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O Vexame Histórico da Seleção Brasileira de Futebol

Tenho para mim que o filósofo e o intelectual realmente abertos a pensar sobre toda e qualquer questão que se apresente na vida possa se meter, claro, admitindo-se de partida que não é detentor de todo o saber cósmico existente, a discutir questões até consideradas triviais.

 
Por tal crença, resolvi meter o meu bedelho num assunto que não domino e que realmente nunca me obteve tanto muita atração. 
 
O assunto de hoje é futebol – essa paixão tão internacionalmente popular – e, mais especificamente, sobre a seleção brasileira. Essa mesma cuja camiseta verde e amarela vive aparecendo aqui e ali em meio protestos geralmente dominados por gente mais lunática do que consciente do que faz e diz.
 
Não é preciso ser um craque com a bola nos pés para emplacar algumas observações e críticas que visam à nobreza da boa disputa, a clareza de jogo e a ética da competição limpa.
 
Diante de nosso quadro descontrolado de quase 500 mil brasileiros mortos pela pandemia do Covid-19, a gigantesca maioria sendo de brasileiros comuns que em suas vidas provavelmente torceram pela seleção, e a iminência de se começar a Copa América que, depois da Argentina e da Colômbia recusarem-se a sediar oficialmente pelos motivos óbvios da escalada da pandemia nestes lugares (além de questões políticas na Colômbia), por insistência autoritária do Presidente negacionista ela acontecerá por estes lados, a Seleção Brasileira e a CBF perderam a oportunidade única de marcar uma goleada histórica. 


BOLSONA QUER A SELEÇÃO PARA SEU JOGO EM 2022 – VISÃO PLURAL
 

A urgência em se realizar um torneio dessa envergadura num dos países que mais tem aumentado o número de casos e óbitos e cujo descaso cruel com a população já se tornou objeto de análise e ojeriza internacional não é apenas desastrosa e insensível, como também é truculenta e vexatória. Expor tantos os jogadores daqui e de fora quanto suas comissões técnicas, os torcedores, comerciantes e toda uma cadeia econômica que se mobiliza em torno das partidas é de uma irresponsabilidade monstruosa sem antecedentes históricos.
 
Mas, estamos, mais uma vez falando de uma estrutura. Uma estrutura que movimenta muita, muita grana e que, nesse processo, transforma cada ator – como jogadores, massagistas, preparadores físicos, técnicos, etc – em apenas mais uma marionete, uma peça movida num tabuleiro conforme o combinado – como cantou Bob Dylan only a pawn in their game. (Muito diferente de outras estruturas precárias e quase abandonadas em que muitas vezes os próprios jogadores não tem sequer técnico ou estão sem receber salários há meses.)
 
Como toda carreira e profissão lucrativa em nossa sociedade, os jogadores de futebol são seduzidos pelas benesses da participação ativa no Espetáculo que se tornou essa sociedade de consumo, de aparências e de “celebridades” com tanto poder de influência sobre outros.  
 
Podemos, claro, avaliar casos e casos, e boa parte dos jogadores e artilheiros que se destacam acabam vindo – com exceções, é claro – de comunidades carentes, favelas e das partidas de futebol de várzea. Ali onde vivem à margem do Estado democrático de direito e sentem no corpo-a-corpo cotidiano os estigmas da violência, eles sonham em um dia serem reconhecidos e participarem desta sociedade como ídolos que, antes deles, “conseguiram”, salvaram a si mesmos e suas famílias de uma vida opressiva de pobrezas.

 
Tite e jogadores viram “comunistas” em memes sobre boicote à Copa América |  Poder360
As redes bolsonaristas estão fazendo circular esse meme classificando o técnico Tite como “comunista” por se posicionar, quando o fazia, ao menos, contra Bolsonaro – a típica práxis bolsonarista
 

Não é particularmente culpa deles que a sociedade os empurre a, quando entram na grande roda e são estimulados, tornar-se, por sua vez, ídolos que reproduzem e se espelhem no vazio narcisista e consumista de uma cultura frenética e competitiva sustentada por tal sociedade. E sim, é bem verdade que as festas, a companhia de gente “importante” e “reconhecida”, as possibilidades afetivas que tal status possibilita – muito embora grande parte superficiais, não nos enganemos – podem ser coisas interessantes (e muitas vezes acabam sendo motivo de certas invejas, sabemos como são as coisas).
 
Mas, uma vez estando lá – com basicamente todas as portas escancaradas diante de si e todo o mundo agora ao alcance – por que não buscar por algo mais substancioso e formador, como um fundamento mais sólido, que nem o tempo e nem o prazo de validade da carreira irão tirar de si?
 
E dentre isso, talvez buscar melhores formações e capacitações para a cidadania, alimento para o cérebro e para oxigenar a vida social, e se tornar algo maior do que uma mera marionete que joga para o aplauso dos patrocinadores e da audiência. 
 
Imagine só a audiência que tem um desses seres humanos que ganham muito dinheiro driblando outros – resulte isso em gol ou não! (Infelizmente a maior parte acaba aprendendo a driblar fora de campos também: seja por sonegação de impostos ou tentando abafar casos escandalosos de doping, assédio sexual, estupro ou o que seja. – E os maiores “craques” nessa jogada já sabemos quem são… sim, esses mesmos que geralmente estão circulando por aí usando gravatas, ternos, sapatos lustrados e atendendo por pronomes de tratamento…)




E não apenas isso – a quantidade de crianças, de garotos e jovens que se espelham em tais “ídolos” como eles mesmo se espelharem em seus ídolos no passado, quando ainda eram moleques sujos brincando com a bola. Eles perdem de vista o quão as suas atitudes também fora de campo acabam influenciando e “formando” uma mentalidade cada vez mais materialista, umbiguista e sem solidariedade social. Tomem o exemplo de Neymar, jogador badalado e riquíssimo, mas que age como uma criança mimada e birrenta em seu exibicionismo fora de campo. Que isso não soe, por favor, piegas ou moralista, mas que exemplo e que mensagem isso para as crianças que se espelham nele como “homem” ou “ídolo” do futebol? 
 
Que os “fãs” não me interpretem mal, mas a distância entre um Sócrates (o jogador, se bem que poderia ser o filósofo também, mas daí seria humilhar demais o “coitado”) e um Neymar é extragaláctica. Walter Casagrande, outro grande jogador de outrora que acabou se tornando também um comentador esportivo relevante, se posiciona e fala com conhecimento de causa. Em uma magnífica coluna que batizou “A covardia é geral” – bem como em suas aparições em canais de televisão para fazer comentários – Casão não poupou nada, nem a si mesmo ao confessar ter sido ingênuo “em acreditar que os jogadores fossem realmente tomar uma atitude histórica de empatia ao nosso povo“.
 
Abro citação, longa é verdade, mas vale a pena demais ler o que esse homem escreveu: 
 

O Brasil é um país governado por covardes que veem as pessoas morrendo, mas andam de moto e não compram vacinas. Destroem a Amazônia com a intenção de dizimar os povos indígenas e quilombolas.

No futebol, é a mesma coisa. Todos os dirigentes se calaram diante de uma acusação de assédio moral e sexual contra o Rogério Caboclo, presidente afastado da CBF. Para eles, é mais importante ajudar o acusado do que ser solidário a quem sofreu o assédio.

O que os bolsonaristas, e incluo os filhos do presidente, estão fazendo com o Tite é mais um ato covarde. O técnico nunca se manifestou politicamente. Acusá-lo de ser comunista porque pode ser contra a Copa América no Brasil é desonesto.

A atitude dos jogadores de decidirem jogar a Copa América é mais um ato covarde. Mostra que os atletas não estavam preocupados com a grave situação sanitária do país e, sim, com eles mesmos.

   
Falou bem demais, Casagrande. Máximo respeito!

 
Casagrande chama jogadores de covardes por jogar Copa América; veja  repercussão
Walter Casagrande tem demonstrado um excelente serviço em se expressar como tem se expressado. Fez o dever de casa, hein!
 
Mais adiante em seu texto Casagrande reconhece, não sem lamentar, imagino: “Essa é a geração de jogadores de futebol mais alienada que eu já vi desde anos de 1980. O importante para eles é estar nas redes sociais, mostrando suas mansões, seus carros…
 
Estamos no ápice escarrado da sociedade espetacular, como já previa Guy Debord em 1967, espetáculo esse que é a escultura perfeita dessa alienação (e da que antes falaram os filósofos Hegel e Marx) de que fala Casagrande, que nos separa de nossos pares, que nos desarticula de uma vida política ativa e sadia, que nos dispersam como fragmentos acumuladores de coisas e momentos mortos numa vida que apenas nos leva sem nossa decisão atenta minuciosa e aberta a novas escolhas e destinos outros.
 
Com um palco imenso disponível para si e vozes capazes de chegar a tantos ouvidos os jogadores preferiram jogar tudo pra baixo do tapete, inclusive o recente escândalo moral e sexual envolvendo o cartola Rogério Caboclo. Num país machista e furiosamente misógino que idolatra e contrata um goleiro que matou a namorada grávida e deu para seus cachorros comerem e que permite que sexistas e assediadores ganhem rios de dinheiro, esse silêncio diz muito. 
 
A seleção tinha – e ainda têm, se na Hora H e no Dia D optarem por realmente “surpreender” – a chance de ouro de mudar a história e dar um exemplo positivo para o mundo e para os seus torcedores, principalmente aqueles que olham para eles como os “ídolos” que eles um dia olharam e achavam que eram deuses no campo. No fundo, claro, eram apenas homens, com algum talento e um pouco de sorte. 
 
Ao invés da Recusa, os jogadores se pronunciaram com um “Manifesto” que é, na verdade, a coleção mais infeliz de frases que dizem nada e omitem tudo. É um dos “Manifestos” mais vazios que li na vi na vida – e olhe que eu li vários e escrevi outros tantos!
 
Lá não se ataca nada, nem ninguém (exceto a Conmebol, uma vez que não teria grandes consequências), o puro exibicionismo de uma revolta sem objeto – quando na realidade possuímos TODOS os motivos legítimos para estarmos revoltados num país cujas quase 500.000 mortes pandêmicas poderiam ter óbitos muito menores se aquele que ocupa a Presidência da República e o seu “Ministro” da Saúde não tivessem preferido contar piadas para o Amado Batista ou perder tempo fazendo lobby de um medicamento ineficaz deixando de lado 53 e-mails não respondidos enviados pela Pfizer com propostas de compra de vacinas , por exemplo.
 
Cheio de medos e de desvios de foco, o tal “manifesto”, fraco e tão bitolado quanto o mais sedento dos bolsonaristas, sequer menciona “pandemia” em seu texto ou mesmo apresenta qualquer comentário de apoio psicológico e moral às vítimas das perseguições sexuais que tem suas vidas estragadas por homens poderosos. 
 
Faço eco ao Casão, a seleção, num dos piores momentos de nossa história política atual não percebe que não foi a esquerda que “politizou” esse debate.
 
Foi a direita e o próprio governo – especificamente Jair Bolsonaro – que, acuado, precisa de algo um grande aparato espetacular para desviar o foco de sua irresponsabilidade programada que está levando ao morticínio geral que está se desvelando por meio da CPI do Covid-19. Essa insistência em “não discutir política” nesse momento só tem favorecido – como sempre – o lado fascista que oportunamente se alimenta e fortalece com a desmobilização e a transformação de agentes políticos em espectadores passivos de um pesadelo sem fim. Quanto menos se discute mais eles se entranham e se tornam mais firmados no terreno.
 
Veja os memes: Internet não perdoa e satiriza os mergulhos de Neymar -  Mundial 2018 - SAPO Desporto
 

Agora com a diferença de que vestir verde e amarelo pode lhes dar a ilusão de alguma “vitória” – e não a de que esses símbolos já fazem parte de uma ficção narrada pela produtora Brasil Paralelo. A vitória que, no entanto, merecemos é a vacinação completa para toda a população e a deposição deste governo genocida que a cada dia nos cansa com seu inferno infindo e show de horrores. 
 
Isso sem falar que sequer apresentam qualquer lamentação pelos falecimentos que poderiam ter sido evitados se a compra e a campanha da vacinação tivesse sido encampada logo no início. Mas, enfim, como a maioria deles precisa mesmo trocar os carrões, reformar ou comprar novas mansões e carrões e fazer festas “secretas” para centenas de convidados, então eles que joguem…

(e o povo que morra!)
 
… em um gramado que esconde os cadáveres passados e futuros que essa competição – com a chegada de tanta gente vindo de outros lugares das Américas em meio à chegada, olha que maravilha!, da terceira onda quando mal atravessamos a segunda, com todas as cepas que já “evoluíram” do estágio inicial da contaminação – certamente ajudará a fazer proliferar.
 
De “heróis” nossos jogadores – e todas as delegações envolvidas – consentiram em se transformar em novos colaboradores do vírus e da pandemia.
 

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