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5 poetas portugueses contemporâneos

Quem já está nos acompanhando aqui percebeu que temos criado uma tradição semanal de virmos com 5 nomes de poetas brasileiros contemporâneos.

Contudo, a Provokeativa anuncia com êxtase e vigor a sua primeira lista contendo poetas portugueses (e em breve de mais países falantes do português)!

Puxe o assento e se prepare para essa viagem que nos levará além-mar nas terras das letras lusitanas, e se prepara que Portugal não é só (e se fosse só já seria muito, convenhamos) Camões, Pessoa e fados. Inclusive os autores surrealistas portugueses estão dentre nossos favoritos de todos os tempos (vide o Cruzeiro Seixas abaixo – e leia aqui nossa matéria sobre o Mário Cesariny.)

Por algum motivo você ainda não viu nossos outros posts com as listas? Não tem problema, só clicar aí embaixo e você terá acesso:

5 poetas brasileiros contemporâneos #1
5 poetas brasileiros contemporâneos #2
5 poetas brasileiros contemporâneos #3 
5 poetas brasileiros contemporâneos #4 

Os territórios da poesia são tão amplos e diversificados que provavelmente essas listas trarão sempre novos nomes e alguns já um pouco ou tanto conhecidos. Apesar de ser considerado durante a contemporaneidade um “gênero minoritário” e editorialmente “não-lucrativo”, a poesia possui um alcance que não perpassa apenas o espaço tanto quanto afeta e trabalha o tempo.

A verdade é que por possuir diversos modos de se criar, produzir e fruir, a poesia é responsável não só pelo reencantamento da vida, mas pelo surgimento contínuo de novos e novas escritores/as, bem como por tocar diversos públicos pela apresentação de objetos e cenas sob diversas perspectivas estilísticas  e usos da linguagem.

Dito isto, procuramos expor em nossas séries um pouco dessa gama de variação e abordagens na poesia, de modo a tornar o público mais e mais ciente da excelente qualidade da produção contemporânea.

Para conhecer um pouco mais de cada artista/poeta citado é só clicar nos nomes e aproveitar a viagem de exploração!

Preparados para a trip desta edição? Então, vamo!


Raquel Nobre Guerra

Pura

esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo

esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém


 

Hei de chegar aos subúrbios navegando neblinas.
Juntos conquistaremos a urbe
Com os passos seguros
da inocência sobre o terror quotidiano.
Havemos de julgar impunes
com penas de abraços forçados;
abrir prisões a quem, inseguro,
teme a Liberdade.
Havemos de renovar personagens em cada rua;
traidores, heróis, anónimos suicidas
entregando-se à espiral do desespero útil;
líderes tímidos e velhos adolescentes
calejados de normas. Na penumbra elevar-se-á a sombra
esguia da Utopia com um crescendo de um sax.
Anunciará o Apocalipse, a nova harmonia dos puros
e a luz será limpa e clara como na noite fria
e o ar será quente e denso como o ventre das estrelas.


Vera Lúcia Pedroso Lima

Embalem-me com a mesma certeza
com que transferem tijolos à distância
mão na mão em processo contínuo e atento
Icem-me como quem eleva a tinta
 roldana acima
essa tinta que se agita e o acrobata detém
Soldem-me na vida, como se fosse aço,
como se de ferro se tratasse
Acariciem-me, como quem verifica a lisura da madeira na mesa dos comensais
Torçam-me com chaves de todas as nações.
Sejam fortes, perseverantes.
Demorem na construção e nos cuidados,
não descurem pormenores nem atenções
Olhem-me, agora, com orgulho das noites em claro,
dos músculos doridos, das unhas negras
Olhem-me agora
que a obra é vossa.
 



 
LUX IN LIBRIS

 
que documento antigo nos falará do coração
das tentativas de enxertar a árvore com a costela do meio
e com aquilo que foi numa outra terra e numa outra ainda anterior
o pecado imaculado de pensar falando
sem o utensílio e o ornamento de dizer fiat lux
oferecendo às mães a árvore e não o fruto
que nos levará de novo à claridade?

 


 
Quando o homem atinge
aproximadamente a sua medida
rebentam as lágrimas nas mais altas serranias
e assim nasce
algures um povo
um espelho de prata
na vastidão de um leito.
Uma espécie de descoberta
inútil
mas que sempre será celebrada
como uma imensa revoada de pombos.
Nada a fazer
o palhaço
está caído entre os seus símbolos
a gritar para além do vidro
à chuva
sobre a evidência da terra empapada.
Um homem
um fruto
ou melhor
um minúsculo som
engaiolado na janela
aberta
na tua carne fremente.
 


 

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