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[Tradução] Entrevista com o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti na Interview Magazine

Hoje, nós da Provokeativa presenteamos vocês, nossos caríssimos (e hypocrites – como  fustigava provokeativamente o dândi-flâneur Charles Baudelaire) leitores, com uma tradução inédita desta belíssima entrevista com o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti.

Tivemos a oportunidade de vos apresentar o nosso chérie Ferlingas – coisa de gente íntima, sabe? – aqui em nosso blog em outra matéria a respeito de seu falecimento aos 101 anos. Quem ainda não leu pode acessá-la por aqui – uma excelente oportunidade, diria.

O Lawrence é um grande “modelo” de poeta, livreiro e editor que muito nos incita a fazer nosso trabalho e levar a provocação poética e os distúrbios líricos a outros patamares e lugares, num trabalho infinito de levar a beleza nesse processo de (auto)descoberta partilhada!

A entrevista que trouxemos hoje foi feita por Christopher Bollen no 1 de dezembro de 2012 e publicada na Interview Magazine. Passamos a ela agora – espero que vocês curtam tanto quanto eu curti traduzindo-a!




Ferlinghetti, ícone da geração beat, disse à Folha que era preciso lutar  pelo futuro - 23/02/2021 - Ilustrada - Folha

“A poesia deve ser capaz de responder ao desafio de tempos apocalípticos, mesmo que isso signifique soar apocalíptica.” (Lawrence Ferlinghetti)


Nossos heróis tendem a não possuir lojas. Mas há uma exceção – o poeta Lawrence Ferlinghetti, que sempre imaginei de pé um pouco como George Washington na famosa pintura de Emanuel Gottlieb Leutze, cruzando o Delaware. Exceto que Ferlinghetti estaria em um barco na Baía de São Francisco em vez de num rio oriental, e em vez de soldados da Guerra Revolucionária junto com ele, estariam todos os escritores e poetas revolucionários – Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Frank O’Hara, entre eles – a quem ele ajudou em sua carreira como fundador e editor da livraria e editora City Lights de San Francisco.

A City Lights, inaugurada em 1953, ainda permanece em seu prédio original de esquina em North Beach e se tornou o equivalente literário do Four Corners Monument – um marco onde os visitantes podem ficar em muitos estados diferentes ao mesmo tempo. A City Lights é onde Ferlinghetti começou sua Pocket Poets Series (Nota do tradutor: uma coleção de livros de bolso editadas por Ferlinghetti para divulgar a cena poética contemporânea dele), que incluiu a corajosa escolha de publicar “Uivo” de Ginsberg e a igualmente corajosa não-escolha de enfrentar acusações de obscenidade em um caso que foi a julgamento em 1957 (Ferlinghetti foi considerado inocente e o termômetro veredicto provou ser instrumental na proteção contínua da liberdade artística pela Primeira Emenda).

Ferlinghetti também foi, em diferentes períodos, um marinheiro da Segunda Guerra, um fidelista, um sandinista, um zapatista, um ativista anti-guerra, um ambientalista, um tradutor e um pintor expressionista (uma paixão que ocupa grande parte de seu tempo). Mas aos 93 anos, e ainda um obstinado Sanfransciscano, o homem é antes de tudo um poeta. Sua obra de 1958 Um Parque de Diversões da Mente é um dos livros de poesia mais vendidos na América (apenas no gênero da poesia é um best-seller e também uma obra-prima estética), e seu poema de 1979 “Dois Catadores em um Caminhão, Duas Pessoas Bonitas em uma Mercedes” é, na minha opinião, o melhor poema que trata da luta de classes americana. Todos os sonhos e frustrações da nação residem naquele poema, jogado naquelas linhas diretas e sedutoras: “E os catadores olhando para baixo / como que de uma grande distância / para o casal bacana / como se estivessem assistindo a algum anúncio de TV inodoro / no qual tudo é sempre possível.” O poema termina com “os altos mares desta democracia” , e Ferlinghetti nunca parou de guiar seu barco por aquelas onda tempestuosas. Sua última coletânea, Time of Useful Consciousness [“Tempo de Consciência Útil”, em tradução literal] (New Directions), foi lançada em outubro, uma sequência de seu livro anterior, Americus, de 2004. Ferlinghetti se refere a Ginsberg como “o Whitman de nossa era“, mas Time of Useful Consciouness tem aquela voz épica, galvanizante e saltitante de um Good Grey moderno enquanto Ferlinghetti recria o espírito pioneiro de correr para o oeste por ouro, por liberdade, por arte, por terra, por pura diversão, pela vida – bem como por todas as paradas confusas ao longo do caminho. Ele evoca muitos de seus conspiradores Beats, mas há uma elegia maior nesses versos cafeinados, uma sensação de certa perda do animal americano animado que Ferlinghetti tanto admira e uma nova república maníaca, egoísta e destruidora do clima que não parece merecedora dos personagens que o trouxeram queimando à vida.

Agosto passado, em uma cafeteria pequena em North Beach, encontrei Ferlinghetti para tomar um café. Ele não se parecia em nada com George Washington, e nem perto dos 93. (Uma vida de poesia é o segredo para permanecer jovem pra sempre?) Ferlinghetti tem uma temporada agitada pela frente (depois desta entrevista, soube que um documentário completo chamado Ferlinghetti: A Rebirth of Wonder está sendo lançado pela produtora First Run Features em fevereiro). Mas, como todos os grandes poetas, ele está pensando muito além dos próximos meses. Ele sempre será, para mim, um dos nossos grandes poetas nacionais, e ele é, para citar sua última obra, “aquele que carrega a grande a tradição / E a rompe“.

 

At 95, Lawrence Ferlinghetti Recounts More Than Six Decades of Life in San  Francisco | KQED


Christopher Bollen: O título de seu novo livro de poesia é um termo aeronáutico, não é: Time of useful consciouness é o termo para o tempo que ocorre entre o momento em que um piloto perde oxigênio e o momento em que ele desmaia. Estou interpretando esse título como um aviso para a América agora mesmo.

Lawrence Ferlinghetti: Sim, é quando ainda estamos conscientes e temos tempo para fazer algo para nos salvar. E todo mundo sabe o que deve ser feito, mas não o faz. O Congresso, o mundo corporativo…

Bollen: Por que não o fazem? Porque é mais fácil não fazer?

Ferlinghetti: É mais fácil não fazer isso e os números de vendas podem satisfazer melhor suas necessidades imediatas. É uma gratificação instantânea. Tudo é “eu”, “eu”, “eu”; o contrato social é esquecido e a geração mais jovem nem sabe o que esse termo significa.

Bollen: A desvantagem de nosso ciclo eleitoral é que todos são projetados para pensar no futuro em períodos de quatro anos. E o melhor a fazer se você se tornar presidente é nada, porque nada arrisca a reeleição.

Ferlinghetti: Todo mundo espera que Obama no segundo mandato seja como Franklin Roosevelt em seu segundo mandato. Mas Franklin Roosevelt precisava se preocupar em ser reeleito para seu terceiro. Não havia uma limitação naquela época. Portanto, foi preciso coragem para Roosevelt agir em seu segundo mandato.

Bollen: Acontece de hoje ser o 67º aniversário da bomba atômica lançada em Hiroshima. Você serviu na Segunda Guerra e realmente visitou Nagasaki logo depois que a bomba foi lançada lá.

Ferlinghetti: Estive lá sete semanas depois que a bomba foi lançada. Era como andar em alguma paisagem que não estava no planeta Terra. Foi uma sensação sobrenatural. O local tinha sido limpo – de alguma forma – ou eles não teriam nos deixado entrar. Eu estava saindo do meu navio da Marinha no sul de Kyushu, tivemos um dia de folga e subimos no trem para Nagasaki. Foi horrível de ver. E isso era apenas uma bomba de brinquedo em comparação com as que estão disponíveis hoje em dia.

Bollen: Essa experiência teve algo a ver com sua decisão de se tornar um poeta? Eu imagino essas imagens gravadas em seu cérebro.

Ferlinghetti: Não, eu era poeta muito antes. Mas eu não era político antes disso. Além do mais, eu era um bom menino americano. Eu era um escoteiro nos subúrbios de Nova York – confiável, leal, amigável, cortês, gentil, obediente, alegre, econômico, corajoso, limpo e reverente.


Lawrence Ferlinghetti (1919/2021) | by Ed Caliban | Revista Caliban


Bollen: E você se ateve a todos esses princípios?

Ferlinghetti: Claro. [Risos] Mas não era apenas ir para Nagasaki; estava chegando em San Francisco no momento em que uma nova San Francisco estava nascendo. Cheguei aqui depois de voltar da Sorbonne. Eu era um soldado lá. Cheguei a San Francisco em janeiro de 1951. Após a Segunda Guerra Mundial, a população esta muito desenraizada. Os soldados voltaram para casa por breves períodos e decolaram novamente. Então, a população era muito fluida e, de repente, era como se o continente se inclinasse para o oeste. Toda a população deslizou rumo ao oeste. Demorou 10 anos para a América se fundir em uma nova cultura. E a nova cultura aconteceu em San Francisco, não em Nova York.

Bollen: Sempre me perguntei por que o Oeste tornou-se o caldeirão da juventude e não Nova York.

Ferlinghetti: Eu era de Nova York e tentei me estabelecer lá no final da guerra. Tentei arrumar emprego em editoras e jornais, mas estava tudo costurado. Enquanto que em San Francisco, ainda estava aberto. Ainda era a última fronteira dos anos 40. Parecia que era possível fazer qualquer coisa que você quisesse aqui. E quando você pensa no que aconteceu, o que começou aqui e foi para o leste – assim como a revolução eletrônica que começou no Vale do Silício.

Bollen:“Tempo de Consciência Útil” tem muito a ver com o Oeste – sobre a última fronteira e os viajantes ao longo dessa estrada.

Ferlinghetti: É um de uma série de dois livros. O primeiro começou na Europa, mudou-se para Nova York e terminou com o assassinato de Kennedy. Este livro parte desse ponto e segue para o oeste.

Bollen: E há figuras Beats espalhadas nesses poemas. Eu me pergunto agora como você se alinha com o legado dos poetas Beats.

Ferlinghetti: Não quero dar a eles mais peso do que a outros poetas. A geração boêmia é o que eles chamavam as pessoas que não levavam uma vida convencional antes da Segunda Guerra Mundial. Quando cheguei a San Francisco, ainda estava usando minha boina francesa! E então os Beats como Ginsberg e Kerouac, eles eram alguns anos mais novos do que eu. Eles não tinham idade suficiente para estar na guerra. Portanto, há uma diferença. Minha poética era totalmente diferente da de Allen Ginsberg. Nós tínhamos as mesmas posições políticas. O pano de fundo de Ginsberg era o de imigrante russo, judeu, comunista radical. Radical típico de Nova York. Jogava salada de frutas em piqueniques de etiqueta. Enquanto que eu cresci no muito sóbrio condado de Westchester. Um contexto totalmente diferente. Foi só quando cheguei a San Francisco que comecei a ouvir a primeira rádio gratuita, a KPFA [uma estação de rádio apoiada pela comunidade em Berkeley, Califórnia]. A KPFA tinha acabado de ser fundada em 1949 e era uma estação totalmente diferente do que é hoje. Começou como uma emissora que realmente tinha uma ampla programação cultural para a época. Alan Watts estava lá. E também estava Kenneth Rexroth, o poeta e crítico mais importante em San Francisco. Ele foi publicado pela New Directions em Nova York, publicado no The Nation, coisas assim. E ele tinha um programa. Ele não apenas resenhava livros, ele conhecia todos os campos possíveis – geologia, astronomia, filosofia, lógica, os clássicos. Era educação integral escutá-lo. Era um posição radical. Eu costumava ir a seus saraus na sexta-feira à noite. Muitos poetas apareceriam. Ele morava no distrito de Fillmore, que era negro na época. Ele morava na Scott Street 250, acima da Jack’s Record Cellar. De qualquer modo, as noites de sexta-feira em sua casa eram repletas de jovens e velhos, mas apenas poetas. Foi lá que conheci Kerouac, [Neal] Cassady e Gregory Corso


Adeus a Lawrence Ferlinghetti, fundador da livraria City Lights e poeta  inesgotável | Revista Fahrenheit


Bollen: Você era mais velho. Você esteve na guerra e eles não. Isto deve ter feito sentir uma distinção ou separação entre vocês em termos de experiência de vida.

Ferlinghetti: Definitivamente. Eu já era casado. Estava vivendo uma vida mansa. Acabei sendo aquele que ficava em casa e mantinha a loja. [Risos] Eu realmente tornei-me identificado com os Beats publicando-os.

Bollen: Você poderia avaliar a qualidade do trabalho deles antes de publicá-los? Parecia excepcional na época?

Ferlinghetti: Oh, definitivamente. Eu comecei a Pocket Poets Series dois anos após abrirmos a livraria. A livraria abriu em Junho em 1953, e meu sócio original na livraria era Peter Martin, que era o filho de Carlo Tresca. Você sabe quem Carlo Tresca era? Ele era um anarquista italiano que fora assassinado nas ruas de Nova York. Então, a tendência original da City Lights foi baseada de onde  Peter vinha e no que ouvi na KPFA e Kenneth Rexroth.

Bollen: Então você estava decidido a criar algum tipo de revolução poética. Até mesmo o fato de ser Poetas de Bolso sugere algo para se transportar como um manifesto.

Ferlinghetti: A poesia era muito acadêmica até então. Karl Shapiro era uma espécie de rei da montanha da poesia e liderou uma equipe muito acadêmica como editor da Poetry em Chicago. Mas depois que “Uivo” foi publicado, você não ouviu mais falar de Karl Shapiro. [Risos] Foi mais ou menos como o que aconteceu com a revolução do rock. Antes disso, nos anos 1950, era cool jazz. Você ia a um clube de jazz, era muito escuro, todo mundo de óculos escuro, sentava num canto estalando os dedos – isso era cool, cara. E então, quando a revolução do rock aconteceu no começo dos anos 60, você não ouvia mais o cool jazz. É a mesma coisa como o “Uivo” de Ginsberg. Era um jogo totalmente novo. Ninguém tinha ouvido poesia assim antes. A maioria das figuras literárias dos Estados Unidos antes da guerra – escritores de sucesso como Hemingway – eram alcoólatras. Eles eram todos heterossexuais, machos – bem, nem todos machos, mas principalmente heterossexuais. Gays não eram muito publicados. Então os Beats chegaram e eles não eram alcoólatras. Eles eram dopados. Todos estavam fumando maconha.

Bollen: Como você conseguiu evitar se tornar um dopado?

Ferlinghetti: Bem, eu fumei um pouco de maconha. Mas eu era casado na época. Tive dois filhos. As crianças vieram mais tarde…


Happy Birthday, Lawrence Ferlinghetti! - The Beat Museum

Bollen: Não creio que fumar maconha seja lá tão autodestrutivo, mas a autodestruição parecia um ingrediente maior em algumas das vidas dos poetas Beats.

Ferlinghetti: Não pensei nisso como autodestrutivo. O sentimento geral foi este grande movimento de liberação. Só penso no que os anos 60 fizeram por este país. Mas agora, hoje, você nem saberia o que aconteceu. Você vê todos em cafés em seus computadores. O sentimento de hoje é do materialismo total. Hoje é exatamente como Ginsberg previu. Moloch assumiu.

Bollen: Não é esquisito que as pessoas que estamos mencionando – incluindo você – tenham se tornado ícones culturais e, ainda assim, suas mensagens tenham se perdido completamente? Acho que em St. Marks Place agora mesmo você pode ser cobrado a mais por uma camiseta com o rosto de Ginsberg ou Kerouac.

Ferlinghetti: Kerouac ainda é muito citado atualmente, mas Ginsberg não. Eu vejo muitos livros de Kerouac. Mas o nome de Ginsberg não aparece mais muito.

Bollen: Eu li um ponto interessante sugerido por Christopher Bram em seu livro recente “Foras-Da-Lei Eminentes” sobre os julgamentos do “Uivo” – e você foi quem foi julgado por obscenidade, não Ginsberg. A ideia era que, se o julgamento tivesse ocorrido perante um júri em vez de um juiz, a decisão poderia ter ido em outra direção.

Ferlinghetti: Bem, é possível. De fato, pensamos que foi um azar que tivéssemos o juiz que tivemos porque ele era conhecido como muito conservador.

Bollen: Ele era um professor de escola dominical, não era?

Ferlinghetti: Sim, juiz Clayton Horn. Mas ele estava lendo a decisão do Tribunal [Distrital] dos EUA sobre o Ulisses de James Joyce, e isso realmente estabeleceu o precedente neste caso. Um precedente que Horn estabeleceu foi que você não poderia chamar um livro de obsceno se ele tivesse a menos redentora importância social. Esse era o caso naquela época e assim se manteve por todos esses anos. E permitiu à Groove Press, por exemplo, publicar Henry Miller e D.H. Lawrence. E eles travaram todas as batalhas judiciais por causa disso.

Quote of the Day | Lawrence ferlinghetti, Literary quotes, Quotes
Dica do chérie Ferlingas: “Pense longos pensamentos em frases curtas.”


Bollen:
Você se lembra de como se sentiu antes do veredicto? Você estava pensando, Oh, Deus, eu estou indo para a prisão agora?

Ferlinghetti: Eu pensei que provavelmente iria para a cadeia, mas eu era jovem e tolo, e pensei, bem, não estarei lá por mais do que alguns meses, e terei muitas leituras prontas. Então eu não estava com medo. Achei bem possível que seríamos julgados culpados, de acordo com a moral da época.

Bollen: Você alguma vez viu o juiz novamente? Ou mandou para ele um presente de agradecimento?

Ferlinghetti: [Risos] Não, mas eu costumava tomar café com um juiz em North Beach, e ele acabou sendo aquele que recentemente anulou as leis californianas contra os gays.

Bollen: Noite passada estive relendo Big Sur [N.t.: romance de Jack Kerouac], e é sua cabana que serve de pano de fundo para esse livro. Você ainda é dono daquela cabana?

Ferlinghetti: Sim, eu sou. Meu filho vai lá amanhã.

Bollen: Acho que há um consenso de que Kerouac apreciava seu status entre os adolescentes americanos. Mas no primeiro capítulo de Big Sur, seu alter ego sonha com uma cerca de seis pés de altura em torno de seu quintal para manter os adolescentes fora.

Ferlinghetti: Ele era um alcoólatra total naquela época.


Kerouac & L.F. [Lawrence Ferlinghetti], in front of Ferlinghetti house, 706  Wisconsin St., S.F — Calisphere
Jack Kerouac e Lawrence Ferlinghetti


Bollen: Mas eu me questiono se a fama não é responsável pela destruição de muitas dessas carreiras. A Geração Beat se tornou famosa demais para seu próprio bem – famosa demais para ser capaz de se desenvolver enquanto escritores?

Ferlinghetti: Eles eram casos separados. Depois que Kerouac publicou On The Road e tornou-se nacionalmente famoso, ele desistiu. Ele não saiu mais na estrada com eles. Ele não saía com eles. Ele foi para casa e cuidou de sua mãe. Ele morou em várias partes do país – Flórida e Lowell, Massachusetts. Além disso, você poderia dizer que foi o álcool que destruiu a carreira de Kerouac, mas ele publicou uma quantidade enorme, apesar de quanto ele bebeu. Então eu não acho que você pode culpar a fama. Não foi a fama que o destruiu, foi o álcool. E com Ginsberg, sua carreira não foi destruída. Allen nunca usou drogas a ponto de permitir que as drogas tomassem conta completamente. Ele estava muito focado em ser famoso e ser o novo Walt Whitman. E ele era, de várias maneiras. Ele é a coisa mais proxima que temos de um Walt Whitman moderno. Já na década de 1950, Allen estava “fora do armário rockeando sem parar“.

Bollen: Eu achei o Time of Useful Consciouness muito whitmanesco na forma como você agrupa tantas geografias e vidas em um ritmo americano. Eu também encontrei muitos ecos de T.S. Eliot.

Ferlinghetti: A influência de T.S. Eliot foi enorme na minha geração. Muito mais do que Ezra Pound. Na verdade, eu tive que pôr os livros de T.S. Eliot fora de casa porque minha poesia foi muito influenciada por ela. Tudo o que escrevi soava como Eliot. [Risos] E você está certo, ainda há muito Eliot no livro.

Bollen: Percebi que você metabolizou alguns de seus poemas anteriores nos cantos deste. Por exemplo, há versos de seu grande poema de San Francico “Dois Catadores” (N.d.t.: Two Scavengers…, poema citado no texto introdutório à entrevista). É interessante reciclar peças antigas e aplicá-las a uma narrativa diferente.


Aos 101 anos se vai o grande poeta e editor Lawrence Ferlinghetti -  ProvokeAtiva
Ferlingas com o poeta Allen Ginsberg


Ferlinghetti:
Você pode publicar um poema que você acha que é um poema muito importante, e você não ouve uma palavra de ninguém. Ninguém fala comigo sobre isso, ninguém me escreve sobre isso e, ainda assim, milhares e milhares de cópias do livro foram impressas. Você pode publicar um livro de poesia largando-o de um penhasco e esperando ouvir um eco. Muitas vezes, você nunca ouvirá nada. Então, fazer isso, usando um trabalho mais antigo, colocando-o em um contexto, e isso meio que força o leitor a perceber qual é a sua importância – se é que ela tem alguma. Tudo precisa de um contexto. Você não vai reconhecer um poeta a menos que tenha um contexto. Ginsberg tinha um contexto definido e Kerouac também. Você tinha uma perspectiva ou visão de mundo de como falar sobre eles. Tive sorte de ter a livraria.

Bollen: Eu queria te perguntar um pouco sobre Frank O’Hara. Você publicou seus Lunch Poems (N.d.t: “Poemas de Almoço”) em 1964. Como foi trabalhar com ele?

Ferlinghetti: Foi tudo por cartões postais. Acho que nunca conversamos pessoalmente sobre isso. Eu não sei o que me levou a escrever para ele. Acho que li um poema que ele escreveu na hora do almoço quando estava trabalhando no MoMA. Eu disse: “Que tal um livro de poemas para o almoço?” E ele me enviou um cartão postal com uma palavra: “Sim”. Esperei de seis meses a um ano e escrevi: “Que tal almoçar?/E o almoço?” Ele escreveu de volta: “Está cozinhando”. E talvez mais dois anos se passaram antes que ele finalmente mandasse seus poemas para mim.

Bollen: Você sentiu, quando estava começando a City Lights, uma diferença real entre o que você estava fazendo e o que já estava lá fora?

Ferlinghetti: Oh, sim. Era um jogo totalmente novo aqui. Por um lado, as livrarias em todo o país não abriam nos fins de semana ou à noite. Então abrimos imediatamente das 10h às 2h da madrugada. Isso era algo totalmente inédito nas livrarias. Também tínhamos uma estante de periódicos. Não existiam tais coisas nas livrarias antes disso. Queríamos ter as publicações mais radicais da esquerda até as publicações mais radicais da direita. North Beach, na época, ainda era muito italiana, e de uma boemia no estilo antigo. E havia uma livraria italiana bem onde hoje fica a City Lights. A população italiana de North Beach era dividida entre os anarquistas italianos e os seguidores de [Benito] Mussolini.

Bollen: [Risos] Então você se encaixa bem?

Ferlinghetti: Costumávamos obter alguns jornais anarquistas italianos direto da Itália. E os italianos nos caminhões de lixo paravam na frente da loja e corriam para pegar seus exemplares. E, você sabe, a outra ideia para a livraria era fazer com que funcionasse como um centro comunitário. Eu realmente tentei construir isso porque, considerando o que a revolução eletrônica fez com as livrarias, é cada vez mais importante que haja centros comunitários com pessoas reais conversando com pessoas reais.


Lawrence Ferlinghetti with copies of Allen Ginsberg's Howl… | Flickr
O jovem editor Lawrence Ferlinghetti exibe alegremente exemplares do “Uivo” do Ginsberg, livro de sua coleção Pocket Poets Series que lhe levou a enfrentar as cortes num processo por “obscenidade”. Os processos judiciais tornaram os autores da Geração Beat – e o seu editor – nacionalmente famosos.


Bollen: Nos anos 80, você era um grande apoiador dos sandinistas. Na verdade, você foi à Nicarágua e se encontrou com [Daniel] Ortega. Você acha que poesia e política são companheiros naturais?

Ferlinghetti: Não, eles não combinam naturalmente. Gostaríamos de escrever apenas poesia lírica. O problema é que o indivíduo está indo em frente concentrado em suas próprias gratificações pessoais, casos de amor, finanças e tudo mais. Mas andando ao lado dele está esse labrego fascista que continua tentando assumir o controle. E se você continuar a ignorá-lo, ele ficará cada vez maior, então de vez em quando o indivíduo livre tem que se afastar de suas buscas particulares e dar a esse labrego fascista alguns remendos e derrotá-lo.

Bollen: Você se envolveu em mais do que alguns protestos radicais em seu tempo. Você não se juntou a outros artistas que se recusaram a pagar seus impostos em protesto contra a Guerra do Vietnã?

Ferlinghetti: Eu realmente admirei [a cantora folk] Joan Baez, que fez isso. Na verdade, eu não segui os impostos retidos na fonte. O que fiz por vários anos foi um protesto simbólico, retendo apenas um dólar em minha declaração de impostos e escrevendo uma carta para acompanhá-lo, que algum burocrata teve que gastar tempo examinando e fazendo algo com ela. Foi um pequeno protesto simbólico, dizendo “Este é o um dólar que estou retendo dos gastos militares do governo.” Mas acho que é uma ação bastante tímida.

Bollen: E quanto ao seu apoio a Castro: No auge da Guerra Fria, não tímido apoiar o comunismo.

Ferlinghetti: Comunismo não foi a palavra que pensei quando fui em Cuba. Os fidelistas originais não eram comunistas. Eles eram alunos de pós-graduação na universidade e estudantes de direito. Depois que os fidelistas assumiram, eles foram a Washington e tentaram obter o apoio do governo dos EUA, que os recusou. Eles estavam em uma situação política e econômica desesperadora, então aceitaram a oferta da União Soviética. O comunismo era uma questão de necessidade. Lembro que certa vez li em um jornal da Nicarágua uma entrevista com Fidel [Castro] na qual ele disse: “Não sou um seguidor de Moscou, mas sim sua vítima“. Mas esse tipo de coisa nunca é citada na imprensa norte-americana. Mas acho que reter um dólar dos meus impostos me torna um dissidente bastante tímido. Pode-se dizer que sou um turista de revoluções. Nos anos 50 e 60, eu era um fidelista. Mais tarde, tornei-me um sandinista e, mais tarde, um zapatista. Eu ainda sou um fidelista. E ainda estou a favor da revolução sandinista original, que, infelizmente, já passou. Hoje a imprensa fez do socialismo um palavrão. O que é necessário neste país é um debate sobre se é possível ter um socialismo humanitário que seja melhor do que um capitalismo de bem-estar.

Bollen: Há uma tensão em Tempo de Consciência Útil entre a América de hoje e os artistas pioneiros que você elegeu viajando pelo país no século passado. Você acha que aquela linhagem de americanos – dos mineiros da corrida do ouro a Bob Dylan – era uma linhagem diferente dos americanos de hoje?

Ferlinghetti: É realmente estranho porque você vai a algum lugar público hoje e vê todos bem vestidos, cabelos curtos, em seus computadores, e ainda assim cada uma dessas pessoas veio daquela velha população de colonos americanos. E você se pergunta: “Onde está a conexão?” E a maioria dessas pessoas nem sabe de onde veio. Eles não têm consciência do que seus avós passaram para existir.

Bollen: A história se foi – o que pode ser libertador, mas também pode ser terrivelmente sem raízes.

Ferlinghetti: É como o título do livro de Gore Vidal, Os Estados Unidos da Amnésia. Exista apenas uma ignorância hoje. É realmente surpreendente.

Bollen: Há um pouco dos Beats em sua ênfase em viajar – pegando a estrada – nesses poemas. Você fez muitas viagens pelo país recentemente?

Ferlinghetti: Faz muito tempo que não viajo de trem. Não desde os anos 70.


Os livros proibidos de Lawrence Ferlinghetti « Blog da L&PM Editores
“Livros Banidos”


Bollen: Acabei de ler no jornal de hoje que os ambientalistas salvaram o Donner Summit de se tornar um desenvolvimento. Agora está programado para ser um parque. Portanto, há esperança de que possa haver um impacto positivo na preservação da história e na proteção da natureza.

Ferlinghetti: Bem, o governador [Jerry] Brown está fazendo o seu melhor. Você sabe, em seu primeiro mandato como governador, ele era conhecido como Governador Raio-Lunar. Raio-Lunar!

Bollen: Quando você trabalhou como editor da Pocket Poets Series, estava fortemente envolvido na edição dos poemas? Ou sua abordagem era mais sem interferência?

Ferlinghetti: Oh, não. Eu estava trabalhando muito próximo ao poeta. Fui o editor de Ginsberg até os últimos anos, quando ele foi comprado por uma grande editora de Nova York. Ele finalmente teve uma grande capa dura de poemas coletados, mas até os últimos dez anos de sua vida, eu era seu editor. Tive muito a ver com a forma final dos poemas. Há uma seção inteira do “Uivo” original – página inteira, espaço simples, com seu próprio algarismo romano – que o persuadi a deixar fora. Ele nunca reconheceu isso, mesmo quando escreveu um livro inteiro sobre a criação de “Uivo”, anotando cada mudança. Eu também mudei o título. O título original era “Uivo para Carl Solomon“, tudo em uma linha. Isso o tornava um poema muito particular. Eu o persuadi a colocar Carl Solomon em outra página. Então, “Uivo” por si só se tornou o título. Isso fez uma grande diferença.

Beat Poet, Publisher Lawrence Ferlinghetti Dies at 101
Aqui Ferlinghetti e Ginsberg participam de um protesto em 1971 a respeito de prisões arbitrárias feitas pela ditadura civil-militar aqui no Brasil


Bollen:
Você ainda continua fazendo leituras de poesia?

Ferlinghetti: Não, estou abandonando. Eu faço uma muito de vez em quando, mas geralmente estou tentando não fazer mais. Eu preferiria me concentrar em pintar.

Bollen: Eu vi uma há alguns anos atrás onde você acompanhou sua leitura com uma gravação de música da natureza.

Ferlinghetti: Eu estava tocando uma harpa automática?

Bollen: Não. Tinha o som de golfinhos ou gaivotas.

Ferlinghetti: Eu estava em The Last Waltz [1978]. Você viu aquilo? Eles filmaram isso no Winterland [Ballroom]. Eu li uma variação de “Oração do Senhor“. Eles pediram que muitos poetas viessem. Nenhum deles se preocupou em estar no microfone. Eu era o único que estava realmente no microfone. Era um hospício os bastidores, na sala verde.



Bollen: Você já disse que muitos poetas escrevem melhor na juventude. Uma espécie de efeito Rimbaud. Você está escrevendo poesia aos 93 anos. Há alguma vantagem em envelhecer para escrever?

Ferlinghetti: Todo mundo é poeta aos 16, mas quantos são poetas aos 50? Geralmente, as pessoas parecem ficar mais conservadoras à medida em que envelhecem, mas, no meu caso, parece que fiquei mais radical. A poesia deve ser capaz de responder ao desafio dos tempos apocalípticos, mesmo que isso signifique soar apocalíptico.

 

Tradução livre: IkaRo MaxX

Você pode acessar a versão original aqui (mas, só se você quiser 😉 )


 

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