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[Tradução] Entrevista com Jim Morrison

 

Jim Morrison não foi apenas um rockstar ou um sex symbol para adolescentes estampado nas revistas e publicações das mídias de massa. Além de compositor de canções atemporais e um atravessador de gêneros musicais, Morrison representou bem ao seu modo o xamã embriagado dos cultos do deus Dioniso.

Originalmente estudante de cinema na UCLA, o cantor conduziu os Doors no auge de uma reviravolta do espírito sessentista de paz & amor da “flower power” para uma perspectiva mais sombria e obscura cuja tragicidade remonta tanto ao teatro arcaico dos gregos quanto à poesia simbolista de Arthur Rimbaud, ao misticismo advindo da esfera de William Blake e à crueldade experimental de Antonin Artaud. Figuras de proa que o mesmo admirava e costumava parafrasear em declarações e entrevistas.

Há 50 anos de sua morte – ainda envolta em mistérios e “conspirações” – ocorrida em 3 de julho, a figura debochada do escandaloso cantor ainda encanta e influencia gerações de músicos, artistas e fãs do mundo inteiro. Muito embora a própria trajetória da banda norte-americana, tão extensa quanto a calda de um cometa no céu florido da contracultura de então, tivesse sido exatamente de 6 anos (1965-1971) e seis álbuns de estúdio.


Biografia lendária do The Doors honra os 50 anos da morte de Jim Morrison -  Diário do Litoral


Além disso, Jimbo (como gostava de ser chamado por seus amigos mais íntimos) ou o Mr. Mojo Rising (anagrama de Jim Morrison – quem duvida, basta conferir!), cultor de uma mitologia pessoal – I am the Lizard King, I can do anything! (Eu sou o Rei Lagarto, eu posso fazer o que quiser!) -, deixou publicado dois livros de poemas lançados no fim dos anos 60 (The Lords: Notes on Vision – Os Senhores: Notas sobre Visão – e The New Creatures – As Novas Criaturas -, que posteriormente vem sido editados juntos) e um terceiro que foi gravado no seu aniversário de 27 anos e que depois foi transformado em álbum da banda pelos seus parceiros remanescente (The American Prayer).

Persona polêmica e controversa, embora sensível, culto e inteligente, Morrison adoraria ter sido conhecido mais como um poeta ou cineasta do que propriamente um ídolo do rock. Chegou a se desanimar da pouca atenção que as obras receberam por parte da crítica e da imprensa, que preferia explorar o lado grotesco e sexual do ícone pop.

Com o envolvimento em eventos de “exposição indecente” e episódios de embriaguez pública, acabou sendo massacrado na imprensa americana e levado a constantes tribunais para defender a sua arte e a sua performance selvagem. O que custou ao The Doors a escalação de um dos eventos musicais mais esperados de então, o famoso festival de Woodstock, além de outras apresentações que legariam à banda milhões de dólares a mais. 

Metido em todas essas confusões e se sentindo aprisionado, cada vez mais alcóolatra e deprimido, Jim Morrison optou por abandonar a banda e tentar se reerguer e reinventar em Paris ao lado de sua namorada e eterna musa Pamela Courson. O resto da história… bem, vocês (ou boa parte de vocês) já sabem.


The Truth About Jim Morrison And Pamela Courson's Relationship



Jim abandonou este planeta REDONDO (não custa lembrar, né? ôrra…) aos 27 anos. Mesma idade de outros ícones culturais de seu tempo como Brian Jones (publicamos aqui a tradução de um poema dele em homenagem à passagem de Brian),  Jimi Hendrix e Janis Joplin, com quem entreteve uma amizade regada a altas doses etílicas.

Jim Morrison também será objeto de um novo documentário anunciado para 2022 ou 2023, o primeiro a enfocar em seu lado mais eclético enquanto artista e poeta e em cuja realização a própria família aceitou cooperar. Ainda sem título, mas a ser realizado pela Jam, Inc. and Gunpowder & Sky, empresa que cuida dos legados de Jim e outros artistas como John Lee Hooker e Janis Joplin, o documentário promete apresentar fotografias, filmagens e arquivos inéditos do cantor do Doors. 

Já nesse ano – onde foi se remorada a vida e a arte de Morrison com o quinquagésimo aniversário de falecimento – foi publicado o livro The Collected Works of Jim Morrison: Poetry, Journals, Transcripts and Lyrics ( “Os Trabalhos Completos de Jim Morrison: Poesia, Diários, Transcrições e Letras”, ainda sem versão brasileira), um calhamaço com 600 páginas com um apanhado de toda a produção feita em vida, incluindo fragmentos e notas marginais que saiu pela Amazon Books

Esta entrevista realizada com Tony Thomas e difundida numa rádio canadense mostra um Morrison sagaz, reflexivo e capaz de arriscar algumas previsões para o futuro (boa parte bem acurada, lembremos que estamos em 1970, gente, por favor…). Dentre os temas da conversa detectamos assuntos como as revoltas estudantis ocorridas nos EUA e no mundo, a crítica aos meios de comunicação, a incapacidade de fuga diante de uma sociedade crescentemente industrializada e computadorizada, perspectivas sobre diferenças geracionais e – ponto que pode ser espinhoso, principalmente para algumas feministas apressadas em tribunais de gênero e cancelamentos – a questão do protagonismo feminino.

De toda forma, apesar de potenciais polêmicas e até alguns anacronismos, a conversa e os pontos de vista expressados por Morrison podem interessar a muitos sendo úteis de várias maneiras.  

Prepare o seu estupefaciente de predileção e break on through to the other side!



*


Entrevista com Tony Thomas transmitida pela Canadian Broadcasting Company, realizada no Doors Workshop, em Los Angeles, em 27 de Junho de 1970:

 

Tony Thomas: Jim, o que a juventude idolatra hoje? No que ela acredita? Ao quê se agarram e o que eles esperam disso?

Jim Morrison: Não posso falar pelos jovens, mas uma conjectura seria as mesmas coisas que eles sempre celebraram como um tipo de alegria da existência, autodescoberta, liberdade, esse tipo de coisas.

T. T.: Bem, sempre há uma lacuna geracional em cada era, mas a lacuna agora parece muito mais uma clivagem definitiva. Os jovens de hoje parecem sentir e pensar diferentemente.

Jim: Yeah.

T. T.: O que você acha que causou isso?

Jim: Bem, isso possivelmente poderia ter uma base estritamente sociológica. Poderia ser que… ah, a então chamada lacuna geracional poderia ser resultado apenas do número muito maior de jovens. Acho que aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial. Acho que algo como mais da metade da população dos Estados Unidos agora é menor de 18 anos de idade, ou algo do tipo.

T. T.: Politicamente e filosoficamente, os jovens de hoje parecem sentir agora ideias definitivas sobre o establishment (…)

Jim: Uh-hum

T. T.: (…) velhos sistemas de governar as pessoas, e atitudes morais.


50 anos do importante1968
50 anos sem Jim Morrison: 'Era um artista completo', comenta fã  araraquarense | RCIA Araraquara

 


Jim:
Yeah. Quando eu estava no ensino médio e na faculdade, o tipo de protesto que está acontecendo agora não era sabido. Naquele tempo, ser um adolescente, ser um jovem era… não era nada, era como um eterno estado de limbo e acho que é surpreendente que em cinco anos o que aconteceu é que os jovens tornaram-se cada vez mais conscientes do poder e da influência que eles têm como um grupo. É realmente surpreendente.

T. T.: Te surpreende que exista tanta revolta nos campi deste país contra Washington e sua política?

Jim: Realmente me surpreende porque, como eu disse antes, quando eu estava crescendo, quando estive na escola, era totalmente desconhecido. Os estudantes realmente não tinham esse poder, mas se você olha atrás na história parece confirmar o fato de que toda revolução começou com os estudantes e se espalhou para os trabalhadores e não estou prevendo que isso vai se tornar uma virada drástica neste país, mas todas as indicações estão aí.

T. T.: A vida parecer ter se tornado mais evoluída e complexa. Estamos nos tornando mais computadorizados e desumanizados neste processo, e isso me incomoda. Pergunto-me como isso incomoda você e sua geração.

Jim: Parece haver uma tendência de retorno a uma espécie de perspectiva primitiva da vida, uma atitude mais tribal, e eu acho que é uma reação natural à industrialização. Mas infelizmente, acho que é um tanto ingênuo porque o futuro está se tornando crescentemente mecanizado, computadorizado – como você o chamou – e eu não acho que tenha qualquer ponto de retorno. É apenas questão de descobrir uma maneira de sobreviver e prosperar nesse tipo de sociedade. Não acho que exista qualquer chance de voltar atrás. E olhando desse modo também… o estilo de vida “hippie” é realmente um fenômeno de classe média, e não poderia existir em nenhuma outra sociedade, exceto a nossa onde há um excesso incrível de bens, mercadorias e tempo de lazer. Acho que essa é a razão porque as gerações que nos precederam imediatamente tinham as guerras mundiais e depressões para enfrentar, e nos últimos 10 ou 15 anos neste país há tempo e dinheiro suficientes para se viver um estilo de vida flagrante e ultrajante, o que era impossível antes.

T. T.: Jim, há um verso em seu livro de poemas que diz que “a clivagem dos homens entre atores e espectadores é o fato central de nosso tempo.” Acho que é inegável, mas eu me pergunto: não foi sempre assim com a sociedade?

Jim: Suponho que foi, mas com as mass media de hoje isso tornou-se mais imediatamente aparente. Acho que o que estava me preocupando nesse livro era o fato de que a maior parte das pessoas sentem-se completamente vazias e impotentes para controlar seus próprios destinos, em controlar o destino da vida humana em geral, e eu acho isso triste. Mais pessoas deveriam estar envolvidas, ao invés de designar todos esses poderes para uns poucos indivíduos. Penso que a pessoa ordinária, o que quer que isso seja, deveria ser parte nisso de algum modo, e acho que todos sentem que os eventos estão acontecendo sem seu conhecimento ou controle. Penso que é uma das tragédias de nosso tempo. Suponho que sempre tenha sido assim, mas agora apenas tornou-se tão óbvio, sabe? Decisões são feitas para você, as quais você não tem qualquer participação nisso. Apenas lamento o fato de que tantas pessoas estão contentes com viver uma vida quieta, bem-comportada e ordenada quando tantas injustiças óbvias – acho – estão acontecendo, e eles apenas parecem ignorar de algum modo ou não se preocupar absolutamente. E deixam acontecer sem sequer se tornarem envolvidas nisso. Acho isso triste.


Rare, Exclusive Live Recording Of The Doors' 'Twentieth Century Fox'  Surfaces, And It's Phenomenal! | Society Of Rock




T. T.: Jim, relevante com a sua teoria de que as pessoas deveriam se envolver mais com a vida, e portanto aproveitá-la mais, você escreveu um verso em que diz que “o espectador é um animal morrendo.” Isso não contradiz o que você disse anteriormente?

Jim: Não, isso diz respeito à mesma clivagem entre o ator e o público. Para mim, há algo incrivelmente triste a respeito de um bando de seres humanos sentados assistindo algo ocorrer. Apenas reflita a respeito. Amo filmes tanto quanto qualquer pessoa, mas o espetáculo de milhões e milhões de pessoas sentadas em sala de projeção e em frente de aparelhos de televisão toda noite assistindo uma versão reproduzida de segunda ou terceira-mão da realidade acontecendo quando o mundo real está logo ali em suas salas-de-estar ou logo ali fora nas ruas ou descendo um quarteirão em algum lugar. Acho que é uma ferramenta usada para sonambulizar ou hipnotizar as pessoas num tipo de sono acordado, mas penso que a maior influência na próxima década ou depois serão as pessoas – eu não sei como vocês irão chamá-los, exceto talvez os “conectores” – as pessoas que são aptas a reunir massas, massas imensas de pessoas num único lugar. Como testemunhamos em festivais de música pop nos últimos dois ou três anos, o tipo de pessoa que pode reunir multidões em um único lugar acho que serão as maiores influências na próxima década. Acho que o entusiastas do rock criaram provavelmente os eventos musicais e teatrais mais envolventes do planeta. Acho que eles são fantásticos.

T. T.: Parte da lacuna geracional é a diferença no que as pessoas gostam a respeito de música. Agora, rock e hard rock parecem ir de mãos dadas com o público mais novo e alguns de nós que são um pouco mais velhos estão confusos e intrigados com isso porque não podemos deixar de escutar esse som. Pode entender isso?

Jim: Na adolescência e na idade mais nova, os fogos estão queimando mais rápido, certo?, quando seu nível de energia provavelmente está no seu auge, então isso pede um tipo mais rouco e gritante de música. E estou com 26 anos agora, e eu estou ficando mais interessado em jazz para te falar a verdade. Não posso mais escutar o rádio. Gosto dos gatos velhos do blues e o rock’n’roll dos primórdios e algumas outras coisas, mas francamente acho a maior parte disso muito chato.

T. T.: É algo que me aflige um pouco. Parece que os mais novos novos curtem todo o mesmo tipo de coisa agora. E eu quero mais dos jovens do que apenas isso.


Saudação a Marshall McLuhan
O comunicólogo Marshall McLuhan, parafraseado por Morrison em meio à entrevista.

Society of the Spectacle (1974) | MUBI


Jim:
Sim, bem, eles estão sendo programados pelas rádios. Elas apenas tocam… as maiores estações de rádio, as estações de rock, apenas tocam 30 músicas de novo e de novo e de novo, 24 horas por dias, e foi provado que o que você mais escuta é o que você mais gosta, então não há nenhuma escolha envolvida. Alguém está programando isso.

T. T.: Então, nós somos vítimas da mídia?

Jim: Uh-rum. O que todo mundo deveria dizer é “O meio é a mensagem [alusão ao comunicólogo Marshall McLuhan], e a mensagem sou eu“. Essa é a resposta de todos para… você está pedindo uma resposta. A resposta é para todos se erguerem e dizerem “Eu sou eu” e estar totalmente ciente desse fato e deixar todo mundo saber disso, (…)

T. T.: Sim.

Jim: (…) de que você é você mesmo, e expressá-lo.

T. T.: Jim, nós estamos falando de comunicação, assistir a caixa [TV], etc, etc, ser vitimizado pela mídia. Bem, há um tipo de voyeurismo no ar hoje, e você tem um verso que diz mais ou menos que “todos nós estamos aflitos com a psicologia do voyeur”. Isso me parece trágico.

Jim.: O que isso diz é que, de algum modo, a vida torna-se restrita ao que pode ser visto no lugar do que pode ser tocado ou experimentado fisicamente. Eu não sei se isso é o natural medo do homem civilizado de envolvimento porque tocar pode levar para um monte de… tocar… envolvimento físico leva aos mais básicos e reais momentos existenciais da vida. Sexo, morte, amor – sabe? – isso não tem realmente nada a ver com apenas “ver” e “experimentar de segunda mão”. Você precisa estar lá e realmente fazê-lo, e eu… parece haver algum tipo de inclinação natural da civilização para evitar contato com o minucioso da vida.

T. T.: Nós não podemos falar sobre vida e não falarmos sobre sexo. Agora isso me confunde porque existe atualmente uma então chamada “nova moralidade”, e eu continuo olhando pra coisa tentando entender o que é.

Jim: Existe, no entanto… eu posso me lembrar que quando estava na escola ou mesmo na faculdade, que foi há alguns anos atrás, e… o sexo ainda estava na era vitoriana. Era algo bastante escondido. Se você suspeitasse que havia uma garota que era uma das que estavam fazendo, era algo do tipo conversa de vestiário e coisas assim, e eu acho que esse novo grupo de garotos que tem surgido… quero dizer, sexo sempre será um mistério e sempre vai ter seus complexos e coisas estranhas a respeito, mas eles são muito mais livres. Quero dizer, é aceitado como um fato da vida, e não algo a ser sufocado no privado por trás de portas fechadas e tudo isso. Acho que aí há definitivamente um novo estilo. Penso que é uma reação necessária a algum tipo de repressão bizarra. Eu não sei como que começou – sabe – ou quando, mas era totalmente não-natural e eu acho que isso é um aspecto da coisa nova que está acontecendo, um aspecto que é completamente benéfico. A repressão da energia sexual tem sempre sido uma das maiores ferramentas de um sistema totalitário. Se todo mundo fosse livre em sua atividade sexual, quantas pessoas iriam aparecer para trabalhar? Esse é o problema básico: se o progresso… o progresso da civilização, a evolução de uma cultura civilizada, é realmente válido. E… tem havido muitas conquistas, belas conquistas, mas a questão é: vale a pena? é válida a repressão? E é algo que todos devem responder a cada segundo de suas vidas.

T. T.: Quando você fala com os jovens, quando você entra em contato com eles… você os vê o tempo todo. Você tem a impressão de que eles pensam que a vida vale a pena, que a vida é boa e vale ser vivida?

Jim: Você te dizer a maldita verdade. Eu não conheço tanto pessoas mais novas. Realmente não conheço. Quero dizer… costumo sair com gente da minha idade, e realmente não tenho muito contato com pessoas mais jovens.


Jim Morrison, o xamã sexy do rock, é assunto de livros nos 50 anos de sua  morte - 25/03/2021 - Ilustrada - Folha


T. T.:
Bem, você tem 26. Para mim você é jovem.

Jim: Sim. Mas, eu estou em cima da colina.

T. T.: Gostaria de ser 10 anos mais novo?

Jim: Nãã… Acho… as gerações agora aparecem todo ano ou talvez todo mês ao invés de… costumava ser 10 anos ou algo do tipo, mas acho que as coisas estão mudando tão rápido, que há uma nova geração a cada ano pelo menos.

T. T.: Jim, acho que não há qualquer assunto que de algum modo defina melhor a revolução jovem do que o assunto da guerra. Não conheço ninguém que seja realmente a favor da guerra, mas hoje parece haver toda uma geração mais nova que se opõe absolutamente à própria ideia dela.

Jim: E provavelmente porque são eles que sempre lutam nas guerras. Eles que são a forragem humana para a máquina de guerra, e parece não haver outra maneira de contornar isso. Simplesmente não há causa. Estou certo de que toda a base da guerra que está acontecendo agora é econômica e acho que os jovens apenas estão cansados de serem grãos para o moinho, mas, sabe, é algo engraçado. Da confortável posição do aparelho de TV em sua sala de estar, a guerra é muito, não importa o quão horrível, muito glamorosa. É um grande drama. Vida e morte logo ali, uma luta, e estamos todos infectados desde jovens, sabe, com criancinhas correndo por aí brincando de guerra, cowboys e índios ou o que seja. De algum modo está tão enraizado em você desde o começo que há algo heroico em provar a si mesmo em batalha e todo esse tipo de coisa.

T. T.: O próprio conceito de “herói” parece ter mudado nestes poucos anos passados, não é?

Jim: Nenhum herói saiu deste conflito atual. É muito estranho. Bem, dificilmente há um suporte para isso, mesmo na imprensa.

T. T.: E os jovens não idolatram mais guerreiros como costumávamos fazer.

Jim: Certo. Em algum lugar de você, você precisa lidar com esses conceitos utópicos que a vida poderia funcionar sem todo esse conflito. Provavelmente não, mas quero dizer alguma coisa em nós entretém a fantasia de que o mundo poderia funcionar sem a guerra.

T. T.: Nossa sociedade sempre precisou da idolatria de heróis. Nos tempos atuais, onde os jovens procuram seus heróis? Que tipo de heróis [eles procuram]?

Jim: Eu acho que os novos heróis serão provavelmente ativistas políticos. Nos anos 20 eram figuras do esporte. Nos 30 e 40 eram estrelas do cinema, ases da Segunda Guerra Mundial, esse tipo de coisa, então os músicos se tornaram heróis. Acho que os próximos serão… provavelmente serão mais do tipo intelectuais e ativistas políticos e talvez cientistas e experts em computação, pessoas desse tipo, pessoas que tenham um entendimento e uma consciência intelectual e o conhecimento de como as coisas funcionam, como a sociedade moderna funciona, provavelmente serão eles os novos heróis. Eu acho que cada geração substitui a última em inteligência e consciência e acho que tem havido recentemente um passo gigantesco nas pessoas mais jovens que tenho visto enquanto viajo por aí. Ainda que eles sejam muito novos e ingênuos de muitas maneiras, acho que têm uma consciência e inteligência incríveis dos eventos que de longe ultrapassam as pessoas com quem eu cresci. E, sim, eu gosto de ser pessimista, mas eu penso do que eu tenho visto por aí, eles estão bem melhor equipados para lidar com o que está vindo. Bem, eles precisam estar.


T. T.:
Jim, falando sobre a vida hoje temos o negócio das relações sexuais, o relacionamento entre homens e mulheres, e todos nós nos maravilhamos em como isso tem mudado, o papel do homem na vida moderna e o papel da mulher na vida moderna. Nós temos até mesmo uma coisa horrível chamada unisex que me amedronta. Você pensa que há muito mais diferença no estilo de vida afetando a relação homem-mulher hoje?

Jim: Bem, sabe, quando você olha atrás na história, parece ser cíclico. Houveram vários períodos da História em que mulheres eram a maior força controladora na vida, sociedades matriarcais e todo esse tipo de coisa. Penso que as mulheres estão se tornando cada vez mais importantes. É ridículo tentar falar a respeito disso em termos tão simples, mas eu penso que a influência das mulheres está se tornando mais e mais sentida. Eu não estou seguro se posso me alongar nisso, mas você entende o que eu quero dizer. Eu acho que essa ‘viagem unisex’ é realmente uma desculpa. O que está acontecendo que é a vida está se tornando mais e mais feminizada – é o que eu acho…

T. T.: …e então o macho é agora menos masculino, porque ele não tem necessidade de ser muito masculino.

Jim: Sim, é verdade. E… sim, não há mais fronteiras a conquistar ou caçar e pescar e tudo isso. Não é mais uma coisa de sobrevivência básica. Acho que a vida está ficando cada vez mais feminizada.

T. T.: E mais leve para os homens.

Jim: Yeah.

T. T.: Você acha isso uma boa coisa?

Jim: Bem, eu acho que as mulheres tem tudo a mais que os homens. Eu acho que elas tem a ideia certa.

T. T.: E qual é?

Jim: Bem, menos inclinação a intelectualizar as coisas e necessidade de formalizar e idealizar a vida, e simplesmente aceitá-la e vivê-la.

T. T.: Tendemos a pensar nas mulheres como com olhos cintilantes e românticas, mas se você perceber a maior parte dos idealizadores e românticos são homens.

Jim Morrison: fãs prestam homenagem diante de túmulo no 50º aniversário de  morte do líder do The Doors - Ligado à Música
O túmulo de James Douglas Morrison no Cemitière de Père-Lachaise é um dos pontos turísticos mais visitados de Paris. Tive a oportunidade de ir lá algumas vezes.

Jim: É muito verdade.

T. T.: Você acha que isso vai mudar?

Jim: Penso que é cíclico, mas eu penso em um sistema altamente complexo e industrializado no qual estamos engajados, as máquinas tomando o lugar do combate honesto pela sobrevivência diária, e quando isso desaparece, então se tem a crescente feminização.

T. T.: Bem, você foi estudante de Cinema. Você estudou cinema na UCLA, e uma das coisas que você escreveu sobre o cinema é isso: “é errado assumir, como alguém o fez, que o cinema pertence às mulheres. O cinema é criado por homens para o consolo dos homens.” Quer se alongar nisso?

Jim: Quem faz todos os filmes? Quem comanda a cabine de projeção? É de algum modo o desejo masculino de dominar a vida ao invés de aceitá-la e fluir com ela, e eu acho que isso é responsável pela criação de filmes e muitas outras coisas.

T. T.: Os homens são dominantes nas artes, não são? Como escritores, compositores, atores – quase tudo.

Jim: Sim, há muito poucas artistas mulheres.

T. T.: Você acha que é sábio ficar fora disso?

Jim: Bem… sim, eu acho, embora seja uma contradição porque eu estou totalmente por fora do jogo da arte, mas eu acho que mulheres tem menos necessidade de reestabelecer uma conexão com a vida, porque elas são a vida.


Why Jim Morrison Was the Ultimate Romantic Rebel | AnotherMan


Escute aqui a entrevista original.

Tradução livre: IkaRo MaxX

 


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