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[Tradução] Entrevista da poeta e escritora Sylvia Plath por Peter Orr em 1962

Sylvia Plath, poeta de peso e escritora confessional norte-americana nascida em Boston em 1932, talento precoce que teve seu primeiro poema publicado num jornal local aos 8 anos, não teve uma vida fácil: uma semana e meia após seu aniversário perdeu o seu pai Otto Plath, durante os anos na faculdade tenta suicídio algumas vezes (e relata sobre eles em episódios contidos no seu único romance publicado A Redoma de Vidro), após isso acaba indo parar na ala psiquiátrica de um hospital psiquiátrico onde passa por tratamento de eletrochoques, e em 1955 casa-se com o poeta e professor universitário inglês Ted Hughes (cujo talento literário nunca chegou sequer perto do brilho sagaz e cortante de sua esposa) com quem tem dois filhos e de cujas infidelidades sofre e se tortura.

Ao cabo de oito anos de felicidade doméstica entrecortada por constantes conflitos, por ver os trabalhos de seu marido conseguirem maior penetração e aceitação editorial do que o seu (que, como disse, sempre teve uma qualidade e originalidade muito maior), cansada das injustiças dentro e fora de seu lar, Sylvia se suicida na manhã de 11 de fevereiro de 1963 – antes mesmo de fazer 31 anos, jovem, talentosa e completamente desiludida – depois de preparar o café da manhã dos filhos. Veda as portas e janelas de sua cozinha, fecha a porta, liga o gás do fogão, coloca lá a sua cabeça e aguarda a morte chegar. Em vida Sylvia só teve um livro de publicado, em 1960, chamado The Colossus and other poems.  

É difícil não olhar para uma biografia e não se incomodar visceralmente.  Bem como não se sentir aflito por ver Sylvia e sua obra sempre sendo posta e reavaliada nesse lugar da dor, do sofrimento e do suicídio. Esse clichê ajuda a criar uma caricatura que não chega sequer perto da complexidade do mundo subjetivo dessa poeta e autora cujo trabalho traz um eu-lírico sagaz e corajoso que se mostra completamente despojada de qualquer armadura e deixa sua alma à proximidade das mãos do leitor.  

Hoje, nós da Provokeativa, para fazermos um pequeno tributo a essa maravilhosa poeta e ser humano belo (e constantemente injustiçado, mesmo com todo o reconhecimento posterior – que em si já demonstra algo altamente perigoso e hipócrita em nossa cultura) que já esteve entre nós apresentamos hoje essa tradução que fiz desse bate-papo de Sylvia Plath com o Peter Orr, que foi cabeça de um projeto na Inglaterra chamado Poetry Foundation que entre 1955-1975 entrevistou poetas de destaque. A conversa aconteceu no ano de 1962.

Vamos à entrevista:   

 

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PETER ORR: Sylvia, o que a fez começar a escrever poesia?

SYLVIA PLATH: Eu não sei o que me fez, eu só escrevi desde quando era bem pequena. Acho que eu gostava de canções de ninar e achei que poderia fazer a mesma coisa. Escrevi meu primeiro poema, meu primeiro poema publicado, quando tinha oito anos e meio de idade. Saiu no The Boston Traveller e, a partir daí, suponho, tenho me tornado um pouco profissional.

ORR: Sobre que tipo de coisa você escreveu quando começou?

PLATH: Natureza, acho: pássaros, abelhas, primavera, outono, todos esses assuntos que são presentes absolutos para quem não tem nenhuma experiência interior sobre a qual escrever. Acho que a chegada da primavera, as estrelas no céu, a primeira nevasca e por aí em diante são verdadeiros presentes para uma criança, um jovem poeta.

ORR: Agora, pulando os anos, você pode dizer se há algum tema que a atrai particularmente como poeta, coisas sobre as quais você sente que gostaria de escrever?

PLATH: Talvez isso seja uma coisa americana: estou muito animada com o que sinto ser o novo avanço que veio com, digamos, os Estudos de Vida de Robert Lowell, esse avanço intenso em uma experiência emocional muito séria, muito pessoal que sinto que tem sido parcialmente tabu. Os poemas de Robert Lowell sobre sua experiência em um hospital psiquiátrico, por exemplo, me interessam muito. Esses assuntos peculiares, privados e tabu, eu sinto, foram explorados na poesia americana recente. Eu acho que particularmente a poeta Ann(e) Sexton, que escreve sobre suas experiências como mãe, como uma mãe que teve um colapso nervoso, é uma jovem extremamente emotiva e sentimental e seus poemas são maravilhosamente artesanais e ainda assim têm uma espécie de profundidade psicológica que eu acho que é algo talvez bastante novo, bastante excitante.



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ORR:
Agora você, como um poeta, e uma pessoa que atravessa o Atlântico, se posso colocar dessa forma, sendo você mesma uma americana…

PLATH: Essa é uma posição um tanto embaraçosa, mas vou aceitá-la!

ORR: …de que lado seu peso cai, se eu puder seguir a metáfora?

PLATH: Bem, acho que, no que diz respeito à língua, sou americana, infelizmente, meu sotaque é americano, minha maneira de falar é uma maneira americana de falar, sou uma americana à moda antiga. Essa é provavelmente uma das razões pelas quais estou na Inglaterra agora e sempre ficarei na Inglaterra. Estou cerca de cinquenta anos atrasada no que diz respeito às minhas preferências e devo dizer que os poetas que mais me excitam são os americanos. Existem muito poucos poetas ingleses contemporâneos que eu admiro.

ORR: Isso significa que você acha que a poesia inglesa contemporânea está atrasada em comparação com a americana?

PLATH: Não, acho que isso é um pouco como uma camisa-de-força, se assim posso dizer. Houve um ensaio de [Al] Alvarez, o crítico britânico: seus argumentos sobre os perigos da gentileza na Inglaterra são muito pertinentes, muito verdadeiros. Devo dizer que não sou muito gentil e sinto que a gentileza tem um estrangulamento: a limpeza, a organização maravilhosa, que é tão evidente em toda a Inglaterra, é talvez mais perigosa do que parece na superfície.

ORR: Mas você também não acha que existe esse negócio de poetas ingleses que estão trabalhando sob todo o peso de algo que em letras maiúsculas se chama “Literatura Inglesa”?

PLATH: Sim, eu não poderia concordar mais. Eu sei que quando eu estava em Cambridge isso me apareceu. As jovens vinham até mim e diziam: “Como você ousa escrever, como se atreve a publicar um poema, por causa da crítica, da crítica terrível, que recai sobre quem se publica?” E a crítica não é do poema como poema. Lembro-me de ter ficado chocada quando alguém me criticou por começar exatamente como John Donne, mas sem conseguir terminar como John Donne, e naquele momento senti todo o peso da Literatura Inglesa sobre mim. Acho que toda a ênfase na Inglaterra, nas universidades, na crítica prática (mas não tanto quanto na crítica histórica, sabendo de que período vem um verso) é algo quase paralisante. Na América, na universidade, lemos – o quê? – T.S. Eliot, Dylan Thomas, [W. B.] Yeats, foi por aí que começamos. Shakespeare se exibia ao fundo. Não tenho certeza se concordo com isso, mas acho que para o jovem poeta, o poeta escritor, não é assustador ir para a universidade na América como é na Inglaterra, por essas razões.



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ORR:
Você diz, Sylvia, que se considera uma americana, mas quando ouvimos um poema como “Daddy”, que fala sobre Dachau e Auschiwitz e ‘Mein Kampf’, tenho a impressão de que este é o tipo de poema que um verdadeiro americano não poderia ter escrito, porque não significa tanto, esses nomes não significam tanto, do outro lado do atlântico, não é?

PLATH: Bem, agora você está falando comigo como uma americana em geral. Em particular, minha formação é, devo dizer, alemã e austríaca. Por um lado, sou uma americana de primeira geração, por outro, sou uma americana de segunda geração e, portanto, minha preocupação com os campos de concentração e assim por diante é excepcionalmente intensa. E, de novo, também sou uma pessoa bastante política, então suponho que é daí que vem parte disso.

ORR: E enquanto poeta, você tem um grande e apurado senso do histórico?

PLATH: Eu não sou uma historiadora, mas me vejo cada vez mais fascinado pela história e agora me vejo lendo cada vez mais sobre a história. Estou muito interessada em Napoleão, no presente: estou muito interessada em batalhas, guerras, em Galípoli, e Primeira Guerra Mundial e assim por diante, e acho que à medida que envelheço estou me tornando cada vez mais histórica. Certamente eu não estava de jeito nenhum nos meus vinte e poucos.

ORR: Seus poemas tendem agora a sair de livros em vez de sua própria vida?

PLATH: Não, não: eu não diria isso de forma alguma. Acho que meus poemas vêm imediatamente das experiências sensuais e emocionais que tenho, mas devo dizer que não posso simpatizar com esses gritos do coração que não são informados por nada exceto uma agulha ou uma faca, ou seja o que for. Acredito que se deve ser capaz de controlar e manipular suas experiências, mesmo as mais terríveis, como a loucura, ser torturado, esse tipo de experiência, e deve-se ser capaz de manipular essas experiências com uma inteligência mínima e informada. Eu acho que experiência pessoal é muito importante, mas certamente não deve ser um tipo experiência narcisista de caixa fechada e mirar-se no espelho. Eu acredito que deve ser relevante, e relevante para as coisas maiores, coisas maiores como Hiroshima e Dachau e daí em diante.

ORR: E então, por trás da reação emocional primitiva, deve haver uma disciplina intelectual.

PLATH: Sinto isso fortemente: tendo sido uma acadêmica, tendo sido tentada pelo convite para ficar para me tornar uma Phd, uma professora e tudo isso, um lado de mim certamente respeita todas as disciplinas, desde que elas não ossifiquem.


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ORR:
E quanto aos escritores que influenciaram você, que significaram muito para você?

PLATH: Haviam muito poucos. Acho que é difícil rastreá-los realmente. Quando eu estava na faculdade, fiquei pasma e espantada com os modernos, com Dylan Thomas, com Yeats, até com [Jane] Auden: a certo ponto eu estava absolutamente louca por Auden e tudo o que escrevia era desesperadamente audenesco. Agora começo a voltar mais atrás, começo a olhar para [William] Blake, por exemplo. E então, é claro, é presunçoso dizer que se é influenciado por alguém como Shakespeare: lê-se Shakespeare e eis tudo.

ORR: Sylvia, ao ler e ouvir seus poemas, percebe-se que há duas qualidades que emergem muito rápida e claramente; uma é sua lucidez (e acho que essas duas qualidades têm algo a ver uma com a outra), sua lucidez e o impacto que causam na leitura. Agora, você conscientemente projeta seus poemas para serem lúcidos e eficazes quando são lidos em voz alta?

PLATH: Isso é algo que não fiz em meus poemas antigos. Por exemplo, meu primeiro livro, The Colossus, não consigo ler nenhum poema em voz alta agora. Eles, na verdade, de forma bastante privada, me aborrecem. Esses que acabei de ler, os que são muito recentes, tenho que dizê-los, falo-os para mim mesmo, e acho que isso no meu próprio desenvolvimento de escrita é uma coisa bastante nova para mim, e qualquer que seja a lucidez que eles possam ter vem do fato de que eu os digo a mim mesma, eu os recito em voz alta.

ORR: Você acha que este é um ingrediente essencial de um bom poema, que deve ser capaz de ser lido em voz alta efetivamente?

PLATH: Bem, eu sinto isso agora e sinto que esse desenvolvimento de gravar poemas, de recitar poemas em leituras, de ter gravações de poetas, acho isso uma coisa maravilhosa. Estou muito animada com isso. Em certo sentido, há um retorno, não é, ao antigo papel do poeta, que era falar para um grupo de pessoas, de encontrar.

ORR: Ou cantar para um grupo?

PLATH: Cantar para um grupo de pessoas, exatamente.



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ORR: Deixando de lado a poesia por um momento, há outras coisas que você gostaria de escrever ou que escreveu?

PLATH: Bem, sempre me interessei por prosa. Quando adolescente, publiquei contos. E eu sempre quis escrever um longo conto, queria escrever um romance. Agora que atingi, devo dizer, uma idade respeitável e tive experiências, sinto-me muito mais interessada em prosa, em romance. Eu sinto que em um romance, por exemplo, você pode entrar em escovas de dente e toda a parafernália que se encontra na vida diária, e acho isso mais difícil na poesia. Poesia, eu sinto, é uma disciplina tirânica, você tem que ir tão longe, tão rápido, em um espaço tão pequeno que você apenas precisa desviar todos os periféricos. E eu sinto falta deles! Sou uma mulher, gosto dos meus pequenos ‘Lares and Penates‘, gosto de curiosidades, e acho que num romance posso obter mais de vida, talvez não uma vida tão intensa, mas certamente mais da vida, e assim como resultado me tornei muito interessada em escrever romances.

ORR: Essa é quase uma visão do Dr. [Samuel] Johnson, não é? O que foi que ele disse, “Há algumas coisas que podem ser incluídas na poesia e outras que não”?

PLATH: Bem, é claro, como poeta eu diria ‘pff!”. Eu diria que tudo deveria estar apto a ir para um poema, mas eu não posso colocar escovas de dente em um poema, eu realmente não posso!

ORR: Você se encontra muito na companhia de outros escritores, de poetas?

PLATH: Eu prefiro muito mais médicos, parteiras, advogados, qualquer coisa menos escritores. Acho que escritores e artistas são as pessoas mais narcisistas. Não devo dizer isso, gosto de muito deles, na verdade muito dos meus amigos são escritores e artistas. Mas devo dizer que o que mais admiro é a pessoa que domina uma área de experiência prática e pode me ensinar algo. Quero dizer, minha parteira local me ensinou como cuidar de abelhas. Bem, ela não consegue entender nada do que eu escrevo. E descubro que estou gostando dela, devo dizer, mais do que da maioria dos poetas. E entre meus amigos encontro pessoas que sabem tudo sobre barcos ou sabem tudo sobre certos esportes, ou como abrir alguém e remover um órgão. Estou fascinada por essa maestria do prático. Como poeta, vive-se um pouco no ar. Sempre gostei de alguém que pode me ensinar algo prático.



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ORR:
Há alguma outra coisa que você preferiria ter feito do que escrever poesia? Porque isso é algo, obviamente, que ocupa grande parte da vida privada de uma pessoa, se quisermos ser bem sucedidos nisso. Você já se arrependeu de não ter feito outra coisa?

PLATH: Acho que, se tivesse feito outra coisa, gostaria de ter sido uma médica. Esse é o tipo de oposição polar a ser um escritor, suponho. Meus melhores amigos quando eu era jovem sempre foram médicos. Eu costumava vestir um capacete de gaze branca e dar uma volta e ver bebês nascendo e cadáveres abertos. Isso me fascinou, mas nunca consegui me disciplinar a ponto de aprender todos os detalhes que é preciso aprender para ser uma boa médica. Esse é o tipo de oposição: alguém que lida diretamente com as experiências humanas, é capaz de curar, remendar, ajudar, esse tipo de coisa. Suponho que se tenho nostalgias é isso, mas me consolo porque conheço muitos médicos. E posso dizer, talvez, que estou mais feliz escrevendo sobre médicos do que se seria se tivesse sido uma.

ORR: Mas basicamente essa coisa, escrever poesia, é algo que tem sido uma grande satisfação para você em sua vida, não é?

PLATH: Oh, satisfação! Eu não acho que poderia viver sem isso. É como água ou pão, ou algo absolutamente essencial para mim. Sinto-me absolutamente realizada quando escrevo um poema, quando estou escrevendo um. Tendo escrito um, então você rapidamente deixa de ter sido um poeta para se tornar uma espécie de poeta em descanso, o que não é a mesma coisa em absoluto. Mas acho que a experiência real de escrever um poema é magnífica.

 

Do livro “The Poet Speaks: Interviews with Contemporary Poets Conducted by Hilary Morrish, Peter Orr, John Press, and Ian Scott-Kilvery“. London: Routledge (1966).

Leia o original aqui (claro, só se quiser).


 


 

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