(83) 8692-5991 / (11) 9.9906-0896 — [email protected]

O tesouro fugidio de Belchior e a controversa saga do artista

 

O que é que pode fazer um homem comum neste instante senão sangrar?”

 

Na noite do dia 30 de agosto de 2009 o Brasil se deparou com uma notícia eletrizante. 

Em reportagem que saiu no Fantástico – um dos programas de maior audiência televisiva nos domingos na Rede Globo – o desaparecimento de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (como costumava apresentar em forma de zuera, o “o maior nome da música popular brasileira”), vulgo Belchior, foi noticiado de maneira sensacionalista no modelo de jornalismo investigativo policialesco.

A verdade, porém, é que esse “sumiço” que chegou a se tornar debate e se transformou numa busca que mobilizou o país já estava acontecendo há cerca de dois anos. É do ano de 2007 a constatação por parte de sua família do último contato feito pelo cantor, compositor e artista plástico cearense.

E as perguntas mais feitas eram: do que/de quem fugia Belchior? Como um homem tão ordeiro e assertivo em suas coisas se tornou um recluso fugitivo? Que problemas tinha? Era de saúde? De família? Sentia o peso de alguma vergonha? Tinha medo da Justiça? Ou tudo não passaria de um “golpe publicitário”?

Os 70 anos de Belchior. Sem direito a comemoração | VEJA

Belchior: ano passado eu não morro | Farofafá
Em épocas políticas conturbadas, com o sumiço de Belchior a internet começou a fazer uma campanha pelo retorno do artista. Uma marca de carro inclusive chegou a oferecer ao cantor uma soma astronômica para que ele fizesse a propagando de um de seus produtos. Sua fala no comercial seria algo do tipo: “Com o carro X até eu voltaria”. Belchior teria se sentido ainda mais deprimido com a coisa toda. É compreensível.


É verdade também que o próprio Belchior já era experiente em “evasões”.

Chegou a cogitar tornar-se seminarista, mas abandonou o seminário – levando de lá o canto gregoriano, a rígida musculatura da imersão reflexiva e da reclusão silenciosa, a simplicidade e capacidade de viver bem de maneira modesta e franciscana, além do aprendizado do italiano, do latim e o gosto pela poesia do italiano Dante Alighieri, que estaria traduzindo “numa linguagem mais popular” em seus últimos anos de recolhimento e desaparecimento público. 

Também não mediu esforços em abandonar em Fortaleza o curso de Medicina – um símbolo de prestígio e visto como meio de ascensão social, principalmente em se tratando de famílias sem recursos – no quarto ano para seguir o sonho da carreira musical na cidade grande, primeiramente no Rio de Janeiro e depois na Grande São Paulo. 

É possível imaginar a sua família desesperada com essa “loucura” de trocar algo com retorno “certo” como a carreira médica pela duvidosa aposta de sucesso de um migrante cantador nordestino na cidade grande.

Todavia, a música já estava enfurnada na alma daquele menino que se arrepiava escutando os cantadores e emboladores na cidade de Sobral, adorava escutar a rádio dos vizinhos e se encantava com o som do sax e do violino tocado por seu avô. Aquele menino que já cedo começou a escrever suas próprias rimas e canções e a se apresentar em pequenos concursos escolares e em teatros de baixa lotação nos rincões do nordeste brasileiro.


Astro pouco convencional, Belchior fez música brasileira folk como nunca  tinha sido ouvida antes · Rolling Stone


Apesar de ter visto os filmes de Hollywood o “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” sabia que viver não é apenas melhor que sonhar, e que é um ofício é tão difícil quanto rolar pedras infinitas ao cume de nossa própria ignorância. A despeito disso, sabendo de todos os empecilhos, ele foi lá e fez! 

Enquanto morava numa casa de um amigo que estava sendo reformada – ao lado de trabalhadores comuns da construção civil – Belchior teve a oportunidade de apresentar suas canções para a já nacionalmente reconhecida cantora Elis Regina. Gravou numa fita K7 as 10 canções que seriam lançados em 1976 em seu segundo LP, o já clássico “Alucinação” e entregou-lhe nas mãos de Elis que àquela altura estava em busca de colocar em seu repertório canções de compositores da nova safra da música brasileira. Ao escutá-las, Elis,  maravilhada com a poesia e a melodia deste inovador, escolheu gravar e apresentar “Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais”.

Músicas que entraram no repertório do seu álbum Falso Brilhante, de 1976.

O que veio depois, já sabemos.

 

***

E a única forma que pode ser norma
É nenhuma regra ter
É nunca fazer nada que o mestre mandar
Sempre desobedecer
Nunca reverenciar


Alucinação': canções do 2ª álbum de Belchior inspiram documentário


Meu objetivo neste escrito passa bem longe de pretender dissecar a extensa obra belchioriana em seus 15 álbuns de estúdio + algumas dezenas de parcerias, coletâneas e álbuns ao vivo. Para tal já existem pessoas estudando e publicando trabalhos bem bacanas dentro e fora da academia.

Já é sabido como o nome de Belchior voltou a ser assunto no meio midiático e como o tal “mistério” do seu “desaparecimento” acabou se tornando obsessivamente explorado. 

Enquanto boa parte dos cantores e compositores da geração anterior e mesmo da sua buscaram, por sua vez, compor e fazer parte de um establishment artístico com seu star system e suas referências obrigatórias, Belchior, que sempre cantou a desventura, ás vezes irônica e romântica, de se rebelar profundamente contra tudo, viveu e morreu efetivamente na contramão. (“Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso / Nada é sagrado, nada, nada é misterioso” – cantou em Apenas um Rapaz Latino-Americano, dando irônicas tapas com luva de pelica na cara de Caetano Veloso.)

Sabia que tinha atingido o “lá” de que se fala quem se sonha com uma carreira artística, mas nunca chegou a se conformar e agir como um “deus” como a grande maioria esnobe dos ídolos agem, sempre mimados e cheios de exigências e regalias. Embora um culto articulador do idioma português nunca se passou por arrogante ou metido.

A sua simplicidade e gentileza no trato com os outros, e até um pouco de timidez, parecem revelar certo nível de “desconforto”, muito embora é bem certo que ele tenha usufruído bem da posição alcançada.  Inclusive como “sex symbol”, com o seu olhar 43 afiado sobre o bigodão e aquele nariz… ah, aquele nariz!

 

Entrevista de Belchior ao jornal O Pasquim – 1982: “Mesmo nas democracias,  existe excesso de poder”


Não, ele não estava interessado em nenhuma teoria, nem em nenhuma fantasia ou em algo mais. Não queria mastigar o conhecimento superior e cuspir nos ouvidos da gente prosaica. Todos aqueles romances astrais e misticismos, as cores alegres da psicodelia que a tropicália havia adotado do movimento contracultural estrangeiro acabaria se tornando mais um nicho exploratório no grande mercado da indústria cultural. Acabaria se tornando mais uma forma fetichizada de dominação pelo espetáculo da vida cotidiana. E ele sabia bem disso.

A alucinação com as coisas reais e verdadeiras, com todos os problemas sociais, econômicos e dívidas históricas, é algo ainda mais profundo. E para isso não basta querer o que a cabeça pensa, mas sim e profundamente o que a alma deseja.

Nos anos 70 Belchior começou a estruturar o seu “mito”, a sua “saga” artística e pessoal. Dividiu a década com outros grandes nomes, principalmente com o Pessoal do Ceará, movimento onde junto a Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Cirino e tantos outros começou a fazer suas primeiras experimentações mais elaboradas.

Atravessou o confuso e colorido anos 80 do rock nacional ganhando as rádios com alguns trabalhos que o mantiveram ali, mas nada que chegasse a ofuscar os trabalhos iniciais. Os anos 90 não parecem ter sido tão inovadores nesse mesmo sentido.

Seu último trabalho de canções autorais é “Baihuno” de 1993, no qual a pesquisadora da USP Josely Teixeira Carlos (autora de teses sobre Belchior) afirma que ele fez “um sumário das ideias que apresentou ao longo da carreira, de rapaz latino-americano, ‘baiano’ (uma referência a como os nordestinos são chamados em São Paulo) e ‘huno’ (o povo bárbaro da Ásia Central que migrou para a Europa nos séculos IV e V em busca de novos pastos)”.


***

 

“Amar e mudar as coisas me interessa mais.”

 

Seu cancioneiro capaz de articular rimas singulares e prosódia urbana, imagens e referências que passam pela regionalidade e alcançam os signos da cultura pop, já radicalizava muito do tal modernismo brasileiro e da tropicália – que também eram suas referências. Destaco, porém, a influência da poesia e dos poetas – na formulação de seu ponto de vista e de suas vivências.

Em entrevista para o MPB Especial da TV Cultura de 02/10/1974, Belchior diz que “veio da poesia para a música, (…) através de um sentimento poético, de um sentimento lírico” e que “sabia muito Rimbaud, Baudelaire, essa coisa toda.” 


No final dessa entrevista, depois de interpretar A Palo Seco (canção que depois voltou a ser redescoberta para novos públicos a partir de uma interpretação feita pela banda Los Hermanos nos anos 2000) e improvisar tocando garrafas, um Belchior jovem, lúcido e com sangue nos olhos, faz a seguinte declaração que merece nota:

A nova geração de compositores está aberta a polemizar. (…) Não estou interessado no passado. O resto é material de discussão, é tradição. Então, eu tô interessado numa linguagem nova na música popular brasileira. Novas palavras, novos signos, novos símbolos. Quer dizer: a música popular brasileira precisa se desprovincianizar. E precisa perder o medo dos ídolos. Nós não estamos interessados em idolatria, em mitologia. Todos os mitos são iguais aos sabonetes, iguais aos pacotes de açúcar, iguais aos pacotes de macarrão e às frutas de supermercado. Pra quê esconder esse papo? Pra quê ficar cultuando o pessoal?   “

Ele anseia por desenrolar o carretel da linguagem até onde dá, desafinar o coro dos contentes – junto ao saudoso Torquato Neto, poeta porreta! – e fazer frente contra o que permanece no meio do caminho dos experimentadores.  “Não me peça que eu me faça uma canção como se deve / correta, branca, suave, muita limpa, muito leve / sons, palavras são navalhas.”


***



Sempre é dia de ironia em nossos corações.

Na maior parte das matérias a que tive acesso enquanto levantava dados para produzir essa escrita, uma coisa me causou tremendo incômodo.

O papel que alguns amigos, críticos e familiares têm tecido para Edna Prometheu (nome adotado por Edna Assunção de Araújo), a artista e produtora que se aproximou de Belchior para organizar exposições e que, no final das contas, acabou se envolvendo com ele. 

Ora, Belchior já estava casado há algumas décadas e no meio de seu casamento já tinha tido dois filhos fora do casamento. A despeito disso, sua família nuclear continuou sólida até o envolvimento cada vez mais crescente entre Edna e Belchior e que levou a uma ruptura sem volta.

Teria sido ela então a “responsável” pelo rompimento dos laços familiares que levaram Belchior às suas fugas posteriores que duraram 10 anos até a sua morte.

Saiba por onde Belchior passou depois que deixou a família e sumiu dos  palcos - 21/01/2021 - Ilustrada - Folha
Belchior, uma das suas muitas anfitriãs dos dez últimos anos de “fuga” e “exílio” e Edna Prometheu.


O comportamento “errático”, nômade e “irresponsável” do casal havia sido escrutinado pela mídia numa mescla de novela jornalística investigativa – com Belchior correndo da Justiça por conta das pensões atrasadas e acumuladas e outros processos – e a crônica dos costumes, delegando à Edna o papel de “vilã” no filão batida e estruturado pela sociedade patriarcal e machista de que ela o havia “desencaminhado” Belchior como Eva tentando Adão ou destruído seu casamento no melhor estilo daquilo que Yoko Ono teria feito com o casal Lennon-Cynthia Powell. (Esse último exemplo até parece “apetecer” um pouco à própria mitologia pessoal de Belchior, admirador inconfesso do ex-Beatle.) Querem dizer que Belchior era manipulado e nunca questionava a palavra de Edna.

Essa demonização da mulher é um tema muito espinhoso e delicado.  Não consigo ler algo tais matérias sem suspeitar do fundo das intenções de quem trata e reduz as coisas a esses termos.  É de uma ingenuidade calculada, diria.

Pensar que um homem maduro e inteligente como Belchior tivesse se tornado “vítima” de uma oportunista, que tivesse se deixado dominar por uma mulher “sem atrativos” (é de ficar puto como até a aparência da Edna é colocada em juízo no meio da coisa toda). Ou, sei lá, talvez o ingênuo seja eu mesmo. Só os envolvidos na coisa sabem.

Comenta-se também que na dinâmica do casal, Belchior tinha a tendência mais benevolente de dizer “sim” enquanto à Edna ficaria incumbido o papel de dizer “não” e assim “castrar” a esperança dos presentes e anfitriões de ter o gostinho de algo ali em primeira mão, seja uma palinha seja a apresentação inédita de canção de sua nova safra. E assim acabou sendo vista como “dominadora” e “ciumenta”, muito embora o que existisse era provavelmente um acordo entre eles.

Pelo pouco que pude saber Edna parece ser uma mulher que alimenta um espírito utópico, de uma linha de pensamento próximo da extrema-esquerda, de valores não-materialistas e voltados ao desapego. Seria isso uma verdade ou uma especulação? Não sei dizer, pois não a conheço. E que com ela ele teria juntado a sua própria utopia de coração selvagem, ele que já tinha morrido tantas vezes no ano passado, ele que andava mesmo descontente e que fez do seu canto torto faca para cortar a carne da gente.

Relação de Edna com Belchior tinha "algo de incompreensível", diz médico  que conviveu com o casal | GZH


É, queridos, o dinheiro é cruel e vento forte leva os amigos para longe das conversas, mas também impele os exploradores e aventureiros a seguir adiante. Sempre costumo associar esse impulso de “desaparecimento” de Belchior ao tão discutido e misterioso silêncio de Rimbaud, aquele mesmo poeta que ele dissera em 1974 que conhecia tão bem.

Parece que ele tinha queixas que ultrapassava os limites do dizível, creio. Como seu último álbum de inéditas havia sido lançado no finalzinho do século XX ele parecia estar saturado de mimetizar a si mesmo para se manter no jogo, apesar mesmo da aura de “lenda” já conquistada. Desde então sem “inéditas” ou algo que fizesse chocar e estremecer a indústria da música.

Se você não tem mais a potência para mudar algo – da forma que se deseja, ao menos – melhor então se calar, pode ter pensado? Se não tenho mais algo relevante ou tão estrondoso a ser dito, se já o disse tantas vezes e de tantas formas em suas canções e trabalhos precedentes, teria algo ainda a revelar aos sequiosos ouvidos empanturrados de tantas “novidades” tão velhas e de velharias tão novas?

Por isso mesmo creio que aquele Belchior de 1974 que disse que os “mitos” são como sabonetes e pacotes de macarrão numa prateleira, ele mesmo não queria ver-se repetindo a mesma fábula da obediência mercantil e da submissão ao dinheiro. Ele preferiu fazer seu destino com o suor das próprias mãos – e não “jogar para o público” -, pegou o que pôde e partiu. E abandonou coisas – um chapéu, roupas, desenhos, um violão emprestado – ao longo do caminho.

Esposa não deixava Belchior sair de casa, revela radialista - Revista Cifras
Belchior durante sua última entrevista concedida a Rede Globo. O casal dizia-se perseguido pela emissora e diz ter sofrido ameaças de morte (?). Um prato cheio para as conspirações.


Alguns amigos andavam dizendo que ele estava muito mais ligado em se desenvolver como artista plástico e visual e fazer tradução de poesia, ou mesmo escrevê-las.

Daqueles que o hospedaram – desde fãs, um certo professor de filosofia que lhe permitiu ficar em sua casa e depois em uma granja sua, a até uma ecovila em Linha Ficht ou mesmo um mosteiro, incluindo também funcionários de hotéis no sul e no Uruguai, onde o rapaz latino-americano sem dinheiro no banco se autoexilou – a grande maioria falou que não o viu tocando violão sequer uma vez, cantando suas canções e se apresentando. (A exceção foi uma pequena apresentação arranjada para as irmãs beneditinas no Mosteiro da Santíssima Trindade, numa montanha perto de Santa Cruz do Sul. E podemos imaginar aí Belchior retomar um pouco o gosto do que ele próprio havia abandonado há muitas décadas antes.) 

(Dado importante: muito embora tenha gravado um DVD em 2011 com o pianista João Tavares Filho – e que continua sem chegar a público até a data em que escrevo esse texto).

O desprendimento ao fluxo do casal era tão extremo que os dois chegaram inclusive a dormir embaixo de uma ponte e em uma hospedaria abandonada. (O que me faz pensar novamente em Rimbaud, sim, é claro… “Dormiremos nas calçadas de cidades desconhecidas, sem cuidados, sem preocupações.” – embora a realidade seja mais dura que o sonho, viver é ainda melhor do que sonhar. Ele já nos cantou essa pérola.) 

***



O passado é uma roupa que não nos serve mais.

É para desafinar mesmo! Desafinar sempre, que esse é o desafio. Hoje em dia, já não se pode mais criar sem correr riscos. E eu quero enfrentá-los“, assim Belchior se referia ao álbum Alucinação em 1977. 

Esse canto repetido, essa voz agreste e desafinada que desfiava as mesmas letras e rimas há trinta anos, queria reinventar-se e assim poder anunciar silenciosamente a nova mudança e com ela, quem sabe, rejuvenescer. Belchior queria ser pintor e sua mulher seria a sua agente e produtora, porém, Edna não tinha a mesma aptidão de outras mulheres-empresárias. O que provocou uma situação de dependência de estranhos um tanto desconfortável tanto para o casal quanto para os estranhos, por mais fãs que fossem do compositor. 

O tal professor de Filosofia – que via mais Belchior como um filósofo e aspirante a pintor do que o tão conhecido letrista e cantor – acabou desapontado e desistindo de ajudá-lo ao ter conhecido de uma matéria que saiu da revista Época de título “A divina tragédia de Belchior“. 

Uma vez que Belchior havia rompido com tudo, com toda a estrutura que o apoiava e sedimentava numa vida prática e numa rotina que nunca falhava, seu espírito iconoclasta e romântico não aceitou viver cativo de seu próprio sucesso. As escolhas, porém, não se dão sem consequências.

Sem família, sem empresário (muito embora propostas de shows nunca lhe faltariam e a arrecadação de seus direitos autorais pelo ECAD lhe rendessem uma bolada) e vivendo um novo amor – viu-se obrigado a continuar fugindo. Ao menos é essa a impressão que foi deixada. 

 

Não compareceu para se defender no caso do abandono da família e do não-pagamento das pensões alimentícias, não foi se defender contra o caso com seu ex-secretário. E como consequência seus bens (dois carros, apartamentos, escritório, etc) foram executados, embora não chegassem perto de cobrir o rombo deixado. Isso sem contar as dívidas de hotéis no Brasil e no Uruguai. “Dessas coisas de família e de dinheiro eu nunca entendi bem…”, cantou ele em Fotografia 3×4.

O que não é admirável, por mais desprendido e “livre” que possa soar.  De certo modo fez-me pensar na anedota relacionada ao príncipe Sidarta Gautama, o Buda, quando abandonou sua esposa com seu filho na barriga. Ele lhe teria argumentado de sua família “queres me tecer mais um grilhão” que o impediria de ir em busca de sua Iluminação. 

Ainda que crescidos o cantor ainda tinha uma filha adolescente – fora do casamento – que precisava do apoio e assistência emocional de um pai. No caso do Brasil o abandono dos pais – o tal “aborto paterno” – é uma tragédia muito comum e que contribui imensamente para a tristeza de tantas famílias rompidas seja por quais circunstâncias que sejam.

***

não cante vitória cedo logo não / nem leve flores para a cova do inimigo / as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo / e podem fazer renascer um mal antigo.

Quem o viu, hospedou e acompanhou nos últimos dias viu um homem sereno, silencioso e brincalhão. Que, no entanto, estava sempre um bloco de papel e uma caneta ou lápis na mão.

Seja por brincadeira ou por justificação, Belchior teria dito em uma das últimas entrevistas que deu para a TV (o famigerado Fantástico já comentado) que ele estava no Uruguai para tratar de terminar um álbum de inéditas e preparar o lançamento de todos os seus trabalhos em espanhol.

Como disse, não chegou a apresentar nada a ninguém. Consta que teria dito a Zeca Baleiro – um dos poucos artistas a quem permitiu ser visitado – que estaria trabalhando em algo mais impactante que seu clássico Alucinação de 1976. E que seu retorno à cena seria “estrondoso”.

Verdade ou não, os artistas se aferram às suas próprias “sagas” e mitologias. E a questão, no fundo, era mais filosófica – a reclusão, a recusa a não-participar mais no jogo espetacular da cultura, etc.

(O que me faz pensar: como será que Belchior veria hoje essa questão dos artistas nas redes sociais? O que ele teria a fizer sobre isso do artista ter que virar influencer para poder “sobreviver” no mercado e vender seus trabalhos, cursos e etc? Todas as evidências apontam que Belchior boicotaria e não se adequaria a nada disso…)

 

Saiba por onde Belchior passou depois que deixou a família e sumiu dos  palcos - 21/01/2021 - Ilustrada - Folha


Apesar disso apareceu um relato de que um velho amigo do compositor, um doutor em Linguística e professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina de nome José Gomes Neto. O professor foi amigo de Belchior por longas três décadas de muitas trocas filosóficas e afinidades literárias.

Belchior teria deixado com ele certo “tesouro” ainda fugidio e sem existência formal ou oficial – um cd com oito canções inéditas com sonetos de Cruz e Souza, uma correspondência culta com centenas de cartas que o próprio Belchior teria disponibilizado para publicar ainda em vida e um livro do artista escrito numa prosa em que mistura realidade e ficção, poesia e acontecimento.

Esse tesouro só teria sido aberto para um poucos sortudos como o maestro João Moura, da Radar, banda que acompanhou Belchior em alguns momentos de sua trajetória musical. Junto com a tal sonhada tradução de Dante Alighieri que ele orgulhosamente carregava entre seus papéis e alguns desenhos fariam parte do último trabalho escritos em vida.

Embora nesse momento tão crítico nosso coração selvagem ainda tenha pressa de viver, precisamos entender a sutileza e os perigos. Mas, não tem problema não: o dia vai ressurgir e “não preciso que me digam de lado nasce o sol / porque bate lá meu coração.”  

 


Gostou deste conteúdo? Curta, comente e compartilhe – ajude-nos a quebrar as malfadadas muralhas da comunicação com a limitação do algoritmo. Precisamos de sua solidariedade para levar essa mensagem a mais gente.

Você pode conhecer nossos livros e adquiri-los nossa Loja e ajudar a fortalecer nossa editora, nosso blog e nossas propostas independentes. Chega junto!

Aproveita e segue também nosso perfil no Instagram.

Um grande beijo, bon voyage e até o próximo post!