquecidos, farrapos humanos e marginalizados – continua exercendo sua consciência e brandindo suas armas por meio dos versos, dos versos que resistem à corrosão do tempo.

Para celebrar os 80 anos, trouxemos aqui uma entrevista traduzida dele pra vocês. Espero que gostem.

Vamos lá acompanhar um pouco da sabedoria desse ser humano?


***


Bob Dylan Tem Muito Em Que Pensar

Em uma rara entrevista, o vencedor do Prêmio Nobel discute a mortalidade, inspirando-se no passado, e em seu novo álbum, “Rough and Rowdy Ways”.

por Douglas Brinkley

 

75 coisas que você talvez não saiba sobre Bob Dylan | Cultura | EL PAÍS  Brasil

 

Há alguns anos, sentado à sombra das árvores em Saratiga Springs, N.Y., tive uma discussão de duas horas com Bob Dylan que tocou em Malcolm X, a Revolução Francesa, Franklin Roosevelt e a Segunda Guerra Mundial. Em um dado momento, ele me perguntou o que eu sabia sobre o massacre de Sand Creek em 1864. Quando eu respondi: “Não o suficiente“, ele se levantou de sua cadeira dobrável, subiu em seu ônibus de turnê e voltou cinco minutos depois com fotocópias descrevendo como as tropas americanas massacraram centenas de pacíficos Cheyenne e Arapahoe no sudeste do Colorado.

Dada a natureza de nosso relacionamento, me senti confortável em entrar em contato com ele em abril depois que, em meio à crise do coronavírus, ele inesperadamente lançou sua canção épica de 17 minutos “Murder Most Foul“, sobre o assassinato de Kennedy. Apesar de não ter dado uma grande entrevista fora de seu próprio website desde que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, ele concordou em uma conversa por telefone de sua casa em Malibu, que acabou sendo sua única entrevista antes do lançamento de Rough and Rowdy Ways, seu primeiro álbum de canções originais desde Tempest em 2012.

Como a maioria das conversas com Dylan, Rough and Rowdy Ways cobre um território complexo: transes e hinos, blues desafiadores, anseios de amor, justaposições cômicas, jogo de palavras brincalhão, ardor patriótico, firmeza independente, cubismo lírico, reflexões da era do crepúsculo e contentamento espiritual.

 



Na faixa de alta octanagem, “Goodbye Jimmy Reed“, uma faixa de parar o trânsito, Dylan homenageia o homem do blues do Mississippi com riffs violentos de gaita e letras obscenas. ppi com riffs violentos de gaita e letras obscenas. No lento blues “Crossing the Rubicon”, ele sente “os ossos sob minha pele” e considera suas opções antes da morte: “Três milhas ao norte do purgatório – um passo do além / rezei para a cruz e beijei as meninas e eu cruzei o Rubicão.

Mother of Muses” é um hino ao mundo natural, coros gospel e militares como William Tecumseh Sherman e George Patton, “que abriu o caminho para Presley cantar / que abriu o caminho para Martin Luther King”. E “Key West (Philosopher’s Pirate)” é uma meditação etérea sobre a imortalidade ambientada em um passeio pela Rota 1 até Florida Keys, com o acordeão de Donnie Herron canalizando o Garth Hudson da banda. Nele, ele homenageia “Ginsberg, Corso e Kerouac”.

Talvez um dia ele escreva uma música ou pinte um quadro em homenagem a George Floyd. Nas décadas de 1960 e 1970, seguindo o trabalho de líderes negros do movimento pelos direitos civis, Dylan também trabalhou para expor a arrogância do privilégio branco e a crueldade do ódio racial na América por meio de canções como “George Jackson“, “Only a Pawn In Their Game“, e “The Lonesome Death of Hattie Carroll“. Uma de suas falas mais ferozes sobre policiamento e raça veio em sua balada “Hurricane” de 1976: “In Paterson that’s just the way things go/If you’re black you might as well not show up on the street/Unless you want to draw the heat.” (Tradução livre: Em Paterson é assim que as coisas acontecem / se você é negro, pode muito bem não aparecer na rua / A menos que queira chamar a atenção da polícia.)

 

Fiz um breve acompanhamento com Dylan, 79, um dia depois que Floyd foi morto em Minneapolis. Claramente abalado pelo horror que ocorrera em seu estado natal, ele parecia deprimido. “Fiquei muito enojado de ver George ser torturado até a morte assim”, disse ele. “Foi além de feio. Esperemos que a justiça seja rápida para a família Floyd e para a nação.

Estes são trechos editados das duas conversas.


Douglas Brinkley:
Foi “Murder Most Foul” composta como uma elegia nostálgica para um tempo perdido?


Bob Dylan:

Para mim não é nostálgico. Eu não penso em “Murder Most Foul” como uma glorificação do passado ou algum tipo de despedida para uma era perdida. Isso fala comigo no momento. Sempre acontecia, especialmente quando eu estava escrevendo as letras.

D.B.:

Alguém leiloou um maço de transcrições não publicadas na década de 1990 que você escreveu sobre o assassinato de J.F.K. Essas notas em prosa eram para um ensaio ou você esperava escrever uma música como “Murder Most Foul” por um longo tempo?

B.D.:
Não sei se alguma vez quis escrever uma música sobre J.F.K. Muitos desses documentos leiloados foram falsificados. As falsificações são fáceis de detectar porque alguém sempre assina meu nome na parte inferior.


Dylan fez, quase sem querer, um dos melhores clipes da história | VEJA
Frame do videoclipe de “Homesick Subterranean Blues” que conta com a participação do poeta beat Allen Ginsberg

 

D.B.:
Você ficou surpreso que essa música de 17 minutos foi seu primeiro hit número 1 na Billboard?

B.D.:
Eu estava, sim.

D.B.:
I Contain Multitudes” tem uma frase poderosa: “Durmo com vida e morte na mesma cama.” Suponho que todos nós nos sentimos assim quando atingimos uma certa idade. Você pensa freqüentemente sobre a mortalidade?

B.D.:
Eu penso sobre a morte da raça humana. A longa estranha viagem do macaco nu. Não quero ser leve sobre isso, mas a vida de todos é tão transitória. Todo ser humano, não importa quão forte ou poderoso, é frágil quando chega à morte. Eu penso sobre isso em termos gerais, não de uma forma pessoal.

D.B.:
Há um monte de sentimento apocalíptico em “Murder Most Foul“. Você está preocupado de que em 2020 nós passamos um ponto sem retorno? Que a tecnologia e hiper-industrialização estão trabalhando contra a vida humana na Terra?

 

Celebrando o grande poeta, Walt Whitman | by Camila De Figueiredo Pimenta |  sem querer mudar de assunto | Medium
“Eu contenho multidões” faz referência direta aos poemas de Walt Whitman presentes no seu único livro “Folhas de Relva”

 

B.D.:
Certamente, há um monte de razões para se ficar apreensivo a respeito disso. Definitivamente, há muito mais ansiedade e nervosismo agora do que antes. Mas isso só se aplica a pessoas de certa idade como eu e você, Doug. Temos a tendência de viver no passado, mas somos apenas nós. Os jovens não têm essa tendência. Eles não têm passado, então tudo o que sabem é o que vêem e ouvem, e acreditarão em qualquer coisa. Em 20 ou 30 anos a partir de agora, eles estarão na vanguarda. Quando você vê alguém de 10 anos, ele estará no controle em 20 ou 30 anos e não terá a menor ideia do mundo que conhecemos. Os jovens que estão na adolescência agora não têm uma via de memória para se lembrar. Portanto, é provavelmente melhor entrar nessa mentalidade o mais rápido possível, porque essa será a realidade.
No que diz respeito à tecnologia, ela torna todos vulneráveis. Mas os jovens não pensam assim. Eles poderiam se importar menos. Telecomunicações e tecnologia avançada é o mundo em que nasceram. Nosso mundo já está obsoleto.

D.B.:
Uma frase em “False Prophet” – “Eu sou o último dos melhores – você pode enterrar o resto” – me lembrou das recentes mortes de John Prine e Little Richard. Você ouviu a música deles depois que eles morreram como uma espécie de homenagem?

B.D.:
Ambos os caras eram triunfantes em seus trabalhos. Eles não precisam de ninguém prestando-lhes tributos. Todos sabem o que eles fizeram e quem eles eram. E eles merecem todo o respeito e aclamação que eles receberam. Nenhuma dúvida sobre isso. Mas, eu cresci junto com Little Richard. E ele estava lá antes de mim. Acendeu um fósforo embaixo de mim. Sintonizou-me com coisas que eu nunca teria sabido por conta própria. Então, eu penso nele de forma diferente. John veio depois de mim. Portanto, não é a mesma coisa. Eu os reconheço de forma diferente.

 

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D.B.:
Por que mais pessoas não prestaram atenção à música gospel de Little Richard?

B.D.:
Provavelmente porque a música gospel é a música da boas novas e hoje em dia simplesmente não existe nenhuma. Boas notícias no mundo de hoje são como um fugitivo, tratada como um bandido e posta pra correr. Castigado. Tudo o que vemos são notícias inúteis. E temos que agradecer à indústria da mídia por isso. Isso mexe com as pessoas. Fofoca e roupa suja. Notícias sombrias que o deprimem e horroriza.

Por outro lado, as novidades gospels são exemplares. Isso pode lhe dar coragem. Você pode definir o ritmo de sua vida de acordo ou tentar, de qualquer maneira. E você pode fazer isso com honra e princípios. Existem teorias da verdade no evangelho, mas para a maioria das pessoas isso não é importante. Suas vidas são vividas rápido demais. Muitas más influências. Sexo, política e assassinato são o caminho a percorrer se você quiser chamar a atenção das pessoas. Isso nos excita, esse é o nosso problema.
Little Richard era um grande cantor gospel. Mas acho que ele era visto como um estranho ou intruso no mundo do evangelho. Eles não o aceitaram lá. E, claro, o mundo do rock ‘n’ roll queria mantê-lo cantando “Good Golly, Mrs. Molly“. Portanto, sua música gospel não era aceita em nenhum dos dois mundos. Acho que a mesma coisa aconteceu com a irmã Rosetta Tharpe. Não consigo imaginar nenhum deles se preocupando muito com isso. Ambos são o que costumávamos chamar de pessoas de alto caráter. Genuíno, muito talentoso e que se conhecia, não foi influenciado por nada de fora. Little Richard, eu sei que era assim.

 

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O mítico músico Robert Johnson morreu aos 27 anos, e segundo reza a lenda “fez um pacto com o diabo” para aprender a tocar guitarra



Mas Robert Johnson também, ainda mais. Robert foi um dos gênios mais inventivos de todos os tempos. Mas ele provavelmente não tinha público para falar. Ele estava tão à frente de seu tempo que ainda não o alcançamos. Seu status hoje não poderia ser mais alto. No entanto, em sua época, suas canções devem ter confundido as pessoas. Isso apenas mostra que grandes pessoas seguem seu próprio caminho.

D.B.:
No álbum Tempest você apresenta “Roll on John” como um tributo a John Lennon. Há outra pessoas para a qual você gostaria de escrever uma balada?

B.D.:
Esse tipo de música para mim veio do nada, do nada. Nunca pretendo escrever nenhuma delas. Mas, ao dizer isso, existem certas figuras públicas que estão apenas em seu subconsciente por uma razão ou outra. Nenhuma dessas canções com nomes designados foi escrita intencionalmente. Eles simplesmente caem do espaço. Estou tão perplexo quanto qualquer outra pessoa quanto ao motivo de eu escrevê-los. A tradição folclórica tem uma longa história de canções sobre pessoas, no entanto. John Henry, Sr. Garfield, Roosevelt. Eu acho que estou apenas preso a essa tradição.


A transformação de Bob Dylan | Esquerda
Cantores de protesto folk, Joan Baez e Bob Dylan



D.B.:

Você homenageia muitos grandes artistas de gravação em suas canções. Sua menção a Don Henley e Glenn Frey em “Murder Most Foul” me surpreendeu um pouco. Quais músicas do Eagles você mais gosta?

B.D.:
New Kid in Town“, “Life in the Fast Lane“, “Pretty Maids All in a Row.” Essa pode ser uma das melhores músicas de todos os tempos.

D.B.:
Você também se refere a Art Pepper, Charlie Parker, Bud Powell, Thelonious Monk, Oscar Peterson e Stan Getz em “Murder Most Foul“. Como o jazz inspirou você enquanto compositor e poeta durante toda sua longa carreira? Há artistas de jazz que você tem escutado ultimamente?

B.D.:
Talvez as primeiras coisas de Miles na Capitol Records. Mas o que é jazz? Dixieland, bebop, fusion de alta velocidade? O que você chama de jazz? É Sonny Rollins? Eu gosto das coisas de calipso do Sonny, mas isso é jazz? Jo Stafford, Joni James, Kay Starr – acho que todos eram cantores de jazz. King Pleasure, essa é a minha ideia de cantor de jazz. Eu não sei, você pode colocar qualquer coisa nessa categoria. O jazz remonta aos loucos anos 20. Paul Whiteman foi considerado o rei do jazz. Tenho certeza de que se você perguntasse a Lester Young, ele não saberia do que você está falando.

Alguma dessas coisas já me inspirou? Bem, sim. Provavelmente muito. Ella Fitzgerald como cantora me inspira. Oscar Peterson como pianista, com certeza. Algo disso me inspirou como compositor? Sim, “Ruby, My Dear” de Monk. Essa música me colocou em alguma direção para fazer algo nesse sentido. Lembro-me de ouvir isso sem parar.


D.B.:

Qual papel a improvisação desempenha em sua música?

B.D.:
Nenhum mesmo. Não há como mudar a natureza de uma música depois de inventá-la. Você pode definir diferentes padrões de guitarra ou piano nas linhas estruturais e partir daí, mas isso não é improvisação. A improvisação deixa você aberto a desempenhos bons ou ruins e a ideia é manter a consistência. Você basicamente joga a mesma coisa vez após vez da maneira mais perfeita que pode.

D.B.:
I Contain Multitudes” é surpreendentemente autobiográfico em algumas partes. Os dois últimos versos exalam um estoicismo de não tomar prisioneiros, enquanto o resto da música é um confessionário bem-humorado. Você se divertiu lutando contra seus impulsos contraditórios e da natureza humana em geral?

B.D.:
Eu realmente não tive que lutar muito. É o tipo de coisa em que você acumula versos de fluxo de consciência e, em seguida, deixa de lado e vem puxar as coisas. Nessa música em particular, os últimos versos vieram primeiro. Então é aí que a música estava indo o tempo todo. Obviamente, o catalisador da música é a linha do título. É um daqueles em que você escreve por instinto. Meio que em estado de transe. Muitas das minhas canções recentes são assim. As letras são reais, tangíveis, não são metáforas. As canções parecem se conhecer e eles sabem que posso cantá-las, vocal e ritmicamente. Eles meio que se escrevem e contam comigo para cantá-los.

D.B.:
Mais uma vez nesta canção você nomeia um monte de gente. O que te fez decidir mencionar Anne Frank próxima a Indiana Jones?

B.D.:
A história dela significa demais. É profunda. E difícil de articular ou parafrasear, especialmente na cultura moderna. Todo mundo tem um período de atenção tão curto. Mas você está tirando o nome de Anne do contexto, ela faz parte de uma trilogia. Você também pode perguntar: “O que fez você decidir incluir Indiana Jones ou os Rolling Stones?” Os nomes em si não são solitários. É a combinação deles que resulta em algo mais do que suas partes singulares. Entrar em detalhes demais é irrelevante. A música é como uma pintura, você não pode ver tudo de uma vez se estiver muito perto. As peças individuais são apenas parte de um todo.
I Contain Multitudes” é mais como uma escrita de transe. Bem, não é mais como uma escrita transe, é uma escrita transe. É o que eu realmente sinto sobre as coisas. É minha identidade e não vou questioná-la, não estou em posição de fazê-lo. Cada linha tem um propósito particular. Em algum lugar do universo, esses três nomes devem ter pago um preço pelo que representam e estão unidos. E dificilmente posso explicar isso. Por que, onde ou como, mas esses são os fatos.

D.B.:
Mas, Indiana Jones foi um personagem fictício?

B.D.:
Sim, mas a pontuação de John Williams o trouxe à vida. Sem essa música, não teria sido muito um filme. É a música que dá vida ao Indy. Então essa talvez seja uma das razões pelas quais ele está na música. Eu não sei, todos os três nomes vieram de uma vez.


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D.B.:

Uma referência aos Rolling Stones o transforma em “I Contain Multitudes“. Apenas como uma brincadeira, quais músicas dos Stones você gostaria de ter escrito?

B.D.:
Oh, eu não sei, talvez “Angie“, “Ventilator Blues” e o que mais, deixe-me ver. Ah, sim, “Wild Horses“.

D.B.:
Charlie Sexton começou a tocar com você por alguns anos em 1999 e voltou a tocar em 2009. O que o torna um instrumentista tão especial? É como se vocês pudessem ler a mente um do outro.

B.D.:
No que diz respeito a Charlie, ele pode ler a mente de qualquer pessoa. Charlie, entretanto, cria canções e as canta também, e ele pode tocar guitarra para vencer a banda. Não há nenhuma das minhas músicas das quais Charlie não se sinta parte e ele sempre tocou muito bem comigo. “False Prophet” é apenas uma das três coisas estruturais de 12 barras neste registro. Charlie é bom em todas as músicas. Ele não é um guitarrista exibido, embora possa fazer isso se quiser. Ele é muito contido em sua forma de tocar, mas pode ser explosivo quando quer. É um estilo clássico de tocar. Escola muito velha. Ele habita uma canção em vez de atacá-la. Ele sempre fez isso comigo.

D.B.:
Como você passou os últimos meses abrigado em uma casa em Malibu? Você conseguiu soldar ou pintar?

B.D.:
Sim, um pouco.

 


D.B.:

Você consegue ser musicalmente criativo enquanto está em casa? Você toca piano e mexe as ferramentas em seu estúdio particular?

B.D.:
Faço isso principalmente em quartos de hotel. Um quarto de hotel é o mais próximo que chego de um estúdio particular.

D.B.:
Ter o Oceano Pacífico em seu quintal o ajuda a processar a pandemia de Covid-19 de maneira espiritual? Existe uma teoria chamada “mente azul” que acredita que viver perto da água é um curativo para a saúde.

B.D.:
Sim, posso acreditar nisso. “Cool Water”, “Many Rivers to Cross”, “How Deep Is the Ocean.” Eu ouço qualquer uma dessas músicas e é como uma espécie de cura. Não sei para quê, mas uma cura para algo que nem sei que tenho. Algum tipo de correção. É como uma coisa espiritual. A água é uma coisa espiritual. Nunca tinha ouvido falar de “mente azul” antes. Parece que pode ser algum tipo de música lenta de blues. Algo que Van Morrison escreveria. Talvez ele tenha, eu não sei.



D.B.:
É uma pena que apenas quando a peça “Girl From the North Country“, que apresenta sua música, estava recebendo ótimas críticas, a produção teve que ser encerrada por causa do Covid-19. Você já viu a peça ou assistiu ao vídeo dela?

B.D.:
Claro, eu vi e isso me afetou. Eu o via como um espectador anônimo, não como alguém que tinha algo a ver com isso. Eu apenas deixei acontecer. A peça me fez chorar no final. Eu nem sei dizer por quê. Quando a cortina desceu, fiquei atordoado. Eu realmente estava. Pena que a Broadway fechou porque eu queria vê-la novamente.

D.B.:
Você pensa nesta pandemia em termos quase bíblicos? Uma praga que varreu a terra?

B.D.:
Acho que é um precursor de algo mais que está por vir. É uma invasão com certeza, e é generalizada, mas bíblica? Você quer dizer algum tipo de sinal de alerta para as pessoas se arrependerem de seus erros? Isso implicaria que o mundo está pronto para algum tipo de punição divina. A arrogância extrema pode ter algumas penalidades desastrosas. Talvez estejamos na véspera da destruição. Existem várias maneiras de pensar sobre esse vírus. Eu acho que você apenas tem que deixar seguir seu curso.



D.B.:

De todas as suas composições, “When I Paint My Masterpiece” cresceu em mim ao longo dos anos. O que fez você trazê-lo de volta à vanguarda dos shows recentes?

B.D.:
Também cresceu em mim. Acho que essa música tem algo a ver com o mundo clássico, algo que está fora de alcance. Um lugar que você gostaria de estar além de sua experiência. Algo que é tão supremo e de primeira classe que você nunca poderia descer da montanha. Que você alcançou o impensável. Isso é o que a música tenta dizer, e você teria que colocar nesse contexto. Porém, ao dizer isso, mesmo que você pinte sua obra-prima, o que fará então? Bem, obviamente você tem que pintar outra obra-prima. Portanto, poderia se tornar uma espécie de ciclo sem fim, uma armadilha de algum tipo. A música não diz isso, no entanto.

D.B.:
Há alguns anos, vi você tocar uma versão de “Summer Days” que soa bluegrass. Você já pensou em gravar um álbum de bluegrass?

B.D.:
Eu nunca pensei sobre isso. A música Bluegrass é misteriosa e profundamente enraizada e você quase tem que nascer para tocá-la. Só porque você é um ótimo cantor, ou ótimo isso ou aquilo, não significa que você pode estar em uma banda de bluegrass. É quase como música clássica. É harmônico e meditativo, mas é para sangue. Se você já ouviu os Irmãos Osborne, então sabe o que quero dizer. É uma música implacável e você só pode esticar até agora. Músicas dos Beatles tocadas em estilo bluegrass não fazem sentido. É o repertório errado, e isso foi feito. Há elementos da música bluegrass com certeza no que toco, especialmente a intensidade e temas semelhantes. Mas eu não tenho voz de tenor agudo e não temos harmonia de três partes ou banjo consistente. Eu escuto muito Bill Monroe, mas eu mais ou menos me mantenho no que posso fazer melhor.

D.B.:
Como está sua saúde? Você parece estar em forma como um violino. Como você mantém a mente e o corpo trabalhando juntos em uníssono?

B.D.:
Oh, essa é a grande questão, não é? Como é que alguém faz isso? Sua mente e seu corpo andam de mãos dadas. Tem que haver algum tipo de acordo. Gosto de pensar na mente como espírito e no corpo como substância. Como você integra essas duas coisas, não tenho ideia. Eu apenas tento ir em uma linha reta e permanecer nela, permanecer no nível.


Você pode ter acesso ao link original aqui.

 

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