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A arte de rua de Shamsia Hassani

Em sua conhecidíssima e cultuadíssima canção Quem Não Tem Colírio (Usa Óculos Escuros) o mago elétrico da contracultura baiana Raul Seixas já cantava: “Quem não tem papel, dá recado pelo muro“.

E apesar de provavelmente não conhecer o cantor e compositor baiano, o recado foi realmente assimilado e dado no muro por artistas como a afegã Shamsia Hassadi (Teerã, Irã – 1988), considerada uma das primeiras grafiteiras e artistas de rua daquelas bandas. 

Shamsia Hassani - Shamsia Hassani added a new photo. | Graffiti, Female  art, Graffit
“A Arte está mudando as mentes e as mentes podem mudar a sociedade, não eu!”

E não apenas isso.

Desde que tem mostrado os seus trabalhos nas ruas de Cabul e em outras cidades afegãs – e logo no mundo – Shamsia chegou a se destacar e ser reconhecida como uma das vozes mais impactantes na defesa dos direitos das mulheres no Afeganistão. Ela conseguiu igualmente a proeza de, em 2014, entrar para uma lista das 100 pensadoras mais importantes da atualidade global, lista essa organizada pela revista Foreign Policy, devotada a análises de políticas externas. Juntem a isso o fato dela estar num coleção de retratos Good Night Stories for Rebel Girls de mulheres que fazem a diferença no mundo.

Demais, concordam? 


Shamsia Hassani, the graffiti woman who stands up to the Taliban in A…
SHAMSIA HASSANI, A ARTISTA AFEGÃ - Alessandra Espanha


Apesar de ter nascido no Irã, sua família – que é oriunda de Kandahar, no Afeganistão – migrou para lá para fugir das guerras.  

Apesar de não ter conseguido estudar o tipo de arte que gostaria Shamsia conseguiu estudar arte tradicional na Universidade de Kabul onde se tornou professora de escultura. A artista começou a explorar a arte dos muros em dezembro de 2010, após ter sido instruída num curso ministrado pelo grafiteiro britânico Chu, curso esse coordenado pela Combat Communications. 

Shamsia logo adaptou as técnicas do grafite e dos aerosóis para sua realidade em que conseguir tintas e materiais seriam caros, além de ter desenvolvido um estilo que poderia ser realizado em torno de 15 minutos para evitar maiores problemas com a polícia ou com os grupos militarizados que atuam no país como o Talebã que recentemente, depois de 20 anos, retomou o poder.

Grafite feito na Suíça

Shamsia Hassani: a artista afegã que desafia o machismo através do grafite  nas ruas de Kabul

Com essa reviravolta no país inclusive várias artistas – como já falamos um pouco por aqui – andam vivenciando o inferno de um regime extremista e fundamentalista que tem a misoginia como prerrogativa social. 

Algumas das imagens da arte de Hassadi expressam essa ambivalência da luta por dignidade existencial e social além da mera sobrevivência física, e conjugam aspectos tensos do medo extremo, do desespero e da repressão (todo um conjunto de dores e opressões sentidas por mulheres – e outros segmentos sociais, é claro – ao redor do mundo em diversos contextos) bem como traços e sementes de esperança por dias melhores. 

Os trabalhos de Shamsia Hassani expressam emoções contrastantes: esperança e desgosto, liberdade e medo. São em sua maioria figuras geométricas em cores vivas. Cílios longos e grossos caem sobre os olhos fechados. Cabelos que lembram os tentáculos de Medusa emergem de debaixo do lenço na cabeça. As figuras não têm boca, muitas vezes incorporam elementos da natureza ou instrumentos.

Segundo a artista, em entrevista à DW em 2018, “ela pode usar instrumentos musicais para se comunicar com as pessoas, para falar mais alto e obter mais atenção porque não tem boca. Mas este instrumento musical dá poder para levantar a voz na sociedade. (…) Seus olhos estão fechados porque normalmente não há nada de bom a ser visto, nem mesmo seu futuro. Mas isso não significa que não possa ver“.


A obra “Pesadelo” mostra bem a realidade de uma artista mulher no meio do inferno de um regime teocrático extremamente misógino e abolicionista das diversidades.
Grafite com homem todo na cor preta e mulher de vestido azul e lenço vermelho na cabeça e um pote escuro nas mãos
Talvez seja porque nossos desejos cresceram em um vaso negro“, publicado em 14 de agosto


Por essas e outras que o trabalho de Shamsia Hassadi tem sido visto e pensado como um dos mais influentes dos últimos anos nesse debate delicado e urgente. A ameaça à integridade física, à liberdade social, material, econômica, psicológica e sexual de mulheres dentro do islã e em outras realidades coloca no centro o modo de dominação patriarcal que tem modelado civilizações falhas e cheias de feridas por onde a barbárie se atualiza.

Com a retomada de Cabul e de outras cidades pelo Talebãn tanto Hassadi quanto outras mulheres passaram por verdadeiros momentos de silêncio imposto em nome da própria sobrevivência. Seu “sumiço” em suas redes sociais, por exemplo, foi visto como um sinal de que ela poderia estar sofrendo algum tipo de violência, silenciamento ou abuso imposto por grupos ligados ao poder dos Talebãns.

As mulheres – principalmente ligadas à educação, aos trabalhos liberais, à arte e cultura – evitaram totalmente sair às ruas ou se expor diante dos acontecimentos de violência, com medo de represálias e perseguições, infelizmente bastante comuns em tais contextos. 

No entanto, o fato da nova ascensão ao poder por parte dos extremistas também levou a arte da afegã a circular com muito mais potência nas redes fora do país e atingir lugares até então impensáveis. 

Shamsia, quando pode, ainda tem se manifestado e continuado seu trabalho, como as séries Death to Darkness (“Morte à escuridão”) de sua autoria deixam mostrar a artista não pensa em parar e não vai desistir de buscar a sua liberdade e sua felicidade, independentemente de qual que seja o regime em voga em seu país.  

Grafite com mulher de vestido azul e lenço branco na cabeça chorando aos pés de homem todo negro
“Death to Darkness”, obra feita logo após a retomada do poder por parte do Talebãn
Grafite mostra tanque passando pela cabeça de mulher grávida
Aqui a artista retratou o ataque a uma maternidade em que grávidas e recém-nascidos foram mortos
Desenho sobre foto mostra mulher de preto nas ruínas de uma sala de aula
Nas ruas de Cabul, ela fazia pichações não muito grandes, para que pudesse se mover rapidamente. Para contornar esses desafios, ela começou a tirar fotografias de edifícios e pintar seus grafites diretamente nas fotos, chamando sua série de Dreaming Graffiti (Grafite dos sonhos, em tradução livre)


No momento ela se encontra no país, mas vivendo escondida e não tem dado entrevistas para evitar ser localizada pelo regime dos extremistas.  A artista também revelou certo desconforto em trabalhar nas ruas – disse que tem medo de “trabalhar nos espaços públicos” -, devido à possibilidade de uma surpresa potencialmente fatal no momento.

A obra da artista expressa com uma beleza esplendorosa e colorida todos os desafios e perigos enfrentados por uma mulher que deseja viver e expandir seus afetos e sua arte num mundo constantemente ameaçador.


Shamsia Hassani | Facebook
Letras Taquarenses Blog ***: Tela por tela * Shamsia Hassani / Afeganistão

“Desafiando o medo de trabalhar em público

A natureza pública do grafite atraiu Hassani, que o viu como uma boa maneira de introduzir a arte a pessoas com pouca chance de visitar uma galeria ou museu. Mas trabalhar criativamente em público como mulher em Cabul, mesmo antes da chegada dos talibãs, tinha seus riscos.

“Tenho muito medo de espaços públicos. Tenho muito medo de explosões acontecendo o tempo todo. E especificamente é difícil para mulheres fazer grafite e arte de rua porque normalmente as pessoas não gostam das atividades das mulheres… Sou cuidadosa o tempo todo”, disse ela à DW em 2018.

Nas ruas de Cabul, ela fazia pichações não muito grandes, para que pudesse se mover rapidamente. Para contornar esses desafios, ela começou a tirar fotografias de edifícios e pintar seus grafites diretamente nas fotos, chamando sua série de Dreaming Graffiti (Grafite dos sonhos, em tradução livre).

Hassani também trabalha em seu estúdio, o que levou a uma produção prolífica que inclui desde telas em grande escala até séries em miniatura em notas de dólar – uma reflexão sobre a política externa dos EUA.

Apesar de seu sucesso no mundo da arte, Hassani disse à DW em 2018 que às vezes ficava desanimada por não se sentir em condições de mudar algo. Mesmo assim, ela se sentia comprometida em dar força e poder às pessoas através de seu trabalho: “Acredito que posso influenciar as opiniões das pessoas com minha arte e ao compartilhar minhas ideias com elas.

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Apesar de seu sucesso no mundo da arte, Hassani disse à DW em 2018 que às vezes ficava desanimada por não se sentir em condições de mudar algo. Mesmo assim, ela se sentia comprometida em dar força e poder às pessoas através de seu trabalho:
“Acredito que posso influenciar as opiniões das pessoas com minha arte e ao compartilhar minhas ideias com elas.”” (trecho de matéria original da DW,  que pode ser lida na íntegra aqui.)


Confiram mais algumas obras incríveis da Shamsia Hassadi:

Shamsi Hassani faz obras reflexivas — Foto: Reprodução/Shamsia Hassani

As obras de Shamsi Hassani inspiram milhares de mulheres pelo mundo — Foto: Reprodução/Shamsia Hassani
A arte de Shamsia também absorve diversas referências de acontecimentos e lutas ao redor do mundo, como esta aqui que retoma o debate sobre a morte de George Floyd, asfixiado por um policial racista em Minneapolis, EUA em 25 de maio de 2020 e que desencadeou a onda de levantes do Black Lives Matter



Quis dividir minha arte com as pessoas nas ruas, porque sei que muitas pessoas não podem ir para museus e galerias. Escolhi fazer grafite, porque quero dividir minhas ideias com as pessoas, quero trazer a mulher para a sociedade. As pessoas têm uma ideia muito ruim do Afeganistão e quero mudar essa concepção disso com a minha arte“, explicou Hassani em entrevista ao “The Creators Project”.

 

 

Shamsia Hassani — Google Arts & Culture

Shamsia Hassani: a artista afegã que desafia o machismo através do grafite  nas ruas de Kabul


Shamsi Hassani diz que quer levar esperança para as pessoas  — Foto: Reprodução/Shamsia Hassani

Shamsi Hassani traz reflexão através de suas obras — Foto: Reprodução/Shamsia Hassani

Shamsia Hassani - Official Website

“Porque as obras de Shamsia são tão importantes?

 

Sua arte dá às mulheres afegãs um rosto diferente, um rosto com poder, ambições e vontade de atingir objetivos. A personagem feminina usada em suas obras retrata um ser humano que é orgulhoso, barulhento e pode trazer mudanças positivas para a vida das pessoas.

Durante a última década do pós-guerra no Afeganistão, as obras de Shamsia trouxeram uma enorme onda de cor e afeto a todas as mulheres do país. 

As obras da afegã inspiram milhares de mulheres em todo o mundo e dão uma luz no fim do túnel no atual momento em que elas vivem no Afeganistão.”
(citações retiradas de matéria do G1)

Shamsi Hassani é uma grafiteira afegã — Foto: Reprodução/Shamsia Hassani

Shamsia Hassani wants Afghanistan to be famous for its art - injuredly

Shamsia Hassani | Art in Protest
See how graffiti artist Shamsia Hassani is giving Afghan women a voice  despite the danger - Los Angeles Times
Shamsia Hassani's Graffiti at Kabul - Afghanistan - YouTube
Shamsia Hassani | Art in Protest

Você também pode seguir aqui o perfil da artista no Instagram e lhe deixar uma bela mensagem de apoio!


 

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