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Good night, Mr. Charlie Watts


O dia de hoje amanheceu mais empobrecido musicalmente com a partida de Charlie Watts (1941-2021) aos 80 anos, o preciso e discreto baterista da banda de rock mais longeva da história, os Rolling Stones. A causa da morte ainda não foi divulgada, mas a saúde do baterista já não andava muito estável, o que o levou a se afastar das atividades da banda e recusar fazer turnês: com o Covid com tudo então, nem pensar.

Tive a sorte de nascer e crescer num lar onde o bom gosto musical foi ricamente cultivado por meus pais. Enquanto minha mãe nos fornecia boas doses de MPB, meu pai nos supriu com cavalares injeções do bom e velho rock’n’roll e dentro dessa nutrição os Stones eram uma disciplina obrigatória. Graças as sessões diárias junto à sua coleção de vinis pudemos conhecer a maravilha que sempre fora o explosivo trabalho do Charlie.

Apesar disso os Rolling Stones entraram de modo mais consciente em meu radar a partir de 1995, quando a banda veio ao Brasil tocar na turnê de seu álbum Voodoo Lounge. Àquela altura este escritor tinha seus 9 anos e aquele show em particular – que foi transmitido na tv aberta e pode ser visto aqui – nos impressionou imensamente.


Morre Charlie Watts, baterista do Rolling Stones, aos 80 anos

Tanto que no dia posterior fomos a uma loja de discos e meu irmão mais velho fez a cabeça de nosso pai para adquirirmos o lançamento em CD. Nesse mesmo ano passei a me interessar tanto por música – e sentir seu chamado – que comecei a aprender autodidaticamente a tocar violão e entre algumas revistinhas de cifras as canções dos Stones, do Beatles, do Pink Floyd e do Queen estiveram entre meus primeiros aprendizados musicais. E o Keith Richards, uma inspiração viva – sua malemolência, sua bandana, seus colares de pirata, anéis e seu cigarrinho pendendo no canto da boca.

Quis a sorte e o destino que os Rolling Stones regressassem ao Brasil no ano de 2006 para uma apresentação histórica – gratuita! – na praia de Copacabana e tomei a decisão bem louca – e acertada – de ir vê-los in loco! Lembro que meus pais ficaram abismados, mas não se opuseram.

Ao chegar no Rio uma de minhas primeiras ações foi andarilhar pela praia de Copacabana para conhecer a famosa praia em que está instalada a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade – óbvio – e ver se tinha a sorte de ver alguém da banda ou da equipe por ali. Rapidamente, por meio de informações colhidas com transeuntes, cheguei diante do famoso Copacabana Palace, de onde saia um imenso corredor aéreo que conectava o hotel ao palco gigantesco onde aconteceria o show. A banda estava hospedada no hotel, é claro. 

Já havia uma multidão acampada na frente e também profissionais da imprensa. Uma jovem jornalista da Globo me chamou a atenção e fui até ela trocar ideias sobre se ela tinha visto alguma movimentação atípica no hotel, se tinha visto o Mick, o Keith passar por ali para acenar ao público. Sorridente e receptiva, a jornalista disse que não. Fiquei um tempo ali a prosear com ela e a sonhar algo além de uma conversa – afinal, eu era um poeta de 21 anos na explosão de minha energia, de minha coragem e sexualidade livre, vivendo meu on the road pessoal há alguns anos e colecionando livros, poemas e boas histórias. No entanto, o dever é o dever e aquele pequeno flerte – infelizmente – não passou além daquela excitação de estar longe de tudo o que conhecia e seguindo o próprio fluxo. Acabei tomando umas brejas ali na praia e escrevendo um poema para a jornalista-musa e – quando pensei em presenteá-la, ela já tinha partido com a equipe.

Morre Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, aos 80 anos | CNN Brasil

Em outros momentos já escrevi sobre esse show e sobre essa temporada no Rio em particular: histórias envolvendo como fui parar numa festa na casa de umas garotas punks, de como trepei com essas gurias na Cinelândia e passei a noite numa delegacia sendo liberado no outro dia e andei a Avenida Brasil quase inteira sem chinelos pisando nas sombras porque tinha adormecido numa praça e tive meu chinelo roubado, até como um miliciano da Zona Norte me apresentou suas “duas filhas” (duas pistolas semi-automáticas carregadas) num boteco, como meu apelido na época por lá era “John Lennon” e como o Jô Soares – sem ter conhecimento algum disso hehe – me bancou uma noitada frenética em Santa Tereza! As histórias se encontram fragmentadas ao longo de meus trabalhos literários.

Contudo, lembro bem de como a energia, o ritmo, o excelentemente bem treinado groove do Charlie – apesar mesmo de sua idade – ainda eram uma arma matadora dentro daquele som gigantesco que os Stones faziam e que não deixavam você parado. Posso vos jurar!

Charlie tinha um jeito muito único de comandar o ritmo, de ser o grande maestro daquela parede de som incrível. Seu estilo fino, de jazzista – o jazz que aliás fora a escolha inicial de Watts durante suas incursões desde que trocou o banjo pela percussão e pela bateria.   

Dentro dessa legendária estrutura e acontecimento cultural que são os Rolling Stones – desde o seu início – Charlie, que era o mais cético do grupo (chegou a pensar que seu trabalho na banda seria algo que duraria apenas um mês, que se transformou em meio século, por assim dizer e que antes disso era um profissional do marketing formado e baterista de bandas amadoras) sempre manteve um perfil mais discreto e avesso aos holofotes.

Enquanto outros membros pareciam estar aproveitando a fundo – pareciam não, eles certamente estavam! – o burburinho e o sucesso da British Invasion e o contato com as lendas do blues que eles ajudaram a popularizar além-mar, Charlie sempre soube separar muito bem a vida pessoal, a vida afetiva, e o lado profissional, a banda e a camaradagem. Os tablóides viviam  a assediar constantemente os Stones com suas relações promíscuas e rupturas em busca de aumentar suas vendas e a polícia e a justiça em cima dos escândalos envolvendo drogas. Charlie Watts, por outro lado, era um homem sério e devotado à família, mas que quando chamado ia e fazia o seu serviço bem feito! Reza uma anedota que perguntado por um jornalista como ele conseguiu manter um longevo casamento enquanto tocava na banda mais “louca” da história, Charlie respondeu a seu modo que era “fácil, pois nunca apresentei a minha esposa aos meus colegas de banda“. Obviamente uma piada, mas dá pra sentir que no fundo o cara sabia administrar as coisas sem misturá-las e entrar em confusões e polêmicas desnecessárias.



Dez curiosidades que você não sabe sobre Charlie Watts, baterista do  Rolling Stones - Jornal O Globo

Foi um pai zeloso, um marido presente (que mesmo em turnê nunca deixou de estar em constante contato) e leal aos seus laços e um avô amável. Seu porta-voz anunciou mais cedo a sua partida como tranquila ao lado de seus familiares em um hospital em Londres. E pediu a compreensão da sociedade para deixar os familiares em paz num momento tão difícil. 

Lamentamos essa perda numa ano que já é difícil por si só para cada um de nós. Deixamos vocês aqui com algumas das mais belas pérolas desta banda fundamental e influente no século XX e XXI. 

Goodbye & so long, Mr. Charlie Watts!

Com vocês, Charlie Watts e os Rolling Stones em alguns dos momentos mais icônicos & cools da história rock’n’roll:

 

 


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