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[Tradução] Entrevista: O Jogo – uma entrevista com Michèle Bernstein, romancista e membra fundadora da Internacional Situacionista

 

por Gavin Everall, em 06 de setembro de 2013


Michèle Bernstein, nascida em 1932, foi, junto com seu primeiro marido Guy Debord, membra fundadora da Internacional Situacionista. Ela deixou os Situacionistas em 1967, tendo escrito dois romances, e fez várias contribuições para a revista Internacional Situacionista e gerou vários rumores. Desde então, ela permaneceu em silêncio na maior parte do tempo. A obra de Debord – sepultada pelo Estado e pela hagiografia, exibida este ano como ‘Guy Debord: Un Art de la Guerre’ (Guy Debord: Uma Arte da Guerra) na Biblioteca Nacional da França em Paris – se assenta, enquanto os anti-romances de Bernstein, Tous Les Chevaux du Roi (Todos os Cavalos do Rei, 1960/2008) e La Nuit (A Noite, 1961/2013), foram recentemente reeditados na França e agora foram ambos traduzidos para o inglês. Este último, traduzido por Clodagh Kinsella, foi publicado pela Book Works em Londres no início deste ano, junto com After the Night (Depois da Noite) – um desvio do original ambientado em Londres – pelo coletivo de artistas Everyone Agrees, que opera em Londres e Nova York. Nesta entrevista, Bernstein discute os Situacionistas, seus romances e a vida após 1967.



Ivan Chtcheglov, “Retrato metagráfico de Michèle Bernstein“, 1963, colagem, tinta e óleo sobre cartão, 63 × 49 cm. Cortesia Michèle Bernstein and Éditions Allia, Paris

The Night, by Michèle Bernstein, translated by Clodagh Kinsella / After the  Night, by Everyone Agrees - ArtReview


Gavin Everall:
Tous les chevaux du roi e La Nuit foram escritos logo nos primeiros anos da Internacional Situacionista. Foi ideia sua escrevê-los ou uma decisão coletiva?

Michèle Bernstein: É claro que foi minha ideia. Eu era totalmente Situacionista na época. O primeiro livro foi escrito no final de ’57 e ’58 adentro, e La Nuit 18 meses depois disso. Foram os anos do que eu chamei meu ‘lúmpen-secretariado’. Estávamos bastante falidos.

G. E.: Então, os livros foram escritos por dinheiro?

M. B.: E por diversão. Por dinheiro e diversão. Está tudo no novo prefácio para The Night. Devo lê-lo para você?

G. E.: Não, talvez apenas parte. Estou realmente interessado no relacionamento dos Situacionistas como a forma do romance. Você pode falar mais sobre isso?

M. B.: Os situacionistas consideravam a forma clássica do romance totalmente obsoleta. Como precisávamos de dinheiro, resolvi escrever um romance fake – uma piada sobre os romances populares da época, de Françoise Sagan e tantos outros. E depois segui com La Nuit – uma espécie de piada sobre o nouveau roman, divulgada principalmente por Alain Robbe-Grillet, com frases alongadas, sequências de tempo embaralhadas e frases infatigáveis. O nouveau roman era na época considerado o auge da modernidade. Quem sabe? Provavelmente éramos mais modernos, mas ninguém nos conhecia. Quanto aos nouveau romans, eles eram realmente um grupo? Isso foi bom para a mídia – eles estavam com os mesmos editores, nas mesmas fotos, mas eram todos bem diferentes. Alguns deles eu gostei muito.

 

Michèle Bernstein - Alchetron, The Free Social Encyclopedia
Michèle Bernstein durante entrevista para a TV francesa falando do lançamento do seu primeiro romance fake “Tous Les Chevaux du Roi” em 1960.
 

Tous les chevaux du roi | Amazon.com.br


G. E.:
Como La Nuit foi recebido pelos outros membros Situacionistas?

M. B.: Eu não sei. Eles não falaram sobre isso. Guy achou divertido.

G. E.: Agora que saiu a nova edição, como foi a experiência de relê-lo?

M. B.: Foi estranho. Achei que seria muito mais chato do que era, mas meus editores, Gérard Berréby e Danielle Orhan, disseram que gostaram de ler, então pensei por que não? E na verdade eu gostei. Vejo muito mais de mim nele do que do nouveau roman e Robbe-Grillet, e mais de mim e de Guy nos personagens de Gilles e Geneviève, e gosto bastante deles.

G. E.: Eu estava interessado neste aspecto autobiográfico disso…

M. B.: Sim, mas devo deixar isso claro: existem apenas pequenas pistas. A versão londrina, After the Night, me fez cair na gargalhada, mas contém três mentiras, duas das quais posso tolerar – e uma que não posso. Eles brincam que eu tenho 90 – geralmente prefiro dizer que tenho 200. O segundo já esqueci. O terceiro, eles dizem que tudo no romance realmente aconteceu. Não, não, não: nunca me intrometi nos casos (NOTAaffairs: podendo indicar tanto negócios quanto relações extraconjugais) do meu marido, como uma harpia de esposa burguesa! Mas depois disso, eles me disseram que o que realmente aconteceu estava no romance deles, não no meu. Então está tudo bem e todos concordam.

G. E.: O livro também se baseia não apenas no enredo de Les Liaisons dangereuses [Ligações Perigosas, 1782], de Pierre Choderlos de Laclos, que foi transformado em um filme dirigido por Roger Vadim em 1959, mas também em muitos outros filmes.

M. B.: Na época, estávamos obcecados por Les Visiteurs du soir [1942, lançado como The Devil’s Envoys nos EUA], dirigido por Marcel Carné. A sinopse desse filme e Les Liaisons dangereuses são praticamente as mesmas: o casal chega, um jogo é jogado, e então um deles começa a se apaixonar de verdade por outra pessoa, mas tudo isso faz parte de algum jogo transgressor – que é não o que foi comigo; em La Nuit não há dor no final, nada.

G. E.: After the Night do Everything Agrees sugere que Gilles e Geneviève estão envolvidos neste jogo de transgressão, que finalmente abandonam para se reunirem como um casal liberal tradicional. O que me interessou foi que você rejeita a ideia de transgressão.

M. B.: Eles abandonam? Eu não li isso. De qualquer forma, também não foi uma história de transgressão. No meu livro, Gilles é impedido de realmente se apaixonar por Carol. Se tivesse, isso teria sido o assunto de um romance tradicional. Em vez disso, é apenas um jogo libertino, sem transgressão verdadeira. No final, só resta um pouco de amargura, que como uma ressaca vai desaparecer. Isso é a vida.

G. E.: Na época, você tinha planos de escrever uma terceira versão da mesma história?

M. B.: Sim, eu queria que aparecesse novamente como uma história em quadrinhos, mas isso nunca aconteceu.



Fim da Universidade“, pôster de origem situacionistas que foi posto em circulação pelo Conselho para a Manutenção das Ocupações durante o Maio de 68 francês. Cortesia: BnF, Paris, Fonds Guy Debord
 


G. E.: Debord sempre foi escalado como a figura de proa do grupo; como teórico, estrategista, executivo e, mais recentemente, como secretário. Além dos dois romances, um artigo para o TLS [1964] e a digitação e contribuições para o Potlatch [1954–57], você publicou muito poucos artigos em seu nome, e ainda por mais de uma década você foi a mais próxima de Debord. Você tem um papel diferente: não tanto silencioso quanto secreto – posso sugerir uma presença poderosa e desconhecida? O quanto você influenciou a direção do grupo?

M. B.: Não poderosa. Útil, espero. Eu estava conversando muito com o Guy, em particular e em público, compartilhando ideias. Mas não escrevi muito, é verdade. Duas razões: uma, sou preguiçosa e não gosto de escrever – é muito mais fácil falar! Dois, o estilo da Internationale Situationniste [IS] tornou-se cada vez mais político e filosófico, um estilo que não domino muito bem. No final, acho que estava ficando alérgica à constante inversão do genitivo – misère de la philosophie, philosophie de la misère [miséria da filosofia, filosofia da miséria], você sabe. Tive a sensação de que os novos situacionistas o estavam exagerando como prova de sua credibilidade, de seu hegel-marxismo, e isso se tornou, para mim, o tédio da repetição, a repetição do tédio. Nem sempre me lembro do que realmente escrevi na revista, mas se parece ter sido escrito por uma garota jovem, um pouco esnobe, um pouco frívola, poderia ser eu.

Éramos todos marxistas, é claro – ainda somos. Totalmente sob o charme do velho – o gênio. Talvez ele se torne cada vez mais importante agora. Durante os 30 anos de sociedade afluente, aquelas pessoas não marxistas-liberais-capitalistas-espetaculares da publicidade diriam: olha, este mundo não está bem? Mas agora que estamos chegando, pelo menos no Ocidente, a uma pauperização desenfreada do povo, Marx não está muito presente? No entanto, eu não diria que Marx é o alfa e o ômega …

G. E.: Ao mesmo tempo que essa mudança de estilo que você descreve e o influxo de Situacionistas mais jovens, Debord tornou-se cada vez menos interessado em arte.

M. B.: O problema era não se interessar ou não pela arte. O problema era a ausência total de artistas no grupo após sua exclusão. Todo mundo novo era da sociologia ou era um puro revolucionário ou um estudante … As reuniões ficaram mais pesadas e também tinham menos inteligência e menos imaginação … mas fiquei [no grupo] até 1967.


32 idées de DrobeD yuG | guy debord, bistrot paris, mouvement dada

Le Signe du Lion: six small things - The Cine-Tourist
Os situacionistas em aventuras boêmias reunidos no Moineau – o bistrô que servia de ponto de encontro.
 

G. E.: Você foi um dos únicos membros que não foi expulso. Estou interessado em saber por que você saiu e, claro, o que aconteceu depois.

M. B.: Não, eu não fui expulsa. Eu que saí. Eu não posso te dizer exatamente o porquê, mas vou te dar três passos para isso. Primeiro passo: por volta de 1965, Guy e eu não moramos mais juntos. Estávamos casados há onze anos e você sabe o que acontece depois de onze anos – você se apaixona por outra pessoa. Não apenas um pequeno caso, mas realmente apaixonado. Então ele se apaixonou por Alice [Becker-Ho], e eu me apaixonei por alguém que não era muito importante, mas que era muito querido para mim na época. Mas Guy e eu continuamos nos vendo o tempo todo, apesar disso. Passo dois: eu o conhecia desde os 22 anos, e não o encontrava como o grande chefe, aquele de quem ninguém discordava. Eu poderia dizer não, e isso era entre nós, e isso era bom para ele. Mas, também o achava muito importante, e mesmo quando não concordávamos em particular, quando estivéssemos com os Situacionistas ele teria o meu voto.

G. E.: A ausência de artistas no grupo foi ponto crítico para você?

M. B.: Não. Senti falta deles depois da partida ou expulsão – particularmente Gil Wolman, Asger Jorn, Maurice Wyckaert, Gruppe SPUR e Jacqueline de Jong – mas não saí por esse motivo. Já disse o porquê, embora tenha sido escrito que era porque eu era sionista. Ser ou não ser sionista não tem nada a ver com isso; esse não era o ponto.

G. E.: Sua partida coincide com a Guerra dos Seis Dias?

M. B.: Os argumentos sobre esta guerra foram longos e todos estavam de acordo, menos eu. E minha posição era simplesmente esta: Israel não estava na origem do conflito militar, o Egito que estava. Não era a opinião naquele momento de todos os outros. A lei era simples, se alguém tivesse uma opinião diferente do resto dos Situacionistas, ou se prostrava ou desistia. Todos tinham que ter uma só voz. Como eu não queria mudar meu ponto de vista, e ainda não quero, desisti. Mas, depois, Guy me disse, você fica clandestina, como Jorn. Sim. Isso não significou muito, pois eu ainda era amiga de Guy, dando alguns conselhos em particular – alguns bons, outros desastrosos, mas sempre com o espírito de tratar um conflito com humor e não com violência. Em 68, isso significava encontrar cigarros nos subúrbios próximos de bicicleta, já que não havia mais cigarros em Paris, fazer e escrever um grande banner para pendurar do lado de fora da Sorbonne… ajudando com um pouco de dinheiro. Então, eu estava do lado de fora, mas mesmo assim fechei até 73. Então, decidi usar a minha liberdade e fui a uma festa para encontrar velhos amigos – Wolman, François Dufrêne e outros. De repente, chega alguém alto, vestido de preto, que eu não esperava de modo algum porque achava que ele estava na Inglaterra…


Paul Brightwell Twitterissä: "The founders of the Situationist  International, 1957. L-R: Guiseppe Pinot Gallizio, Piero Simondo, Elena  Verrone, Michèle Bernstein, Guy Debord, Asger Jorn, & Walter Olmo. Taken by Ralph  Rumney, who
O grupo de artistas e boêmios radicais que fundaram a Internacional Situacionista em Cosio d’Aroscia, na Itália em 1957. Foto tirada por Ralph Rumney.
Photographs of the Situationist International
Os encontros e congressos internacionais da IS se davam em bares ao redor do mundo, aqui podem-se ver dentre alguns situacionistas o poeta Raoul Vaneigem, Guy Debord, J. V. Martin e Michèle Bernstein.

Photographs of the Situationist International


G. E.: Ralph Rumney, a quem você não viu por anos…

M. B.: Não o via desde que foi excluído, ano em que fundamos a Internacional Situacionista. E eu não sei como isso aconteceu, mas uma amiga me disse que não tinha visto duas pessoas tão felizes em se verem. Fomos. Ele era viúvo, casado com Pegeen, a filha de Peggy Guggenheim, e agora eu estava divorciada. Eu estava comprando meu apartamento e não queria mais ser responsável, como esposa de Guy, por quaisquer custos financeiros ou multas que a revista da IS pudesse ter – na verdade, no final não tinha nenhuma, mas desde 68 tudo era possível; e [a editora] Lebovici Livre também estava dando muito mais dinheiro para ele, então eu não era mais útil para isso. No final de 73, Ralph e eu nos casamos. Debord ficou furioso e desta vez me excluiu para sempre.

G. E.: Ralph fala sobre isso em seu livro, The Consul [1999]. Guy não queria falar com você?

M. B.: Não. Desde aquela época eu estive em tenebrae. O lugar escuro. Com o Le Prince de Ténèbres (“O Príncipe das Sombras” filme de terror de 1987, de John Carpenter). E nos 20 anos seguintes, recebi dois cartões-postais de Guy. Um para dizer “obrigado“, porque enviei a ele muitos arquivos que tinha – livros, folhetos e assim por diante. Não tinha manuscritos dele, mas todo esse material impresso, porque sempre paguei a conta do armazenamento.

G. E.: E o segundo cartão postal?

M. B.: Antes de ir para a Gallimard, ele pediu meu conselho sobre uma editora. Achei que fosse uma piada.

G. E.: Você mencionou enviar dinheiro para Debord. Como você estava ganhando dinheiro? Certamente os rumores de horóscopos de corridas de cavalos não estavam financiando Debord ou a IS?

M. B.: Não. Os horóscopos dos cavalos eram uma piada de Guy para Henri Lefebvre, que não viu que era uma piada e colocou em um de seus livros. Mas é verdade, eu estava fazendo horóscopos e outras coisas para um jornal de corrida. Depois de me tornar uma publicitária, bastante boa, chefe de um pequeno grupo criativo na Havas – eles tinham cinco ou seis pequenos grupos como o meu. Foi um trabalho agradável: bastava encontrar ideias e escrevê-las.

 

 

13 Best Situationist International ideas | situationist international, guy  debord, jørn
Os situacionistas J. V. Martin, Raoul Vaneigem e Guy Debord improvisando com instrumentos percussivos.
SFSU Creative Writing Department - In Situ: Guy Debord, Raoul Vaneigem &  the Situationist Moment WHEN: Wednesday, October 24, 2018, 7 pm WHERE: City  Lights Booksellers, 261 Columbus Avenue, San Francisco  http://www.citylights.com/bookstore/?fa ...
Os dois principais teóricos do movimento da Internacional Situacionista, Guy Debord e Raoul Vaneigem, tiveram suas obras carros-chefe do movimento revolucionário de maio de 68 publicadas em 1967. “La Société du Spétacle” (A Sociedade do Espetáculo) de Guy Debord e “Traitée de savoir-vivre à l’usage de les jeunes générations” (o título original traduzido literalmente seria algo como “Tratado do Saber-Viver para uso das jovens gerações” que em português recebeu o sugestivo título de “A Arte de Viver para as novas gerações” e em inglês “The Revolution of everyday life”, A Revolução da Vida Cotidiana) de Raoul Vaneigem.
 


G. E.: Estou surpreso. Você achou esse trabalho difícil, saindo de um grupo que articulou uma crítica ao capital, que desenvolveu a ideia do espetáculo a partir de ideias de mercantilização e reificação e que considerava a publicidade uma das muitas manifestações do espetáculo?

M. B.: Não. Por que eu iria? O problema do capitalismo não está tanto na publicidade, mas na produção e distribuição. A publicidade apenas torna as coisas mais óbvias. Naquela época, as pessoas criativas eram, principalmente, muitos esquerdistas alegres e sem especialização. E eu era tão ruim com a hierarquia que paga pelos meus pecados publicitários …

G. E.: Então você permaneceu uma encrenqueira, talvez até mesmo deturpando o fluxo do capital?

M. B.: Um pouco. Eu poderia te contar como arruinei minha carreira na Havas, mas esta entrevista não é sobre isso. Mudei de empresas menores para empresas menores e, em seguida, trabalhei meio expediente como freelancer. De qualquer forma, o interesse se foi. Depois de um certo tempo, sabe-se que, para o problema número 22, pode-se aplicar a solução número 22. Entediante.

G. E.: Onde você estava morando?

M. B.: Em Salisbury, Inglaterra. Você ri, por quê? Oh, sim, Salisbury é muito azul …

G. E.: Sim, azul, muito conservadora…

M. B.: … e me mudei para lá depois de deixar Ralph. Encontrei uma casa que amei, The Old Parsonage, e fiquei.

Michèle Bernstein in Belle-Île-en-Mer, 1956.



G. E.: Quando nos conhecemos, você mencionou que teve um trabalho ridículo como crítica literária do Libération. Você pode me dizer como isso aconteceu?

M. B.: Sim, sempre achei que ser crítico literário é um pouco ridículo – provavelmente muitos escritores também pensam assim. Mas fui abordada por um amigo, que deu uma festa de 50 anos para mim, com outro jornalista de quem gostei. Eles perguntaram: ‘Michèle, você realmente acha que é desprezível ser jornalista?’ Eu disse ‘Sim’, e de repente percebo que os dois são jornalistas do Libération. Então, eu digo, ‘Claro, não se for para o Libération’. E então eu estava condenada – persuadida por aquele amigo a escrever uma crítica, que foi aceita, e então eu estava na equipe. O Libération estava em um estado então. Tinha sido maoísta, mas mudou para uma posição geral à esquerda, estava de cabeça para baixo, o que me convinha, já que eu não tinha intenção de desafiar a linha maoísta de um jornal sozinha. Nem queria desafiar os grandes elefantes da literatura francesa. Na maior parte do tempo, falava de recém-chegados. Nunca se diz algo desagradável para um iniciante. Isso seria injusto. Ou é “gostei” ou o silêncio.


G. E.: Mas houveram ocasiões em que você atacou os elefantes grandes. Você consegue se lembrar de quem?

M. B.: Algumas. Françoise Giroud, Michèle Manceaux, Régine Deforges, todas parte do establishment na época. Lembro-me de uma, que era uma antiga paixão de um político importante e cujo livro era apenas arejar a roupa suja. Desculpe, esqueci o nome dela. Mas eu não estava sozinha. Havia uma tradição no Libération de total liberdade e irreverência. Trabalhei lá 14 anos, até 1996, quando tinha 64 anos, o emprego mais longo que já tive, e gostei.

G. E.: Você estava trabalhando no Reino Unido. Você participou ainda mais do mundo da literatura francesa. Entrevistas, lançamentos, esse tipo de coisa?

M. B.: Não! Nunca fui a um coquetel ou coloquei na boca um petit four de um editor.

G. E.: Na maioria das histórias escritas dos Situacionistas, você sai e depois desaparece, deixando vagos rumores e fragmentos de sua vida com Ralph Rumney. Essa existência clandestina foi deliberada? O Libération sabia quem você era?

M. B.: Não. Serge July, o editor do jornal – um ex-maoísta e mais jovem que eu – não soube por dois anos que eu era a ex-esposa de Guy Debord. Apesar disso, consegui escrever o que gostava. Houve uma ocasião em que um dos meus artigos foi alterado, pelo especialista em música, eu acho: eu escrevi ‘elémentaire, mon cher’, e ele adicionou ‘Watson’. E eu vi no impresso e fiquei furiosa. Eles disseram, ‘é assim e assim, e ele pensou que o público francês não entenderia,‘ elementar, minha querida ’. Escrevi a carta de insulto mais linda que já escrevi na vida, e July disse que, a partir de então, ninguém poderia mexer em nada que eu escrevesse: ‘Michèle pega o livro que ela gosta, e fica intocado, desde que caiba na coluna.

G. E.: Então, houve um ponto em que você se tornou conhecida do Libération ou de um público francês mais amplo?

M. B.: Bem, havia um ponto com o Libération, mas para o público francês, não. Eles nunca souberam e eu nunca falei sobre meu passado situacionista. Mas exalava. Por exemplo, anos depois, quando estava olhando as cartas de Guy, percebi que algumas pessoas sobre as quais escrevi coisas boas acabaram sendo amigas dele. Eu estava encontrando esses escritores automaticamente.

 

Anúncio contido na revista Potlacht da Internacional Letrista em 1955: “Se você se acha um gênio ou se você estima possuir apenas uma inteligência brilhante venha para a Internacional Letrista

 

G. E.: Quando o Libération descobriu seu passado?

M. B.: Em 84, [Gérard] Lebovici [editor, financiador e amigo íntimo de Debord] foi assassinado. E July diz que quem sabe um pouco sobre isso deve escrever sobre Debord e Lebovici. Minha amiga, sempre a boca grande, diz: ‘Essa seria Michèle’. E July diz ‘por quê?’ Ela me contou mais tarde que o queixo dele bateu no chão. Suponho que ela estava exagerando.

G. E.: Você disse antes que não gosta de escrever, mas seus dois romances foram escritos rapidamente. E então, como crítica, você escrevia com facilidade, dentro dos prazos.

M. B.: Sim, mas é muito mais fácil escrever quando você não tem nenhum interesse pessoal no que está escrevendo.

G. E.: Você tem um relacionamento próximo com seu editor na França, Éditions Allia, que publicou uma série de novas edições e novas coleções de material situacionista. Você conversa muito com o Berréby?

M. B.: Conversamos muito. Certamente não o influencio.

G. E.: Você viveu e trabalhou com Guy ao longo da escrita de La société du spectacle (A Sociedade do Espetáculo, 1967). Você pode me dizer como foi publicado?

M. B.: Sim, Raoul Vaneigem [colega Situacionista] havia enviado seu livro a várias editoras e então foi aceito pela Gallimard, mas Guy era muito grande, muito orgulhoso para enviar um manuscrito e ser julgado por outra pessoa. No entanto, meu editor Edmund Buchet sempre foi muito gentil comigo e era um homem idoso encantador. Então, levo o manuscrito para ele, e ele o lê e mostra à esposa, e me diz: “Michèle, este é um livro muito interessante, mas você sabe que somos independentes, sem nenhum capital. Não podemos aceitar um livro que fará tanta perda.” Isso foi depois de Tous les chevaux du roi e La Nuit, então ele me perguntou onde estava meu novo romance, e eu respondi que ele o teria em breve, muito em breve. Ele ficou satisfeito, então eu disse, se você pegar o livro do meu marido Guy, eu prometo que qualquer dinheiro que você perder, você pode tirar com as vendas do meu próximo romance. E ele concordou.


Photographs of the Situationist International
Debord – no centro da fotografia – lê cercado por outros situacionistas como Raoul Vaneigem e Michèle Bernstein
 


G. E.:
Você mencionou Vaneigem, cujo livro The Revolution of Everyday Life ( “A Arte de Viver Para As Novas Gerações”, 1967), foi publicado um pouco antes de Debord. Vocês eram amigos próximos?

M. B.: Nós eramos amigos. Ainda somos. Mas ele veio depois, e não é como os amigos da minha juventude, Wolman e Dufrêne – e Debord – passando as noites nas ruas, ao longo do Sena, ou no Moineau – nosso covil, um pequeno bistrô – bebendo, falando, cantando canções antigas. Vaneigem, li todos os seus livros. Tenho algumas memórias esplêndidas, embora tema que agora não pensemos exatamente o mesmo. Eu ainda penso o mundo dele. Para ele: se o mundo se livrar dos capitalistas – société spectaculaire marchande [sociedade espetacular mercantil], será um mundo feliz. Para mim: se – SE – nos livrarmos deles, o mundo simplesmente ficará um pouco menos ruim. Mas certamente simplifico demais.

G. E.: Para voltar a Debord. O que você achou do manuscrito de La Société du spectacle na época?

M. B.: Achei esplêndido. Magnífico. E também muito importante.

G. E.: Você pensa que ainda o é?

M. B.: Foi tão avançado para a época e para o mundo em que foi escrito. Foi importante por muito tempo, de uma forma para sempre. Mas nada é tão definitivo que nada mais possa vir depois. Não sei o que Guy faria agora, especialmente se ele tivesse 30 anos. O mundo mudou. Ele não escreveria uma refutação, mas sim uma continuação. Ele diz em sua correspondência, em 1994, eu acho, que “suas opiniões seriam tão valiosas em dez anos quanto são agora“. Ele era modesto. sim.

G. E.: E alguém está cumprindo essa função agora?

M. B.: Não conheço ninguém que esteja analisando o mundo como ele é agora, como Debord o fez em 67.



Michèle Bernstein jogando xadrez com Everyone Agrees, London, 2013. Photo: Everyone Agrees



G. E.: Você não vê ninguém emergindo deste momento?

M. B.: Quando éramos a Internacional Letrista, éramos desconhecidos. E éramos desconhecidos no início dos Situacionistas. Sabíamos que éramos importantes, pensávamos que éramos os melhores. Se há pessoas tão boas quanto nós, elas também deveriam ser desconhecidas agora e, esperemos, explodir mais tarde. Mas tudo o que posso dizer sobre este momento é que estou bastante satisfeita por ter 81 anos.

G. E.: Por haver conseguido?

M. B.: Não, quero dizer, estou extremamente satisfeita por não ter que ver no que o mundo vai se tornar.

G. E.: Essa é uma visão muito pessimista.

M. B.: Eu não me importo em ser pessimista.

G. E.: Você acha que os Situacionistas eram pessimistas? Porque isso sugere, contra todas as evidências, que você perdeu o senso de diversão.

M. B.: Não. Nada é mais divertido do que ser pessimista. Quem são as figuras mais divertidas em inglês? Eu diria Jonathan Swift. Laurence Sterne, é claro. Você acha que eles eram divertidos?

G. E.: Sim, é claro, mas não totalmente pessimistas.



Avec Michèle Bernstein et Serge Korber... Retrouvailles au quartier latin !  dans Étonnez-moi Benoît !
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M. B.: Não, eles eram pessimistas. Eles sabiam que as coisas não eram perfeitas.

G. E.: Sim, mas também que encontrariam leitores que concordassem. Swift não era apenas um pessimista; ele sabia que encontraria leitores para compartilhar suas ideias e rir.

M. B.: Você acha que encontrar leitores é o suficiente para tornar o mundo bom?

G. E.: Anteriormente, você disse que só queria escrever sobre livros de autores desconhecidos. Você já entrevistou alguém?

M. B.: Quando fui contratada pelo Libération, eu disse: Nunca vou fazer uma entrevista. Não quero ir perguntar às pessoas o que comem no café da manhã. Eu abriria apenas uma exceção, para Christiane Rochefort, porque gostava de seus livros. Infelizmente, isso nunca aconteceu. Mas, fora isso, nada de entrevistas, nunca.

G. E.: E o que você, ou o que os Situacionistas acharam do formato da entrevista? Tão obsoleta quanto o romance?

M. B.: Obsoleta? Não. Que era tão baixa que nem se falava sobre.


Tradução livre: IkaRo MaxX

Veja aqui a entrevista original completa.

 


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