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Noam Chomsky e as 10 estratégias de manipulação das mídias

Que o linguista, filósofo e ativista social norte-americano Noam Chomsky no auge de seus 92 anos é ainda um dos cérebros mais importantes e respeitados dos tempos é quase um “consenso” global.

Suas posições mais à esquerda – seu interesse pelo anarquismo e pela democracia – são ouvidas, discutidas e bem acolhidas tanto no universo acadêmico quanto nos meios mais populares de militância.

Enquanto figura no universo da Cultura Pop Chomsky foi lembrado no magnífico e inspirador filme Capitão Fantástico (2016) de Matt Ross e que tem como protagonista o excelente Viggo Mortensen (que inclusive interpretou William Burroughs no On The Road – clássico que foi esperado por longos anos até que foi realizado pelo cineasta brasileiro Walter Salles).


Happy Noam Chomsky Day!! (still from 'Captain Fantastic' movie): noamchomsky

Welcome to you're "DOOM!"


No entanto, viemos hoje nesse post destacar 10 estratégias de manipulação bastante empregadas pelos meios de comunicação de massas, principalmente no seio das democracias ocidentais, e que aparecem em algumas de suas falas, livros e documentários. O conteúdo do post não é novidade nesta rede (ele vem e volta), no entanto, sua atualidade permanece e achamos de bom tom trazê-lo para este blog.

Estejam alertas e identifiquem as estratégias em operação nos meios que nos circundam e ajudam a “formar” nossas percepções, vivências e opiniões. Os meus comentários pessoais ilustrativos – em acréscimo ao texto – aparecerão nesta postagem como aqui está – em itálico.

Eis as 10 estratégias de manipulação e controle social utilizadas constantemente pela mídia segundo o filósofo e crítico social Noam Chomsky:

1 – A ESTRATÉGIA DE DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia de distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, através da técnica de dilúvio ou inundações de contínuas distrações e informações insignificantes. 

Aqui costumamos popularmente chamar esse tipo de estratégia de “cortina de fumaça” e em tempos de bolsonarismo tornou-se um dos expedientes mais comuns utilizados pelo poder institucional. Como não lembrar daquela fatídica “reunião ministerial” de 22 de abril de 2020 na qual o, então Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles ilustrou  perfeitamente essa estratégia ao utilizar a expressão “vamos aproveitar para ir passando a boiada”  (mudar as legislações de vigilância ambiental, dentre outras coisas) enquanto a atenção pública – guiada pela mídia – estava nas mortes da pandemia? Aliás, esse é apenas um de uma imensidão de outros casos em que essa estratégia foi utilizada (Quer mais um outro bem rapidão? No dia em que o Presidente arranjou aquela “palhaçada” da exibição de tanques velhos para tentar intimidar o Congresso a aceitar a Emenda do Voto Impresso, houve a aprovação de leis que atacam a CLT e precarizam ainda mais o mercado de trabalho). 



A estratégia de distração é também indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética. Mantendo a atenção do público desviado dos verdadeiros problemas sociais, presa por temas sem importância real. (Bingo! O mundo da pós-verdade, da velocidade da desinformação e da Fake News ajuda muito a disseminar essa distração que mantém o nível cognitivo da população em permanente subnutrição passiva e obediente.)

Mantendo o público ocupado, ocupado, ocupada, sem tempo para pensar, de volta à fazenda como os outros animais (mencionado no texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas“).


2 – CRIAR PROBLEMAS E DEPOIS OFERECER AS SOLUÇÕES.

Este método também é chamado de “Problema-Reação-Solução”.

Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar uma certa reação por parte do público, com o objetivo de ser esse o mandante das medidas que se querem fazer aceitar. Por exemplo: deixar que a violência urbana se espalhe ou se intensifique ou organize atentados sangrentos, com o objetivo de que o público seja quem exige leis de segurança e políticas em detrimento da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário a retrocessão dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

(Autoexplicativo até demais, sigamos para os próximos… – só para não sair sem citar nenhum exemplo próximo de nós, quem é que viu o “presidente” da República sugerindo – para “acabar” com a alta do preço do gás – que a população siga as recomendações das práticas da milícia carioca? E quem é que nunca viu a polícia implantar “terroristas” em movimentos sociais para poder dar a desculpa perfeita à sociedade do aumento de seu contingenciamento, mudança de leis de vigilância, aumento do poder de violência e prisões arbítrarias em nome da ” paz e defesa da boa sociedade”?)


1 The Enemy Inside. Dear Edward Bernays and Noam Chomsky | by Gertrud Sol |  Medium


3 – A ESTRATÉGIA DA GRADUALIDADE.

Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente a conta-gotas por anos consecutivos. É assim que as condições socioeconómicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas dos anos 80 e 90: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que não garantem mais rendimentos dignos , tantas mudanças que teriam causado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma vez.

Isso me faz pensar um pouco no que o filósofo italiano Giorgio Agamben tinha escrito logo no começa da pandemia de como os lockdowns e o estado de emergência sanitário poderão estar criando precedentes sociais, jurídicos e tecnológicos para um maior controle totalitário dos cidadãos, monitoramento ostensivo de sua saúde e deslocamentos por dispositivos e até de suas opiniões pela vigilância nas redes sociais, pesquisas no Google, preferências e etc.

De grão em grão o Estado totalitário difuso enche o papo, consegue impor a sua tirania sutil e docilizada, consegue amortecer e domesticar os cidadãos furiosos e transformá-los em passivos consumidores e eleitores de uma democracia representativa de delegação dos poderes políticos.




E quem não se lembra do poema de Eduardo Alves da Costa que ilustra perfeitamente essa estratégia da gradualidade?

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
 


4 – A ESTRATÉGIA DO ADIAMENTO.

Outra forma de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como “dolorosa e necessária“,  obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é o empregado imediatamente. Segundo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência de esperar ingenuamente que “tudo vai melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderia ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para se acostumar com a ideia da mudança e aceitá-la resignado quando chegar a hora.

Soa familiar pra vocês?

Na época do Governo Temer uma palavra super em voga nos discursos era “austeridade”
(“não pense em crise, trabalhe!”) e logo depois veio a PEC do Fim do Mundo com o congelamento de investimentos sociais pelo período de 20 anos! Pensem nisso.

E vejam como que os políticos passam isso para nós atualmente, veja o aumento nos preços dos víveres, da gasolina, da conta de luz, etc, etc. Escutem como discursa o “Sinistro” da Economia, Paulo Guedes. E mesmo as tentativas adiadas de autoGolpe que Bolsonaro vem encenando… e agora essa ameaça para o dia da “Independência”.


Entrevista: 'Políticos usam mídias sociais para o bem e para o mal', diz  Chomsky | Especial Focas


5 – DIRIJA-SE AO PÚBLICO COMO ÀS CRIANÇAS.

A maior parte da propaganda direta ao grande público, usa discursos, tópicos, personagens e uma entonação especialmente infantil, muitas vezes perto da fraqueza, como se o espectador fosse uma criatura de poucos anos ou um idiota mental.

Quando mais se tenta enganar o telespectador, mais tende a usar um tom infantil.
 
Por quê?  “Se alguém se dirigir a uma pessoa como se tivesse 12 anos ou menos, então, com base na sugestão, ela tenderá, provavelmente, a uma resposta ou reação mesmo desprovida de senso crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos ” (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas” ).

Se você observar de perto uma parte da comunicação bolsonarista ilustra bastante bem essa ideia – que vem do Olavo de Carvalho, principalmente com as reduções e os palavrórios de xingamento. Isso me faz pensar, ao mesmo tempo, no que o artista surrealista André Breton falou sobre a relação entre enunciados ricos gerarem mundos mais ricos e enunciados pobres e simplórios estruturaram mundos empobrecidos.

Uma comunicação que trabalha sempre num nível rasteiro ajuda a manter cativo o público nesse mesmo nível rasteiro, acrítico e submetido à influência da autoridade. Pastores de igrejas,
coachs de negócio, publicitários e outros profissionais da retórica parecem empregar o mesmo método visando os mesmos fins, geralmente lucrando com a infantilização e submissão de outrem.




6 – USE A APARÊNCIA EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE REFLEXÃO.

Fazer uso da emoção é uma técnica clássica para provocar um curto circuito em uma análise racional e, finalmente, nublar o senso crítico do indivíduo. Além disso, o uso do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e receios, compulsões ou induzir comportamentos.

Lendo assim parece até algo meio Inception, certo?

Mas, o uso do tom, dos gestos e de algumas palavras e temas parece realmente surtir um efeito de reprogramação afetiva em alguns tipos de indivíduos. Novamente as igrejas (particularmente as neopentecostais, mas não só, é claro) ilustram bem esse tipo de manipulação. Os pastores conseguem até mover fiéis a lhes entregarem as chaves de casa e de seu próprio carro, dentre outras coisas.


Nas hordas neofascistas utiliza-se a estratégia do dogwhistle, que são gestos, palavras ou acenas sutis em determinados momentos públicos que fazem com que os seguidores fanáticos passem a latir e a querer morder. Atualmente passamos por muitas ocasiões do tipo. Vide as motociatas do “Genocida”.


Caiu na rede: a motociata da morte de Bolsonaro

7 – MANTENHA O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E MEDIOCRIDADE.

Fazendo com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e métodos usados para o seu controle e escravidão. (Estratégia muito utilizada hoje, principalmente entre os mais idosos que estão presos na “realidade” recortada e formatada para o WhatsApp como já comentei no primeiro ponto desta lista.)

Nessa entrevista aqui ele também fala sobre como as pessoas não acreditam mais nos fatos. 

“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de modo a que a distância da ignorância que planeja entre as classes inferiores e as classes superiores seja e continue impossível de preencher pelas classes mais baixas”. 

No caso atual, no tocante a Educação, já passamos do projeto da “Escola Sem Partido” ao aumento das escolas religiosas e militares que seriam modelo para a educação das classes baixas – além do discurso elitista do Ministro atual da Educação de que “Universidade deve ser para poucos” -, a crítica ao sistema de cotas e o crescimento das instituições de ensino privado em detrimento do público.




8 – ESTIMULE O PÚBLICO A SER COMPLACENTE COM A MEDIOCRIDADE.

Promover a crença do público de que é moda ser estúpido, vulgar e ignorante…
 

9 – REFORÇAR A AUTOCULPABILIDADE.

Fazendo o indivíduo acreditar que ele é apenas o culpado da sua desgraça, por causa da sua inteligência insuficiente, capacidade ou esforço. (E o que é a sociedade neoliberal da performance e do cansaço, teorizado pelo filósofo coreano de língua alemã Byung-Chul Han, se não essa sociedade que atomiza e particulariza o que advém historicamente e consequentemente de questões estruturais maiores?)  

Então, em vez de se revoltar contra o sistema econômico, o indivíduo se menospreza e se culpa (“Sou eu que não segui direito a cartilha, eu quem fracassei, eu que não joguei como deve ser jogado, etc”), o que cria um estado depressivo, um dos quais é a inibição da sua ação. E sem ação não há revolução!

A autoculpabilização é uma das armas mais eficazes para o comodismo e aceitação das regras impostas pelos grupos interessados em que você sempre perca o jogo que eles estruturaram dessa maneira.




10 – Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

Nos últimos 50 anos, os rápidos avanços científicos geraram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e os detidos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, a neurobiologia e a psicologia aplicada, o “sistema” tem um conhecimento avançado do ser humano, tanto na sua forma física quanto psíquica. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele próprio se conhece. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que aquele que o próprio indivíduo exerce sobre si mesmo.

Com isso crescem e capilarizam-se métodos de condicionamento social mais sutis que não precisam da violência ostensiva para surtirem o efeito esperado. Michel Foucault e Gilles Deleuze – mas também Walter Benjamin, Theodor Adorno, Guy Debord, Marshal McLuhan e outros filósofos e teóricos do século XX e XXI –  já teorizaram a esse respeito em suas obras.

Na literatura existe casos de sociedades distópicas que controlam seus cidadãos por meio da busca do prazer e da fuga da dor – fenômeno que inclusive infantiliza ainda mais os sujeitos sociais – como expostos em “Admirável Mundo Novo”, de 1932, de Aldous Huxley

Hoje, com o planeta inteiramente conectado na internet e nas redes sociais, esse tipo de controle e vigilância se dá em tempo real pelos smartphones, pelas páginas curtidas, pelas buscas no Google e por outros dispositivos pelos quais os dados produzidos pelos indivíduos vão dando coordenadas de seus comportamentos, modos de pensamento, gostos, necessidades e opções. 

Steve Bannon e a new alt-right, Trump, Bolsonaro e outros fenômenos políticos aconteceram com o uso deliberado e manipulador desses dados e informações privadas para construir vínculos e entender os medos e os padrões de comportamento do público.

Vivemos em tempos muito obscuros, mas conhecendo melhor essas estratégias podemos ter melhor chances escapar ao enredamento e aos jogos de poder que tem trucidado nossa potência e nossa liberdade, bem como ajudado a destruir nossas democracias.


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