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5 poetas brasileiros contemporâneos #4

Quem já está nos acompanhando aqui percebeu que temos criado uma tradição semanal de virmos com 5 nomes de poetas brasileiros contemporâneos (em breve, estaremos expandindo a lista para universais e mesmo não apenas poetas, mas escritores, artistas, pensadores e gente que você provavelmente precisaria dar a chance de ouvir!).

No entanto, se é a sua primeira vez aqui, puxe o assento e se prepare para essa viagem, pois ela valerá demais o preço do ingresso (que, não custa lembrar, é gratuito!).

Por algum motivo você ainda não viu nossos outros posts com as listas? Não tem problema, só clicar aí embaixo e você terá acesso:

5 poetas brasileiros contemporâneos #1
5 poetas brasileiros contemporâneos #2
5 poetas brasileiros contemporâneos #3 

Os territórios da poesia são tão amplos e diversificados que provavelmente essas listas trarão sempre novos nomes e alguns já um pouco ou tanto conhecidos. Apesar de ser considerado durante a contemporaneidade um “gênero minoritário” e editorialmente “não-lucrativo”, a poesia possui um alcance que não perpassa apenas o espaço tanto quanto afeta e trabalha o tempo.

A verdade é que por possuir diversos modos de se criar, produzir e fruir, a poesia é responsável não só pelo reencantamento da vida, mas pelo surgimento contínuo de novos e novas escritores/as, bem como por tocar diversos públicos pela apresentação de objetos e cenas sob diversas perspectivas estilísticas  e usos da linguagem.

Dito isto, procuramos expor em nossas séries um pouco dessa gama de variação e abordagens na poesia, de modo a tornar o público mais e mais ciente da excelente qualidade da produção contemporânea.

Para conhecer um pouco mais de cada artista/poeta citado é só clicar nos nomes e aproveitar a viagem de exploração!

Preparados para a trip desta edição? Então, vamo!


TÓIA AZEVEDO

 

primeira confissão

não tinha muito

o que falar
então inventei que
odiava minha
mãe

 

a santa levantou a saia
para Hilda H.

não te moves de ti

ela disse uma vez
nos garranchos pingando tinta
na porca que guincha
no sangue
vindo das entranhas
esco
rri
do
por entre as partes
sou parte casa
sou parte rua
parte me
em                       duas
a estranha concepção
pueril do mundo
eu entendo
estraga o sexo
traga o cigarro
vence a comida que ainda pode ser comida
come os cantos as bordas
as linhas
a trama intricada a cobrir
essas saias
obviamente peroladas
obviamente pedindo para serem comidas
o ato de mastigar é um desafio
saia de ti por um instante
move terra morra
deus por entre os morros
                      os vales
as
     depressões
coxas barriga peitos
a virgem que se aconchega entre suas pernas
o cerne vermelho
a toalha rendada bordada por beatas
(elas que se danem)
a porca ainda a guinchar
por saber
saber demais

(* poemas presentes no livro de estréia Meninas Loucas Não Vão Para O Céu, em breve a sair pela Provokeativa)


RUBENS ZÁRATE

ANTERAS SÃO AS PARTES TERMINAIS DOS ESTAMES DAS FLORES

os dias fortemente carregados
de vermelho podem servir de
alimento para algumas feras

através de uma rara forma de
iridescência que se mostra como
as auréolas mais ou menos
circulares das religiões dos
leprosos

quando na febre dos bairros
mais afastados cadelas
amareladas abrem-se
ventralmente para lentos rasgos
em sua seda escura

& uma ocasional liberação de
odores faz parte ativa da
fermentação dos azuis &
violetas deste final de tarde

:: meninas delicadamente
esmagam as cabeças das
bonecas ::

:: insetos zumbem ferozmente
sobre as carnes dos açougues ::

 

[ELES ESCREVEM, ESSES RELÂMPAGOS]

 

Eles escrevem, esses relâmpagos
na carne. Eles escrevem na treva ofuscante da noite
da carne. Eles se escrevem a si mesmos.
Essas luzes,                  
                 esses coriscos se escrevem
na carne, na treva da noite da carne. Luzes
                                   [coriscantes, essas lâminas
na pele, na carne em treva do poema,

essas lâminas se escrevem a si mesmas.
Essas luzes fugidias,
                          essas facas,
                                         esses
dentes de cobra negra & sinuosa.
                          Essas adagas se escrevem na treva,
punhal subterrâneo.

Essas caudas de escorpião negro
que se escrevem a si mesmas, facas luzindo no breu,
esses gestos de relâmpago, para baixo & para dentro,
essas agulhas de aborto.

                             Essa carne sangrenta berrando
nos ganchos dos açougues. Essas luzes consoantes se
escrevem a si mesmas,
na treva ofuscante da noite
                                     de seu próprio poema. Coriscos
afiados, essas arestas elétricas sobre tuas curvas de gata,

essas adagas se escrevem na pele. Facão
enterrado no jardim, na treva da noite da terra,
no sangue das ameixeiras sob a carícia de um machado,

esses relâmpagos se escrevem. Borram-se
em sua própria seiva negra, escrevem-se
a si mesmos & se rasuram. Escrevem-se & nunca se
                                                                   [apagam:

a cicatriz de um clarão não sé fecha.

 


NATÁLIA LUNA

 

Hoje a luz invadiu com o dia chamando pro lá fora
Você, quando por ali passa
E dá mais vida às cortinas
A máquina enxagua a casa inteira
Para dizer que dou ordem na casa
Quando sentada na sala
Você, quando por ali passa
Deixa um bocado de si
E eu pego pelas mãos seus rastros
Como coisas diáfanas metafísicas táteis
Que ficam dando sustentação
No momento da suspensão
Do corpo que revolve a si
Porque por ali você passa
E acende o rodopio
Das coisas que se remexem
Na máquina de lavar
Para dar o último suspiro
Sendo chamada para o lá fora
As coisas voltam ao seu lugar
Porque por ali você passa
E devolve ao ar o ímpeto
Que eu pego pelas mãos
E rodopio na luz calma
Todas as coisas que são diáfanas
Que ficaram na cama
Porque por ali você passa
Você, que devolve à luz
Sua hora mais rara

*

 

Hoje a luz invadiu com o dia chamando para o lá fora. Você, quando por ali passa dá mais vida às cortinas que dançam no campo de visão do corpo que desperta repentino e amanhecido restabelece todas as rotações na falta de programação do mundo. A máquina enxagua a casa inteira para dizer que dou ordem na casa quando sentada na sala. Você, quando por ali passa deixa um bocado de si e eu pego pelas mãos seus rastros como coisas diáfanas metafísicas táteis que ficam dando sustentação no momento da suspensão do corpo que revolve a si porque por ali você passa e acende o rodopio das coisas que se remexem na máquina de lavar, para que eu dê o último suspiro sendo chamada para o lá fora. As coisas voltam ao seu lugar porque por ali você passa e devolve ao ar o ímpeto que eu pego pelas mãos e rodopio na luz calma todas as coisas que são diáfanas e que mais têm alma porque têm olor e são táteis e coisas calmas, que ficaram na cama porque por ali você passa. Você, que devolve à luz sua hora mais rara, que restabelece as luzes da casa com os sentidos expostos, no desejo paulatino de te ver para te ter e de te querer porquê.
[23.10.17]

 


FLORIANO MARTINS

Floriano Martins | Saatchi Art

 

Peripécias delirantes

 

Um dia eu deixo teus olhos riscarem um molde de meu corpo.
Como se fôssemos escalar as escarpas do horizonte ou subir
pelos invisíveis fios da escuridão que sopra em nosso quarto.
Um dia os teus olhos se confundem com as formas que não
distingo por entre as frestas da tábua corrida sob nossos pés.
A tua aura é uma lamparina repleta de símbolos e vogais,
pequenos insetos cuja disciplina veste a mobília de encanto.
As tuas proezas são improváveis e temperam os meus sonhos
enquanto o nosso quarto de brinquedos tilintar as sombras
que emergem de cada salpico do olhar para o vazio que intui
nossa infância sacrificada em um bosque de névoa e pólvoras.

 

Pequenos caprichos da imagem

 

Um dia desses o céu não me dirá mais aonde vai
quando não o vejo. Soletro sua ausência no vazio.
Deve haver uma réstia sob a cômoda, uma dobra
retida pelo espelho, uma anotação em seu diário.
Em um desses dias faço a cama à espera do céu.
Não me importa quão longe ele tenha ido daqui.
Saberei reconhecê-lo quando o lençol ondular.
O céu ama a deriva tanto quanto o ninho refeito.
Eu amo a intempérie que ele me traz de viagem.
O resumo náutico de suas palavras extraviadas.
Aprendi com ele a não dar por findo nada na vida.
Tampouco a crer na fábula do ir e vir. Sempre achei
que o melhor truque do céu é não estar ali sempre,
por mais que acreditemos em sua presença perene.
O tempo que perdemos a explicar o que amamos
é o mesmo em que o céu se esvai sem motivo algum.

 

Mares avulsos

Quando te vejo estás o mais alto possível.
O teu céu não se prende a fogo ou chuva.
Observo as tuas árvores dançando ao redor
das estações e o grito repetido dos pastores.
Quando te beijo estás rente aos meus lábios.
Ou ainda menor, para que eu me curve
e reconheça tuas vértebras a cada sussurro.
Quantas vezes fomos o osso consentido,
a trégua revelada e uma boa safra de grãos.
Quando te elejo o espelho emite pérolas
a todos os destinos onde possa me alcançar.
Eu amo as lágrimas que portam teus seios.
Eu rezo para que te vejas sempre outra.
E costuro o teu nome, que desconheço,
no travesseiro buliçoso de nossos reflexos.

 


ROGÉRIO SKYLAB

Centro Cultural da Juventude recebe Rogério Skylab | Secretaria Municipal  de Cultura | Prefeitura da Cidade de São Paulo

Deixa ficar

O então secretário de James Joyce, o recém-chegado de Dublin, Samuel Beckett, estava escrevendo, certo dia, o que Joyce lhe ditava do Finnegans Wake, quando alguém bateu à porta e Joyce disse “come in”. Beckett, que não ouvira a batida, escreveu “come in” como se fosse parte do que Joyce lhe ditara; um pouco depois releu a Joyce a parte até então escrita e este estranhou o “come in” ali no meio do texto, perguntando a Beckett o que era aquilo. — “É o que você ditou”, respondeu Beckett. Joyce pensou por algum tempo e, percebendo que Beckett não ouvira a batida da porta, disse: — “Deixa ficar”. E Beckett escreveu: “deixa ficar”.

 

Vitrines de Domingo

Moro entre coisas efêmeras
num quarto de pensão impossível.
Ontem cedo matei dois ratos.
Aí está minha metafísica.

Sou um poeta errado.
Consumi muito de minha vida
deitado na cama e me masturbando.
Escrevo só para fazer de conta que vivi.

Olho pela janela do quarto
as vitrines fechadas da cidade.
Amanhã estarão repletas de luzes,

mas hoje adormecem como se ninguém as visse.
E mostram-se taciturnas, absurdas,
essas vitrines de domingo que eu olho tanto.

 

Madrugada

Saúdo também a madrugada.
Infelizes os que têm o sono pesado.
Esses nunca vão saber
de que é feita, de que material,

quais os ruídos, os pensamentos
loucos que a perpassam,
que flor exótica, cheia de caprichos,
é essa madrugada fria.

Não falo da madrugada dos namorados.
Porque esses só têm os olhos para si.
E eu olho o vazio.

Eu estou no coração do vazio.
Madrugada fria, minha, absoluta.
De onde um dia nunca mais retornarei.

 


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