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[Tradução] Duas entrevistas com John Cage

Para me retratar por não ter podido publicar ontem a nossa coluna (a vida deste escritor tem andado muito interessante, apesar dos pesares), trago a vocês duas traduções livres que fiz de entrevistas com o John Cage (1912-1992).

Para não entrar em detalhes – isso pediria certamente um outro post – sobre quem foi John Cage, basta dizer que o cara foi um pensador e um músico de vanguarda norte-americano muito incrível. Integrou, inclusive, o Grupo Fluxus (também falaremos desse movimento vanguardista essencial) em parceria com Yoko Ono, Joseph Beuyes, Nam June Paik, dentre outros.

Sem mais delongas, Mr. John Cage pra vocês!


*

 

UMA ENTREVISTA COM JOHN CAGE
por Ted Berrigan  (não conseguimos detectar o ano em que essa entrevista foi realizada, só que aconteceu durante o período conturbado da Guerra do Vietnã )


A entrevista a seguir foi extraída de uma série de entrevistas gravadas com John Cage durante sua recente visita a Nova York. Elas foram feitas em festas, em apartamentos e em táxis.


ENTREVISTADOR: E quanto ao Marshall McLuhan?

CAGE: Só isso: a mídia não é uma mensagem. Gostaria de deixar uma palavra de advertência ao Sr. McLuhan: falar é mentir. Mentir é colaborar.

ENTREVISTADOR: Como isso se relaciona?

CAGE: Você conhece a história zen da mãe que acabava de perder seu único filho? Ela está sentada à beira da estrada chorando e o monge chega e pergunta por que ela está chorando e ela diz que perdeu seu único filho e então ele bate na cabeça dela e diz: “Pronto, isso vai lhe dar algo para chorar.

ENTREVISTADOR: Sim, alguém deveria ter dado um pontapé na bunda daquele monge!


Concerto na Estação das Artes presta tributo ao músico John Cage nesta  quarta | Estação Cabo branco


CAGE:
Eu concordo. Alguém disse que [Bertold] Brecht queria que todos pensassem da mesma forma. Eu quero que todos pensem da mesma forma. Mas Brecht queria fazer isso por meio do comunismo, de certa forma. A Rússia está fazendo sob o governo. Está acontecendo aqui por si só, sem estar sob um governo estrito; então, se está funcionando sem tentar, por que não pode funcionar sem ser comunista? Todo mundo se parece e age da mesma forma, e estamos ficando cada vez mais assim. Acho que todo mundo deveria ser uma máquina. Acho que todos deveriam ser parecidos.

ENTREVISTADOR: Isso não é como Pop Art?

CAGE: Sim, isso é o que é Pop Art, gostar das coisas, o que aliás é uma ideia bem chata.

ENTREVISTADOR: O fato de que isso vem de uma máquina diminui o seu valor para você?

CAGE: Certamente que não! Acho que qualquer produto artístico deve ficar em pé ou cair sobre o que está ali. Um chipanzé pode fazer uma pintura abstrata, se for boa, ótimo!

ENTREVISTADOR: Mary McCarthy caracterizou você como um utópico amargo. Isso é correto?

CAGE: Definitivamente quero ser interpretado literalmente, sim. Todo o meu trabalho é dirigido contra aqueles que se empenham, por estupidez ou desígnio, em explodir o planeta.

ENTREVISTADOR: Bem, isso é muito interessante, Sr. Cage, mas eu queria saber o que você pensa no contexto mais amplo, isto é, o utópico.

CAGE: Não sei exatamente o que você quer dizer com isso… Acho que o prestígio da poesia é muito alto na estima do público agora, talvez a altura não seja o padrão certo, mas talvez esteja mais em alta do que nunca. Se você pode vender poesia, pode vender qualquer coisa. Não, acho que é uma época maravilhosa para a poesia e realmente sinto que algo está prestes a ferver. E em resposta à sua pergunta sobre se a poesia poderia retomar algo como a propagação elisabetana, acho que é perfeitamente possível que isso possa acontecer nos próximos quatro ou cinco anos. Tudo o que precisa é do gênio certo para vir e lançar. E o velho [John] Masefield, fiquei feliz em vê-lo outro dia comemorando seu nonagésimo aniversário, eu acho, disse que ainda havia muitas histórias boas para contar. Achei isso muito bom e é verdade também.

ENTREVISTADOR: Quer dizer, você acha que está satisfeito com a forma como estamos atualmente conduzindo a guerra do Vietnã?

CAGE: Estou altamente insatisfeito com a maneira como estamos travando essa guerra desagradável.

Canção do dia: 4'33” – John Cage | Altamont

ENTREVISTADOR: Incidentalmente, seus quartos são muito bonitos.

CAGE: Não há nada de incidental nisso. Estas são casas bonitas; há duas à venda aqui ao lado, uma pechincha também, mas são apenas conchas. Elas têm que estar todas consertadas por dentro, como esta também. Eles estavam acabando com elas quando chamei a Sociedade da Poesia aqui para convidar Hy Sobiloff, o único poeta milionário, para vir e ler, e ele foi levado nas mãos e lhe foi mostrado essa casa ao lado, aquela em que eu cresci, e em que estado lamentável estava. Picaretas já haviam subido pelo telhado. E então ele comprou quatro delas e consertou esta para nosso uso enquanto vivermos aqui, sem pagar aluguel.

ENTREVISTADOR: Nada mal. Me conta, você já pensou em fazer trilhas sonoras para filmes de Hollywood?

CAGE: Por que não? Qualquer compositor de habilidade genuína deveria trabalhar em Hollywood hoje. Pegue a Grana! No entanto, poucos compositores de cinema possuem casas em Bel-Air, piscinas iluminadas, esposas em casacos de vison compridos, três criados e aquele ar de gênio cansado que virou utópico amargo. Sem isso, hoje, você não é nada. Infelizmente, o dinheiro compra pateticamente pouco em Hollywood além dos prazeres de viver em um mundo irreal, associando-se a um grupo de pessoas mesquinhas que pensam, falam e bebem, a maioria delas pessoas más; e o duvidoso prazer de assistir a atores e atrizes famosos engolir o suco e enfiar no estômago em alguns dos restaurantes mais rudes do mundo. Eu nunca pensei mesmo nisso.

ENTREVISTADOR: Fale-me sobre o Silêncio.

CAGE: Claro. Você nunca sabe o que os meus editores estão fazendo. Eu tive um tempo maldito com o Silêncio. Meus editores, H***, R*** e W***, a princípio ficaram muito entusiasmados com isso e, em seguida, entregaram-no a um jovem editor que queria reescrevê-lo totalmente e o fez; ele fez um ‘picadinho’ completo com isso [NOTA: a expressão hash também pode se referir a ‘haxixe’, acabei optando por ‘picadinho’]. E eu protestei a respeito e tudo mais – o contrato estava para ser assinado – e eles desistiram, por causa desse impasse. O editor, que é meu amigo, disse: “Bem, John, nós nunca levamos isso a sério, não é? Então, por que simplesmente não esquecemos?” E eu respondi: “Droga, levei isso a sério; quero ser publicado.” Bem, então eles despediram este jovem que estava me reescrevendo, e tudo estava em paz. Mas ainda havia alguma estática sobre irregularidades de tom em Silêncio. Então eu disse: “Bem, vou apenas abaixar um pouco o tom, sintonizar a coisa toda, por assim dizer.” Mas não fiz nada disso, é claro! Simplesmente mudei a ordem. Eu mandei de volta reorganizado, e então eles queriam que eu fizesse outra coisa; finalmente, levei tudo para outro lugar.

ENTREVISTADOR: Como era o seu pai?

CAGE: Não quero falar dele. Minha mãe o detestava.

ENTREVISTADOR: Que tipo de pessoa era sua mãe?

CAGE: Muito religiosa. Muito. Mas agora ela está louca. Ela deitou em cima de mim quando fui amarrado à cama. Ela me escreve o tempo todo implorando para que eu volte. Por que temos que falar da minha mãe?



ENTREVISTADOR: Você se move em padrões?

CAGE: Sim. Não é tanto a repetição de padrões, mas a repetição de atitudes semelhantes que levam a um maior crescimento. Tudo o que fazemos continua crescendo, as habilidades estão lá e são usadas de maneiras diferentes a cada vez. O principal é cumprir fielmente as tarefas atribuídas por si mesmo, a fim de aumentar a consciência do corpo.

ENTREVISTADOR: Você acredita que toda boa arte não é engajadora?

CAGE: Sim, acredito.

ENTREVISTADOR: E quanto à beleza?

CAGE: Muitas mãos sujas acariciam a beleza, fizeram dela seu estandarte; eu gostaria de cortar essas mãos, porque acredito nessa bandeira… a diferença é que arte é beleza, o que naturalmente falta aos Beatniks!

ENTREVISTADOR: Os Beatniks, notadamente Ed Sanders, estão sendo perseguidos pela polícia ultimamente. Você aprova?

CAGE: Muito pelo contrário. O problema é que a polícia não é amada. A polícia de Nova York é toda paranóica… eles foram tão odiosos por tanto tempo que todo mundo começou a odiá-los, e isso apenas se acumulou e cresceu. A única resposta para a maldade é a bondade. O problema é que as crianças mais novas simplesmente não perceberam que é preciso fazer amor com a polícia para resolver o problema policial.

ENTREVISTADOR: Mas como você impõe amor à polícia?

CAGE: Faça amor com a polícia. Precisamos de esquadrões altamente treinados de amantes do amor para ir a todos os lugares e fazer amor.

ENTREVISTADOR: Mas tem tantos policiais, é um problema prático.

CAGE: Sim, eu sei, certamente vai levar um tempo, mas que projeto adorável.

John Cage composition hidden for 38 years makes its debut in Los Angeles |  John Cage | The Guardian

ENTREVISTADOR: Você acha melhor ser brutal do que indiferente?

CAGE: Sim. É melhor ser brutal do que indiferente. Alguns artistas preferem o fluxo da consciência. Eu não. Eu prefiro bater nas pessoas.

ENTREVISTADOR: Diga algo a respeito dos “Happenings”. Você é considerado o pai espiritual do Happening.

CAGE: Happenings são chatos. Quando ouço a palavra “Happening”, vomito loucamente no meu almoço!

ENTREVISTADOR: Mas Allan Kaprow [NOTA: pintor que também participou do Fluxus e teria propagada a idéia dos Happenings] chama você “O único Happening vivo”.

CAGE: Allan Kaprow pode ir comer uma barra de Hershey [NOTA: marca de barra de chocolate]

ENTREVISTADOR: Hmmm. Bem colocado. Agora, para adotar uma abordagem diferente, deixe-me pergunta: e quanto ao sexo?

CAGE: Sexo é uma arma biológica, até onde eu posso ver. Eu sinto que o sexo, como qualquer outra manifestação humana, foi degradado para propósitos anti-humanos. Recentemente, tive um sonho em que voltei para a casa da família e encontrei um pai e uma mãe diferentes na cama, embora ainda fossem, de alguma forma, meu pai e minha mãe. O que eu gostaria, numa forma de teatro, é que de algum modo um método pudesse ser inventado, uma nova forma, que permitisse a cada membro da plateia ver seus próprios pais, novamente jovens, fazerem amor. Foda-se, isto é, não é tribunal.


CASA GUILHERME DE ALMEIDA Centro de Estudos de Tradução Literária

ENTREVISTADOR: Com certeza seria diferente, não é? Que outra saída teatral lhe interessa?

CAGE: Morte. O truque do Time Birth Death. Recentemente fui ver o “Dr. No” [NOTA: um dos filmes da franquia 007, “O Satânico Dr. No” (1962) dirigido por Terence Young a partir da inspiração nas novelas de espionagem de Ian Fleming, teve Sean Connery na pele do agente 007] na rua Quarenta e Dois. É um filme fantástico, tão legal. Eu saí e alguém jogou uma bomba de cereja bem na minha frente, no meio de uma grande multidão. E havia sangue, eu vi sangue nas pessoas e em todo lugar. Eu me senti como se estivesse sangrando. Eu vi no jornal naquela semana que mais e mais pessoas estão jogando-as. Artistas também. É apenas parte da cena – machucar as pessoas.

ENTREVISTADOR: Como o amor entra em tudo isso?

CAGE: Não entra. Ele vem depois. O amor é memória. No presente imediato nós não amamos a vida; a vida é demais para nós. Desejamos, murchamos, cheiramos, engolimos, devoramos, agitamos, aninhamos, etc. Mais tarde, a memória relampeja imagens envoltas em nostalgia e desejo. Chamamos isso de Amor. Ha! Melhor seria chamar de Loucura.

ENTREVISTADOR: Tudo é erótico para você?

CAGE: Não ultimamente. Não, estou só brincando. Claro que tudo é erótico para mim; se não é erótico, não é interessante.

ENTREVISTADOR: A vida é séria?

CAGE: Talvez. Como eu deveria saber? Em qualquer caso, não se deve ser sério. Não só é absurdo, mas uma pessoa séria não pode fazer sexo.

ENTREVISTADOR: Muito interessante! Mas, por que não?

CAGE: Se você tiver que perguntar, você nunca saberá.

 


A versão original pode ser encontrada aqui. 


*

ENTREVISTA COM JOHN CAGE SOBRE MÚSICA E POLÍTICA


Essa entrevista com John Cage data de 1970 e é sobre revolução, bem-estar global, a diferença entre as culturas norte-americanas e européias, e mudanças culturais em geral. E, claro, sobre sua música.


ENTREVISTADOR: Senhor Cage, nos últimos anos, você tem performado principalmente com a Companhia de Dança Merce Cunningham, você continua dando seus próprios concertos?

CAGE: Sim, continuo com ambos. Por exemplo, este anos eu dei concertos em Minneapolis, Pensilvânia, Flórida. Eu tenho trabalhado com Merce Cunningham desde 1943, e eu tenho dado concertos musicais desde 1933, e continuo fazendo as duas coisas.

ENTREVISTADOR: Você nos contou ontem que você também deveria ter tempo para ajudar a fazer a revolução.

CAGE: Sim!

ENTREVISTADOR: Qual seria o seu método para chegar a isso? Ou, de que maneira pretende atuar politicamente como músico?

CAGE: Primeiramente, a música pode ser concebida como uma situação social. Ou seja, assumindo os sons certos, pode-se ver como uma situação social que envolve as pessoas e suas atividades, e então se torna uma instância de uma sociedade que funciona sem governo.

4'33” — John Cage's radical piece resonates during this era of silence —  FT.com


ENTREVISTADOR:
Qual é a sua opinião sobre a atual situação política na América? Você considera as contradições de nossa sociedade desenvolvidas o suficiente para produzir a revolução nos próximos anos?

CAGE: Buckminster Fuller diz que 1972 será o fim do período crítico. Podemos esperar, entre agora e o final de 72, muita violência. Ele não vê o problema como puramente americano, mas sim global, e já podemos ver que os EUA nem mesmo se consideram limitados por suas fronteiras. Ele opera fora de si mesmo. Às vezes com as piores intenções, às vezes com justas boas intenções. É uma mistura. Acho que ter boas ou más intenções é desnecessário. O que precisamos é abordar o problema, como dar a cada pessoa o que ela precisa para viver, para que o mundo deixe de ser dividido entre quem tem e quem não tem. No momento presente, estamos quase cinquenta por cento, e em ’72 será 50:50 tendo e não tendo.

ENTREVISTADOR: Você acha?

CAGE: Nós sabemos disso.

ENTREVISTADOR: Mas os ricos não ficam sempre mais ricos e os pobres…

CAGE: Não, não! Para alguns dos ricos, sim! Mas o número daqueles que têm o que precisam aumentou de 9% no início deste século para quase 50% atualmente.

ENTREVISTADOR: Não é muito otimista?

CAGE: Não, é factual.

ENTREVISTADOR: Mas há estatísticas sobre os países subdesenvolvidos que dizem exatamente o contrário.

CAGE: Você deve ter um ponto de vista global. Uma das maiores influências na direção, que você chama de direção otimista, é uma colaboração internacional entre a Rússia e os EUA.

ENTREVISTADOR: Na cabeça dos pequenos países.

CAGE: Sim, mas os países pequenos vão se adaptar muito rapidamente ao que demorou muito nos EUA e na Rússia menos. Em certo sentido, os EUA são o país mais antigo do século 20, eu disse isso há muito tempo atrás. Portanto, demorou muito para ter uma certa vantagem material. Para os países subdesenvolvidos, levará muito pouco tempo porque podem aproveitar todos os erros que cometemos. Por exemplo: somos mais modernos por mais tempo que os alemães. O resultado é que o descarte de lixo nos EUA é muito mal feito e de uma forma antiquada, enquanto na Alemanha é feito de uma forma muito moderna. E na África ou na Índia, isso será feito soberbamente! Provavelmente eletronicamente!! Em vez de mecanicamente.


John Cage: Was he a genius or a joker? - The Globe and Mail


ENTREVISTADOR:
Mas você não acha que enquanto durar a sociedade capitalista, o desenvolvimento desses países pobres é impossível?

CAGE: No capitalismo está sua própria destruição. Já o está fazendo por meio de um interesse maior no crédito do que no dinheiro. Já em 1934, foi nos EUA que saímos do padrão ouro e o que se tornou importante não foi o ouro, mas o crédito. Agora, o que é crédito? Quando você examina e fala com um banqueiro, descobre que crédito é confiança na outra pessoa. É simplesmente uma questão emocional. Tudo que você precisa fazer é confiar nas outras pessoas. Um banqueiro, por exemplo, pode dar dinheiro a uma pessoa muito pobre se confiar nela.

ENTREVISTADOR: Mas ele não tem confiança nele porque ele é pobre.

CAGE: Não, não, mas ele tem confiança! Por exemplo, atualmente nos Estados Unidos, recebemos cartões de crédito sem nem mesmo solicitá-los. Eles vêm para você pelo correio. E eles começam a dar comida de graça no solo, assim como fazer no ar. Quando você voa nos aviões, eles lhe dão comida, supondo que você pagou pela passagem. Agora, no solo, quando eles têm esses grupos enormes de pessoas (Rock’n’Roll e assim por diante), eles começam a alimentá-los…

ENTREVISTADOR: Você vê alguma possibilidade de sua música mudar alguma coisa, mesmo que apenas a consciência das pessoas? Os meios adequados para provocar uma revolução, como acabamos de discutir, não seriam antes a força física em vez da arte?

CAGE: Não acho que devemos esperar algo para provocar uma revolução. Devemos usar tudo e não tentar encontrar uma via, mas vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. Para algumas pessoas, as palavras serão eficazes, para algumas pessoas, até a violência será eficaz, para algumas outras pessoas, a música será eficaz. Devemos usar tudo. Eu não acredito em ações de protesto. Eu não acho que nada é realizado por meio do protesto. Mas posso dizer isso facilmente porque muitas pessoas estão protestando… Mas eu não vejo nada sendo realizado. Eu acho que [General Charles] de Gaulle já perto de sua morte teve um novo sopro de vida, e ele se tornou um pouco mais forte, simplesmente porque os alunos protestaram tão violentamente. Mas então o pobre homem, ele não morreu? Pelo menos, ele perdeu sua posição, finalmente. Agora, você não tem um governo tão estúpido quanto antes…??? E de vez em quando um país tem governo algum; estávamos agora na Itália e acho que eles não têm governo…

ENTREVISTADOR: É fato que sua música, como toda arte relevante de hoje, atinge apenas um grupo extremamente pequeno da população por causa do privilégio da educação, que a classe dominante tenta manter por todos os meios, e não por meio de altas taxas de entrada como aqui no Festival St. Paul-de-Vence.

CAGE: Nos anos cinquenta, quando eu dava um show, eu anunciava e, no máximo, chegavam 125 pessoas. Quando dei o HPSCHD em Illinois ano passado, algo entre 7.000 e 9.000 vieram, e elas vieram de todo o país – elas vieram até mesmo da Europa. Dei um Musicircus em Illinois no ano anterior e 5.000 pessoas compareceram, e o show foi gratuito. Eu dei um em Minneapolis este ano e outras 3.000 pessoas vieram e era gratuito. As coisas estão mudando.


ENTREVISTADOR:
Há quem diga que você, como “artista de vanguarda”, é o bobo da corte da sociedade burguesa. O que você responde a esta reprovação?

CAGE: A situação é diferente e tem sido diferente por muitos anos nos Estados Unidos do que é na Europa. As pessoas na Europa, que se preocupam com a arte, não são, na sua maioria, estudantes ocupados com os estudos na Europa, mas sim pessoas que têm tempo livre para prestar atenção à arte. Portanto, a Europa se considera mais culta do que os Estados Unidos, que são considerados pela Europa um pouco distantes da tradição e da cultura e um pouco bárbaros. Bem, o que está acontecendo nos Estados Unidos é: quando você consegue um emprego na sociedade e entra na estrutura político-econômica do capitalismo, você não tem mais tempo para a arte. Você não está mais interessado em arte, apenas algumas pessoas estão. As pessoas que se interessam pelas artes são os alunos. Portanto, se faço uma turnê nos Estados Unidos, vou de universidade em universidade. Se eu fizer uma turnê pela Europa, para onde irei? Eu vou de festival em festival ou de estação de rádio em estação de rádio ou de uma sala de concerto para outra. O público está mudando agora, mas antes era um grupo totalmente adulto sem filhos. Isso significa que a ideia de ser um bobo da corte é uma ideia europeia. Mas minha ideia de ser está, em certo sentido, em uma tradição – se me permite – da vida intelectual… Realmente, é! Se nisso estão incluídas pessoas como [David Henry] Thoreau, [Ralph Waldo] Emerson, nossos poetas, etc. Eles fazem parte da vida universitária muito mais do que da vida adulta dos Estados Unidos. O que é a pessoa mediana nos Estados Unidos quando ela é crescida e tem um emprego, ganha a vida e paga suas contas? Ela passa as noites assistindo à TV. A TV não me deixava entrar no programa. Portanto, não sou um bobo da corte, sou mais um professor. Eu preferiria ser professor-aluno… sou um aluno…

ENTREVISTADOR: Você diria algo sobre a cultura do negro, que parece estar se emancipando muito nas cidades dos Estados Unidos? E se, de que maneira você acha que poderia aprender com isso?

CAGE: Bem, quando comecei musicalmente com interesse em ruídos, o motivo foi que os ruídos estavam livres das leis da harmonia e do contraponto. Agora, o que é excitante sobre os negros é que eles vão ficar livres das leis, que foram feitas pelos brancos para protegê-los dos negros, entre outras coisas, e para manter os negros na escravidão e para manter os brancos mais poderosos. Agora, não será bom para os negros se tornarem poderosos como os brancos no mesmo sentido; não mais do que seria bom para os ruídos se tornassem tão harmoniosos e devotados ao contraponto quanto os sons musicais. Precisamos antes – como já o fizemos na música – identificar-nos com os ruídos e partir de uma situação sem as leis dos brancos ou dos tons musicais. Acho que muito poucos negros entendem isso. Eles geralmente pensam que gostariam de ser tão poderosos quanto os brancos. Essas não é a maneira correta.

ENTREVISTADOR: Você poderia explicar isso uma vez mais?

CAGE: O poder não é a questão. Essa era a questão em harmonia e contraponto, onde você tem coisas boas e coisas ruins e você faz as regras. Isso é o que os brancos faziam com os negros: eles faziam regras. Portanto, precisamos de uma situação em que não tenhamos regras, em que as coisas não sejam mais poderosas do que em outras coisas, mas em que cada coisa seja o que é. O que já temos em música.

ENTREVISTADOR: Em sua música.

CAGE: Bem, em muita música.

John Cage » Recanto do Poeta



ENTREVISTADOR: Algum tempo atrás, você executou, “Variações VII”, então nós ouvimos. Você poderia nos contar algo sobre esta peça e sua performance?

CAGE: Foi feita em Nova York, com o patrocínio da EAT (Experimentos em Arte e Tecnologia). Isso foi há vários anos, em 1967, eu acho. O ar, você vê, está cheio de sons que são inaudíveis, mas que se tornam audíveis se tivermos aparelhos receptores. Portanto, a ideia de “Variações VII” é simplesmente ir pescar, por assim dizer, em uma situação em que você está, e pegar o máximo de coisas que puder, que já estão no ar.

ENTREVISTADOR: É em um certo sentido semelhante à peça de borboleta de LaMonte Young? Ele disse que as borboletas emitem um som, embora seja inaudível para ouvidos humanos. Mas é música de verdade também.

CAGE: Não, a minha era mais como pescar coisas que já estavam lá.


ENTREVISTADOR: Então, quais foram os peixes que você pescou?

CAGE: Bem, havia rádios comuns, havia contadores Geiger para coletar coisas cósmicas, havia rádios para captar o que a polícia estava dizendo, havia linhas telefônicas abertas para diferentes partes da cidade. Havia tantas maneiras diferentes de receber vibrações e torná-las audíveis quanto poderíamos pegar com as técnicas disponíveis.

ENTREVISTADOR: Você tem criticado os europeus por não conseguirem romper com a tradição e disse em uma entrevista em 1961 que esperava que os europeus se tornassem mais americanos. Como você avalia o progresso nessa aspecto durante os últimos dez anos?

CAGE: Eu acho muito bom. Percebi dessa vez, quando vim para a Europa, que não é mais interessante. É a mesma coisa, então eu ficaria em casa… As pessoas estão se tornando mais conscientes dos problemas mundiais do que dos problemas americanos ou europeus. Podemos distinguir agora – digamos – entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, como você já fez, e não estou pessimista a respeito. Acho que ainda teremos muitos problemas com as pessoas porque muitas, muitas pessoas são muito egoístas. Mas eles serão menos egoístas quando todos tiverem o que necessitam. Seria uma coisa interessante de resolver, ver o que acontece quando as pessoas têm o que precisam. Agora, sempre há o medo de que alguém tire algo de você, se você o tiver. Mas se você não tem isso, você nunca vai conseguir, e assim por diante. Parece ser obviamente o problema a ser resolvido. Você conhece meu interesse pelo trabalho de Buckminster Fuller. Ele está preocupado com o que chama de ciência do design compreensivo, que é resolver os problemas do mundo, ou seja, a distribuição dos recursos mundiais para todas as pessoas do mundo. É ele quem diz que em 1972 chega-se ao ponto 50:50. E então, a curva sobe rapidamente para 100% tendo o que eles precisam. Acho que ele é provavelmente o ser humano mais útil que vive agora.

 

Buckminster Fuller | Tag | ArchDaily Brasil
O designer visionário Richard Buckminster Fuller (1895-1983) criador de estruturas geodésicas e outras inovações revolucionárias.

ENTREVISTADOR: Qual é a sua opinião sobre a música europeia contemporânea?

CAGE: A dificuldade é que não sei muito bem o que está acontecendo na Europa agora. Minhas próprias circunstâncias me mantêm ocupado, então tenho muito pouco tempo para ouvir qualquer coisa. Antigamente, quando as pessoas não estavam interessadas no que eu estava fazendo, eu tinha muito tempo. Mas agora, tenho muito pouco tempo… É tudo tolice…

ENTREVISTADOR: Há dois homens famosos sobre os quais as pessoas estão falando com frequência neste ano de 1970: [Ludwig von] Beethoven[Richard] Nixon. Você concorda com a opinião de que ambos fizeram muito pela nossa cultura?

CAGE: Bem, vez ou outra, mesmo assim, há muito tempo me oponho a Beethoven, de vez em quando, quando ouço algo dele, descubro que ele é, na verdade, um compositor muito interessante. A última vez que fiquei impressionado com esse fato foi quando ouvi a Bagatelle, interpretada por Grete Sultan em Nova York. Mas Nixon não me atingiu de nenhum modo como sendo interessante.

ENTREVISTADOR: Obrigado, Sr. Cage.

 



A entrevista original dada a Max Nyffeler em 1970 pode ser encontrada aqui.

 


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