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URUBU EM CARNE VIVA – raro texto de 1983, do poeta Roberto Bicelli sobre o poeta Roberto Piva

Hoje é um dia inesquecível para o blog da Provokeativa por alguns motivos. E sim, vou fazer questão de numerá-los aqui, como um grimório. Afinal, uma somatória de feitiços foi necessária para que a nossa editora ganhasse vida, e devemos isso ao Roberto Piva e á todos os poetas brasileiros da década de 60 que até hoje mexem seus caldeirões na poesia atual do país – e eles fazem isso de diversas formas (talvez nem eles saibam exatamente o que fazem, ou sabem, sei lá, esses bruxos são fod*).

A eternidade tem seus métodos ocultos de levar pra frente seus aprendizados e maldições libertadoras, não é mesmo?

1. Foi na Biblioteca Roberto Piva que eu, Roger Tieri, conheci o Ikaro Maxx ,que tinha toda a ideia de criar a Provokeativa em mãos e sim, hoje é um grande parceiro, um cara que eu admiro profundamente, e nossas energias juntas, mesmo que aos trancos e barrancos, estão fazendo tudo dar certo.

2. Eu não teria chegado na Biblioteca Roberto Piva se não fosse pelo encontro que tive com a magistral poeta Beth Brait Alvim, que publicou em 2007 o livro “Visões do Medo“, cujo um dos poemas descrevia, em detalhes (sim, em detalhes) uma situação que eu vivi em 2017. Até o número do andar do apartamento onde aconteceu tudo estava descrito no poema. Eu juro que não foi acaso objetivo (prefiro acreditar assim, rs)

3. O meu primeiro livro de poemas, o “FULL FODA-SE” escrito junto com o Ikaro Maxx (são 15 poemas meus e 15 dele) conversam magicamente, e sem nada ter sido combinado, e isto foi uma grande porta de entrada para que a toda a magia da Provokeativa acontecesse.

4. Existem mais um monte de feitiços que aconteceram e ainda acontecem, muitos envolvem o grande poeta e editor da Editora Córrego, Gabriel Kolyniak (o guardião da Biblioteca Roberto Piva) e do Roberto Bicelli , o  grande “Dono” e motivo deste post, o magnífico poeta da década de 60, e de hoje, e de sempre.

Ikaro Max, Roger Tieri, Gabriel Kolyniak, Roberto Bicelli.

Palavras de Ikaro Max  sobre o encontro retratado nesta foto: “Mas que encontro esse, hein. Tive o prazer de receber o poeta Roberto Bicelli em minha casa, entre papos & papos sobre livros, anedotas, histórias pessoais dele, do Roberto Piva & dos amigos artistas & intelectuais, dentre os quais o Cláudio Willer e o Alberto Marsicano. Mostrou-nos fotos de suas viagens, incluindo uma na qual visitou o lugar, em Portugal, no qual o mago inglês Aleister Crowley teria forjado seu próprio suicídio (com que motivo? Experimento estético-social? Pura bruxaria? Estava fugindo das autoridades? Dos credores?) com a ajuda do poeta português Fernando Pessoa.”

Bom, é muito lero lero e nada de mostrar o bendito texto que o Bicelli escreveu sobre Roberto Piva, em 1983, no jornal da União Brasileira de Escritores, né?

Bom, antes disso é bom saber o que foi e o que é a UBE neste link abaixo:

TUDO SOBRE A UBE

E, finalmente, aqui vai o texto histórico, cedido gentilmente pelo autor.

URUBU EM CARNE VIVA (texto de Roberto Bicelli).

Em 63, quando Roberto Piva lançou “Paranóia” (Massao Ohno) todos se deram conta de que havia algo de novo em todas as frentes.
Fosse possível captar numa Polaroid Anímica as caras e bocas que se fizeram então imagino a galeria Lombroso Futurista que teríamos a examinar…
Para poucos foi o Satori. A certeza que ele vinha como divisor de águas da poesia.
Se Oswald de Andrade/Dr. Pilatos dizia-se ironicamente “um Virgílio um pouco mais nervoso no estilo”, Piva nos devolvia a poesia Sucuri-Cascavel. Aquela capaz de cair sobre nós da árvore da imaginação, de colear pelo asfalto paulistano, de triturar a cidade com seu amplexo de Titã e sua baba venenosa.
Os turistas intelectuais tinham razão de acreditar que cobras rolavam pelas ruas, que o diabo estava à solta.
Zilco Ribeiro disse-me, então, que pessoalmente Piva era uma pessoa dulcíssima. Recusei-me a acreditar, mas, na verdade, como o Brasil ainda era uma democracia, nosso herói só bebia guaraná e ninguém reclamava. Piva preparava a goela para talagar todo mel e toda merda que viriam a seguir.
Em 64, sai “Piazzas”, outra edição de Massao Ohno com enorme mudança! Onde estavam as fotos e ilustrações do genial Wesley Duke Lee? E os versos longos que exigiam o retângulo, os braços enormes do Homem de Borracha?
“Piazzas”, livro simples, fran-cis-cano: uma capa P&B com dois grampos sustentando um conteúdo próximo da poesia grega.
Depois, onze anos sem publicar e sem que nos déssemos conta disso! Tanta poesia em torno do homem… Piva onipresente, farejando, vivendo dionisiacamente para comer, beber, trepar, ler, instigar e arrebentar alguns focinhos que não lhe agradavam. Ou seja, fazendo poesia o tempo todo.
Quando, finalmente, escreve um livro “abra os olhos & diga ah” empresta os originais para um Amor cuja mãe, vendo aquela maçaroca de hieróglifos, encaminha-os para o destino que os críticos Karetas mais apreciariam: a lata de lixo! Tudo bem: perdeu-se um livro, escreve-se outro. “abra os olhos & diga ah” (novamente Massao Ohno), 1976.
Em seguida, uma sucessão de títulos; “Coxas”, “20 poemas com brócoli” e “Quizumba”.
Deste cumpre-nos falar: editado pela Global, com capa e ilustrações do extraordinário Hélio de Oliveira, arte final de Levi Leonel e com todos os direitos reservados a quem tiver a poesia como cúmplice.
Ao observarmos um grande mestre de Tai Chi Chuen em ação, temos a impressão de que ele está brincando, que aqueles movimentos jamais poderiam ser mortais. Na verdade, ele engole etapas, insinua possibilidades, negaceia… É o que sinto ao percorrer esta Quizumba que vai do conflito ao rififi: Piva assimilou a Poética Universal e aprontou com tranqüilidade de mestre seu destranque, seu bafafá, seu angu-de-caroço.
Poesia que vai do Heavy Metal à Bossa Nova, do Maracatu à Valsa Vienense.
Interessa observar a limpidez que Piva atinge em meio a esse estrupício todo. É o poeta no meio do Caos brilhando na cintilância estelar de seus poemas.
“Raça irritadiça”, Piva capta a geléia geral deste tempo e “só acredito na geléia genital”.
Depois de ter estoicamente permanecido oito anos sem sair de São Paulo, ele prega o retorno à Agricultura…
Profeta que sou acho que a primeira lufada da guerra atômica levará uma cama-de-gato do poeta, curvado no simples ato de plantar alecrim.
Este “Quizumba” -escrito em 81- encontra-o na maior exacerbação urbana, já com toques de roça total: “queria tomar pico, mas na roça/ queria virar mico sem a coça/ queria ouvir Chico lá na choça” …
Em Quizumba, Roberto Piva dá claros sinais de estar em pleno processo de iniciação, que leva o poeta-voyeur ao poeta-vidente. Reivindico o trocadilho e pontuo com versos de “Quizumba”: “mas o caminho de volta eu só conto/ a esse urubu em carne viva/ que grasna na sacada.”

Roberto Bicelli
Jornal da UBE- 1983

Os quatros livros de Roberto Piva citados por Bicelli no texto.
Ele vai “adorar” essa foto que eu escolhi dele, rs (parece que o Bicelli, além de bom poeta, também manja de técnicas para transformar o chiclete em um ioiô, ou elástico)

Quem conhece o Roberto Bicelli sabe que ele é um grande “Trickster“, uma espécie de Mago Clown da poesia brasileira, que todos gostam de ter por perto.

AHHHHHHH, antes que eu me esqueça vou divulgar o livro dele chamado “ANTES QUE EU ME ESQUEÇA” que é uma reedição do que foi lançado em 1977 (Feira de Poesia, São Paulo)

A edição desta vez está aumentada e foi publicada pela Editora Córrego, em 2017.

O lançamento da primeira edição de Antes que eu me esqueça, em 1977, pela editora Feira de Poesia, com poemas de Roberto Bicelli e desenhos de Guto Lacaz, foi um evento cultural singular na cidade de São Paulo, com a participação de amigos como Roberto Piva, Claudio Willer, Eduardo Gianetti da Fonseca, Luiz Fernando Ramos, Jorge Mautner e Nelson Jacobina. A filmagem do evento, feita pelo cineasta Jairo Ferreira, foi lançada como um minidocumentário. O lançamento aconteceu no Teatro Célia Helena, e ganhou contornos performáticos com a instalação de máquinas de fliperama no espaço do teatro e uma demonstração de lutadores de sumô, além da projeção de cenas de lutas de boxe em câmera lenta. Marcada pelo humor e pela exploração de diversos registros de escrita, a poesia de Bicelli reflete sua personalidade provocativa e irreverente. A terceira edição revista e fartamente ampliada desse volume de poemas reúne boa parte de sua produção poética. O projeto gráfico foi recriado por Guto Lacaz, que revisitou a obra 40 anos depois de seu lançamento, aproveitando parte dos desenhos originais.”

Primeira edição (Feira de Poesia, 1977)
Edição de 2017 (Córrego)

“Roberto Bicelli é formado em letras com especialização em literatura brasileira e em gestão cultural. Exerceu o magistério de 1975 a 1984 quando começou seu trabalho de gestão cultural na fundação nacional de artes (Funarte), onde foi coordenador adjunto ou interino em diversos períodos. Poeta autor dos livros “antes que eu me esqueça”, poesia (São Paulo: feira de poesia 1977/São Paulo Editora Córrego 2017, edição muiiiito aumentada), “O colecionador de palavras”, romance juvenil (São Paulo contexto 1987) e Egotrip, diário de viagem (São Paulo virgiliae, 2011). Literariamente, atuou, principalmente como membro do grupo que tem profícuo diálogo com a Beat Generation e com o Surrealismo constituído por Roberto Piva, Claudio Willer, Antonio Fernando de franceschi, Décio bar e outros – essa experiência foi narrada pelas jornalistas Camila Hungria e Renata d’elia no livro “Os dentes da memória –  Piva, Willer, Francesqui, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia” (Rio de Janeiro: Azougue, 2011)”

 

 


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