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“Eles vão banir toda a arte”

Sei que a chamada deste post tem o tom que parece sensacionalista, mas não é precisamente aqui o caso. O alerta desesperador em questão vem da cineasta afegã Sahraa Karimi, a primeira e única mulher a ter um doutorado em Cinema no país e a primeira presidente da Organização de Cinema Afegã.

A diretora – autora do filme “Hava, Maryam Ayesha” que esteve no Festival de Veneza em 2019 – fez uma transmissão em sua conta no Instagram no momento mesmo em que as tropas do Talibã – movimento fundamentalista islâmico nacionalista surgido por volta de setembro de 1994 e que esteve no controle do Afeganistão entre 1996 e 2001 – estavam armadas desfilando em carros tomando as ruas de Cabul no último domingo (15). Além disto escreveu e divulgou uma Carta Aberta.

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Diante de tal ressurgimento das forças do Talibã e a fuga das autoridades máximas do país que se recusaram à resistir – dentre eles o próprio presidente Ashraf Ghani que abandonou o mandato -, a situação se agrava para minorias e setores divergentes tais como as mulheres, as crianças, os artistas, os praticantes de outros credos e os estrangeiros.

Como veremos no conteúdo da carta aberta – e nos exemplos já históricos – o Talibã é um grupo excessivamente violento que não gosta nem um pouco de cultura e democracia, e execra todo e qualquer direito humano não medindo esforços quando se trata de impor os seus códigos religiosos arcaicos e suas punições, especialmente às mulheres – forçando-as a usar burca ou condenando-as a morte por apedrejamento em caso de adultérios, fazendo pouco caso do rapto de crianças e mesmo do estupro de indefesos. Sempre armados, o grupo encarna o terrorismo aplicado dentro mesmo do próprio território do Estado.

O extremismo autoritário de sua cultura misógina e hierarquizada voltada o exclusivo poder masculino já é conhecido também pela forma como eles tratam as mulheres que buscam inclusão social pela educação, pela ciência e pelo mundo do trabalho. A ativista afegã pelos direitos humanos afegã Malala Yousafzai quase morreu num  atentado no qual um homem armado a chamou num ônibus que a levava para a escola e disparou três tiros em seu rosto.

Taliban terrorist who shot Malala escapes Pak prison - Rediff.com India News
A ativista pelos direitos humanos Malala Yousafzai


Zabihullah Mujahid
,  porta-voz do movimento em sua primeira coletiva após os acontecimentos de domingo, afirmou que o grupo se compromete a “honrar os direitos das mulheres” desde que “dentro das normas islâmicas”: o que quer dizer o uso obrigatório de véus até os pés e a presença obrigatória de um parente do sexo masculino – ou o marido – para que elas possam andar nas ruas.

Quando perguntado se as mulheres poderão exercer funções como o jornalismo o porta-voz tergiversou. O que diz bastante do quanto eles só estão encenando o tal respeito devido às pressões internacionais para que possam se manter dentro dos jogos econômicos globais.

Avião dos EUA decolou com 640 pessoas a bordo no Afeganistão
Afeganistão: as imagens que mostram o caos e o desespero dos afegãos após a  entrada do Talebã em Cabul - BBC News Brasil

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O avanço do poder do Talibã em algumas províncias do país foi facilitado sobretudo após a saída das tropas norte-americanas destas regiões. (O que por si só valeria um exame mais aprofundado em outro momento, uma vez que sabemos que o imperialismo norte-americano é um dos provocadores e principais fomentadores de grupos extremistas como o Talibã, a Al-Qaeda e etc.)

Desde domingo a população afegã mais vulnerável se encontra em polvorosa e uma multidão chegou a invadir as pistas de pouso dos aeroportos para tentar forçar entradas nos vôos comerciais internacionais, o que chegou a provocar a morte de seis civis esmagados e caídos no meio da multidão que tentava subir a todo custo em aviões que deixavam o país. Os vôos precisaram ser cancelados e alguns aviões em que cabiam 100 passageiros acabou levando até seis ou sete vezes sua própria capacidade.

A seguir reproduzimos a Carta Aberta redigida pela cineasta afegã Sahraa Karimi na íntegra, destinada a “acordar para o impacto da rápida tomada do Afeganistão pelo Talibã”:

A todas as comunidades de cinema do mundo e a quem ama filmes e cinema,

Meu nome é Sahraa Karimi, diretora de cinema e atual diretora-geral da Afghan Film, a única empresa cinematográfica nacional no Afeganistão, fundada em 1968.

Escrevo a você com o coração partido e uma profunda esperança de que possa se juntar a mim na proteção de meu belo povo, especialmente defender os cineastas, de ataques do Talibã.

Nas últimas semanas, o Talibã conquistou o controle de muitas províncias. Eles massacraram nosso povo, sequestraram muitas crianças, venderam meninas como noivas para seus homens, assassinaram uma mulher por seu traje, torturaram e assassinaram um de nossos amados comediantes, assassinaram um de nossos poetas e historiadores, assassinaram o chefe da Cultura e dos meios de comunicação do governo, têm assassinado pessoas afiliadas ao governo, enforcaram publicamente alguns dos nossos homens, deslocaram centenas de milhares de famílias.

As famílias seguem acampadas em Cabul após fugirem dessas províncias e estão em condições insalubres. Há saques nos acampamentos, e bebês estão morrendo por não terem leite. É uma crise humanitária, mas o mundo está em silêncio. Acostumamo-nos a este silêncio, mas sabemos que não é justo. Sabemos que essa decisão de abandonar nosso povo está errada, e que essa retirada precipitada das tropas americanas é uma traição a nosso povo e a tudo o que fizemos quando os afegãos venceram a Guerra Fria para o Ocidente.

Nosso povo foi esquecido. Agora após vinte anos de ganhos imensos para nosso país, especialmente para nossas gerações mais jovens, tudo pode ser perdido novamente neste abandono.

Precisamos de sua voz. A mídia, os governos e as organizações humanitárias mundiais estão convenientemente em silêncio, como se o tal ‘acordo de paz’ com o Talibã fosse legítimo. Nunca foi legítimo. Reconhecê-lo deu-lhes total confiança para voltar ao poder. O Talibã tem brutalizado nosso povo durante todo o processo das negociações. Tudo o que trabalhei muito para construir como cineasta em meu país corre o risco de acabar.

Se o Talibã assumir o controle, eles vão banir toda a arte. Eu e outros cineastas podemos ser os próximos em sua lista de alvos. Eles vão tirar os direitos das mulheres: seremos empurradas para as sombras de nossas casas e de nossas vozes, e nossa expressão será abafada no silêncio. Quando o Talibã esteve antes no poder, nenhuma menina frequentava escolas. Desde que o grupo deixara o controle do país, mais de 9 milhões de meninas afegãs se matricularam na escola. Isso é incrível. Herat, a terceira maior cidade que acabou de ser dominada pelo Talibã, tinha quase 50% de mulheres em sua universidade. Nessas poucas semanas, porém, o Talibã destruiu muitas escolas, e 2 milhões de meninas foram forçadas a deixar a escola novamente.

Não entendo este mundo. Não entendo o silêncio (do mundo). Vou ficar e lutar pelo meu país, mas não posso fazer isso sozinha. Preciso de aliados como você. Ajude-nos a fazer com que o mundo se preocupe com o que está acontecendo conosco. 

Ajude-nos informando aos meios de comunicação mais importantes de seus países o que está acontecendo aqui no Afeganistão. Sejam nossas vozes fora do Afeganistão. Se o Talibã assumir o controle de Cabul, talvez não tenhamos acesso à internet ou a qualquer ferramenta de comunicação. Por favor, envolva seus cineastas e artistas para nos apoiar e ser nossa voz. Esta guerra não é uma guerra civil. É uma guerra por procuração, é uma guerra imposta. Por favor, compartilhe este fato com sua mídia e escreva sobre nós em suas redes sociais. O mundo não deve virar as costas para nós.

Precisamos do seu apoio e da sua voz em nome das mulheres, crianças, artistas e cineastas afegãos. Esse apoio seria a maior ajuda de que precisamos agora.

Por favor, ajude-nos a fazer com que este mundo não abandone o Afeganistão. Por favor, ajude-nos antes que o Talibã assuma o controle de Cabul. Temos tão pouco tempo, talvez dias.”

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Afghanistan | Taliban in Kabul
Com o retorno a um regime teocrático – misógino – comerciantes são obrigados a apagar todos os painéis públicos com imagens de mulheres

O conteúdo desta carta choca tanto quanto as imagens que já nos chegaram desta nossa situação de terror sofrida pelo povo e pelas mulheres afegãs e mesmo estrangeiras.

Ler e acompanhar tudo isso acontecendo é angustiante e me causa repulsa aliada à raiva quase incontrolável. Fico com os olhos cheios de lágrimas e meu corpo treme de revolta pensando em todos os sistemáticos abusos que já estão acontecendo e que tenderão a piorar.

O Afeganistão está se transformando a olhos vistos na Gilead de O Conto da Aia da escritora Margaret Atwood, e o “sucesso” deste empreendimento que é um pesadelo distópico acaba inspirando e encorajando grupos religiosos e políticos em outros lugares a tentar o mesmo.

Ao se olhar para fotos das mulheres nos anos 70 e vê-las andando livres pelas ruas com suas saias, mini-saias e vestidos, mal podemos acreditar que o país de hoje teria sido aquele de décadas atrás. Um retrocesso que me traz à mente uma frase de Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.

The Handmaid's Tale | Quarta temporada recebe teaser trailer | Magazine.HD
Frame da série “The Handmaid’s Tale” baseada na obra de Margareth Atwood
Repórter da CNN no Afeganistão nega que mudou visual devido ao Taleban
Essa imagem da repórter da CNN Clarissa Ward bombou nas redes como sendo paradigmática desta mudança Antes do Talibã no Poder x Depois do Talibã no poder

Basta olharmos para o grupo que está no poder no Brasil e nos perguntarmos, guardadas as diferenças, claro, o que pode nos acontecer se a gente não se mover para expulsá-los do poder antes. O sonho de Bolsonaro sempre foi esse e seu desprezo pelas minorias – também perseguidas por aqui – nunca foi escamoteado.

Afinal, o cheiro de golpe está no ar – a despeito mesmo de ser estimulado por uma estrutura mequetrefe e gente como o “cantor” Sérgio Reis -, e  cair nele seria ainda mais vergonhoso do que já é triste e inaceitável.


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