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O hipnótico som do desgaste em “VHS” de Kiko Dinucci

 

Se em determinada altura o cantor e compositor Caetano Veloso teria dito de forma pretensamente profética que o futuro da música estaria destinado à remixagem devido ao esgotamento harmônico das possibilidades da música ocidental e que tudo tenderia a se repetir com pequenas alterações, parece-me que o noise e experimentação anti-artística (que no fundo torna-se ela também artística) reserva boa parte do segredo do que poderá ser.

É o que nos conta o mais novo álbum lançado pelo cantor, compositor e produtor Kiko Dinucci. O nome desse primoroso trabalho primitivo, kármico e mântrico? “VHS” (2021) lançado pelo QTV Selo.


(Caberia aqui um parênteses super-rápido, principalmente para os leitores deste blog das gerações mais novas: VHS é a sigla usada para Video Home System, e diz respeito à tecnologia de gravação e reprodução de vídeo que se tornou popular nas décadas de 80 e 90, antes da internet e dos smartphones com câmera incluída. Para gravar e reproduzir imagens – se não por câmeras que já utilizassem esse tipo de fita de gravação – seria preciso possuir um videocassete no qual se colocava a fita e se preparava o ponto onde seria gravado. Esse mero escritor foi um fã e colecionador de fitas e adorava rever clipes, shows e entrevistas nessa mídia…)


Peraí… Não seria um EP? 

QTV053 – VHS | Kiko Dinucci | QTV Label
A capa do álbum “VHS” é de autoria de Lucas Pires. “Kiko desenhou a capa e devolveu a imagem para a matéria orgânica. Mas se Kiko não tivesse fechado o buraco com durex não teria conseguido gravar e a capa seria outra.”

 

Não, nos diz Kiko em suas contas nas redes sociais: “não é single”, “é um álbum de faixa única de 20 minutos”. 

O trabalho consiste numa experimentação noisística que parece transformar o estúdio – talvez o seu próprio, caseiro – num laboratório ou marcenaria íntima em que diversos objetos de recursos e dispositivos analógicos são tocados e “desgastados” para extrair possibilidades timbrísticas. 

Quase como uma colagem sonora, só que motivada por um ritmo contínuo e frenético que coloca o ouvinte num estado de transe. Ou uma exumação tecnológica de algo que marcou época por outro uso – audiovisual – ficando agora renovada pela marca de uma audibilidade questionada e retrabalhada à exaustão alquímica.

Kiko, que já demonstrou o seu valor enquanto compositor sério que atravessa gêneros diversos à frente de projetos e ao lado de parceiros e parceiras como Juçara Marçal, metá metá, e os pastiches magô do Bando Afromacarrônico, além de ter assinado os arranjos e as guitarras em álbuns premiados e que já serão considerados futuros clássicos como “A Mulher do Fim do Mundo” e “Deus é Mulher” da grandiosa cantora Elza Soares, demonstra aqui a sua ousadia de criar música a partir de meios não propriamente musicais misturados com instrumentos reais. 

 

 

Referências boas e um currículo de deixar boquiaberto até o cultor musical mais desavisado, concordam?

Esse paulistano Kiko Dinucci, nascido em Guarulhos, que vai do punk, do noise ao samba com violão de sete cordas e pegada de terreiro em uma brincadeira de gira com Exús e erês, nos leva numa exploração percussiva que constrói e degrada linhas harmônicas pela força com que os dispositivos analógicos manipulados nesta experiência (anti)musical registrada. 

Segundo nos diz sua conta oficial no YouTube, “VHS” surge a partir da performance Contraseña por Kiko Dinucci e Fernando Velasquez para o Festival Música Estranha (SP, 2021). Você pode ver algo a respeito aqui abaixo.

 


Com a aceleração da modernidade e a contínua evolução tecnológica gerando altos níveis de obsolescência e desperdício dos meios e instrumentos que antes sustentavam a ordem eletrônica daquele mundo em declínio, o artista Kiko em parceria com Fernando Velasquez aparece manipulando ritmicamente e melodicamente violões preparados, além de “
dedeira, madeira, cordas, delay, fita magnética: ferro sobre ferro, madeira e ferro, elementos químicos extremamente suscetíveis à passagem do tempo. Som mecânico, delay curto, espetado no médio grave.” 

O rastro de nossa civilização vai deixando muitos objetos em um lixão acumulado de antigos futuros que agora são parte de um paleolitismo psíquico futurista, de uma paisagem apocalíptica em que as coisas determinam a etapa evolutiva da sociedade e da cultura. É aqui que Kiko vem resgatar e reformular a sua estética musical neste trabalho singular em sua discografia.

Nos diz ainda o artista: “O VHS deteriora os agudos, deteriora os graves, torna tudo mais opaco. Como na imagem, que vai desbotando por conta do processo físico-químico: desgaste. Esse eu vi na cinemateca já uns 20 anos. Filme Inglês do Bressane, com o Guará, memórias… Da pra sacar uma estragada. Placebo VHS. Vou passar esses 20 mim de violão na fita VHS. A mesma é mesma coisa que acontece com a imagem, acontece com os sons. O HISSING — um assobio nos gramados de verão — remete a um horizonte tingido por anilina e óxido de ferro — o velho chá das 5. A compressão do VHS, que chapa o som, os médios mais chapados. Deterioração da matéria. Mídia véia, muito chiado…


Aqui, ao invés de contorcer suas guitarras para extrair os timbres sonicyouthianos tão característico de outros trabalhos como, um dos meus favoritos,
Cortes Curtos (2017) ou os violões badenpowellianos de raiz sambística-umbandista que aparece na musicalidade apimentada de Rastilho (2020), encontramos Kiko levando ao desgaste em remixagens tão planejadas quanto espontâneas os ruídos rituais das coisas em destruição. 

Uma expressão que de tão espontânea e natural não produz “erros”, abrem portais sonoros em que as notas se chocam e geram pequenos glitchs auditivos e arrepios musicais sinestésicos induzidos.

 A materialidade dos equipamentos revelando o verdadeiro segredo por trás das possibilidades anti-rítmicas e anti-melódicas. Como o barulho de uma fita de máquina de rebobinar VHS sendo imolada e torturada por instrumentos de metal e uso de química para deteriorar materiais, tudo isso acompanhado e inspecionado por microfones de contato e outras possibilidades acústicas.

Ou seja, imperdível! Se tiver um bom fone de ouvido não o dispensaria para atravessar essa experiência que não é apenas acústica, mas altamente sensorial.

Kiko Dinucci explora outras possibilidades sonoras do violão - Rede Brasil  Atual


Principalmente para quem ama a subversão sonora e busca o não-convencional em afinações e harmônicos improváveis retirados de encontros ao acaso que lembra uma espécie de encontro mágico de elementos díspares numa mesa de cirurgia como propusera o surrealismo de André Breton e já antevista em Conde de Lautréamont. Para mim, beira o orgásmico.

Kiko, que já vem sido acusado positivamente de “renovar o samba”, apesar de ter depositado seus detritos originários no punk ali pelos anos 90 e ter flertado com a radicalidade hardcore, poderá ser brevemente acusado de ter recuperado o valor irresgatável do noise.

E se for, que seja. John Cage daria um risinho búdico de entendimento e ironia. Tá valendo.


Não posso deixar de lembrar que Kiko Dinucci também escreve e pensa, de maneira clara e desafiadora. A obra clássica  “
O que é o Punk?” do escritor beat-contracultural Antônio Bivar (que infelizmente a Covid-19 levou no ano passado – Rest In Peace, querido!) que tinha saído pela Brasiliense na famosa coleção Primeiros Passos, ganhou reedição pela Editora Barbatana em 2018 e teve em Kiko Dinucci seu prefaciador. 

Logo abaixo escutem os sons do Kiko em “VHS” e outras recomendações que dele fazemos.

Aumenta o som aí!

Destravem as orelhas, pois o bom & moderno noise voltou… é quase como uma mini-ópera de um mundo em declínio que por isso mesmo guarda na degradação programada a pérola sutil de sua eternidade.

 

 

 

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