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5 poetas brasileiros contemporâneos #3

Vá logo se acostumando pois toda quinta-feira será dia de 5 poetas contemporâneos brasileiros aparecerem por aqui, e acredite, existem muitos deles espalhados por esse Brasil.

Aliás, esta já é a terceira quinta, cê tá acompanhando? Se não, é só clicar aqui:

5 poetas brasileiros contemporâneos #1
5 poetas brasileiros contemporâneos #2 

Se você não está muito por dentro do que acontece na cena poética do país, pode relaxar, a provokeativa vai fazer questão de te mostrar tudo o que ela puder.

Este post foi pensado para agradar a todos: pessoas acostumadas com a poesia e pessoas que descobriram esse vício há pouco tempo (ou quem sabe até descobrindo agora).

Quem já está acostumado sabe que a poesia quando começa a entorpecer é uma das melhores sensações possíveis, talvez  “a mais fascinante orgia ao nosso alcance”.

Ou seja, a provokeativa se compromete a te ajudar a sustentar esse teu vício delirante e libertador, ou a te viciar nisso, caso você seja do perfil que está na fase de descobrimento, rs.

Adoraremos traficar a beleza sublime da poesia até você

Aproveita, clica no link de cada artista, siga-os e informe-se sobre os livros que eles escreveram e mande até uma mensagem, bem provável que eles te respondam.

Bom, vambora?


MAR BECKER

as mulheres são todas iguais
todas, sem exceção. as de ontem, iguais às de hoje, as de hoje, iguais
às de amanhã
que não se engane o meu amor, porque em breve
a ex dele voltará através de mim, para dizer pela minha boca o que não pôde dizer pela sua
eu farei o mesmo, pela boca da próxima
e assim sucessivamente
é uma maldição
entramos na vida de um homem como se fôssemos cada uma
uma só
com o passar do tempo nos tornamos todas iguais
juramos sempre o mesmo amor no começo
rogamos sempre as mesmas pragas antes de bater a porta, no final
sempre a mesma garganta
a mesma língua de gárgula
.
as mulheres são todas iguais
por isso quando caminho pelo bairro me reconheço nos olhos que me olham
sou a moça parada à janela, translúcida
sou a que atravessa o dia pensando em rosas
do povo
de hiroshima
de gertrude stein
de ninguém
estou na rua, mas estou em casa
estou em mim mesma como no meio de uma catedral vazia, e cada palavra que calo é um sino tangido pelo
silêncio
um chamado
.
li esses dias que os ciclos de sangue de mulheres que moram juntas tornam-se sincrônicos. vou mais longe, digo que também passamos a nos encontrar
em sonho. nesse tempo, trocamos de nome umas com as outras
(falando em voz baixa, para que não se rompa
o fio de prata)
.
as mulheres são todas iguais, basta olhar com atenção
veja, por exemplo:
pouco depois de se separar de ted, sylvia se suicidou usando gás de cozinha
mais tarde, assia, a nova esposa, repetiu o ato
a mesma cena
o mesmo gás
o mesmo homem
as mulheres são todas iguais
.
pelas mãos de salomé, também eu servi a cabeça de joão batista numa bandeja
pelas mãos de lucrécia bórgia, também eu misturei cantarella no vinho
e terminei o dia envenenando um marido
.
esta noite o meu amor se deitará com sua nova mulher. nela estaremos todas
repetíveis, labirínticas
espelhos
espectros umas das outras
de madrugada, será seduzido com beijos e cheiros, e quando descobrir que é a mesma de sempre
o mesmo antigo demônio fêmeo
nessa hora será tarde. já a terá fecundado
já terá continuado nossa linhagem má
numa filha

MARIANNA PERNA

O PÁSSARO DA MEIA-NOITE

Passos altos ao redor da casa
Nova noite em lua cheia
Vento sobre o telhado,
E tudo soa como saber-se refém
Do que precisa nascer.

Enquanto ouvia a voz da Poesia
Derramando frase a frase
O que o futuro lhe traria
Em seus tijolos
Havia culpas, dúvidas, traições
Reviravoltas e abismos inacreditáveis
Para iluminar o dia

Com uma espera diferente das anteriores
Com uma casa diferente da que sonhou
Com uma garganta pronta a abrigar o mundo
Passos e abraços feitos de terra molhada.
Constelações pintadas com o silêncio dos sem-teto ou nome

E o pássaro cantava
E o pássaro engolia a noite
Naquele dia.


KAREN MENATTI

Peço a gentileza para que me deixem carregar minhas pedras. Três ou quatro. Pedras. Peço a licença para que me deixem curvar as minhas costas em paz. Minha ancestralidade mole me permite o molde. Peço que o peso me puxe para o centro. Da terra e meu. Vértebra por vértebra. Essas, feitas de arame farpado, flexíveis por natureza, aprenderam a ferir espaço invadido. Nem pipa colorida escapa ao atrito brusco, inerente. O território. Minhas costas (o termo) contém em si pronome pessoal (muito embora tirando o pronome eu possa viajar países de ponta a ponta). Elas, as costas, as minhas, foram moldadas à mão.
Peço que os meus olhos toquem o chão e voltem a beber da terra. Da lágrima barrenta que banha os rios e que levam dentro de si o infinito contido no mar. Que toquem a primeira gota de sal. E que então possa verter o milagre.
Peço que o grito abafado com a mão da presteza cordial arrebente. Que exploda em agudos tão altos que rompam de vez a casca. E que a cigarra imersa em mim troque sua casca encharcadas de sins.

 


PEDRO SPIGOLON

PEQUENAS CANÇÕES

I

o homem é o bicho
à margem do mundo
o desejo do céu
tropeça seu passo
atravessa seu olho
desfaz seu laço

II

descontínuo na vida
nostalgia da morte
não vive como coisa
tem, antes, uma sorte:
é sempre capaz
de fazer outra coisa.


CLAUDIO WILLER

o poema, só quando for impossível traduzir um estado interior de outro modo

só para dizer algo inexprimível, como o cheiro de café expresso que tomava conta da Praça Roosevelt a provocar um retorno a invernos de outras cidades

e para transmitir como foi aquela encenação da Teogonia, do poema sobre os mitos arcaicos, a vida e a morte, o fim e o recomeço como etapas do mesmo ciclo luminoso

pois a Terra, aquela noite, era um bólido que atravessava acelerado o universo e uma torrente de chuva

as gotas da noite na partitura dos minutos estampada no para brisas

uma tempestade nos encerra no centro do planeta que tem a forma de uma garagem subterrânea

e os poemas são escritos assim, de madrugada

para dizer que nossos dentes são sensuais,

nossas mãos são tão leves

nossos corpos se tocam

o vazio é perfeito

e o mar está em nós

– agora devo habituar-me a inesperadas proporções e novas simetrias de estarmos juntos,

pois somos a extensão de um texto de frases entrecortadas

sobre o alvor fugidio, esse clarão que nos separa do amanhecer de um dia seguinte

quando o cheiro de outro corpo, o seu, me acompanhar e vier acrescentar-se à minha biografia


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